A piada é velha, mas o seu efeito educativo é renovado. O marido traído ao saber que a mulher o passava para trás no sofá da sala tomou a providência que lhe pareceu mais adequada, mudando o móvel de lugar.
Há um pouco disso tudo na profilaxia do governo FHC, adotada às pressas, para reduzir os impactos decorrentes do escândalo da compra de votos: a blitz para levar deputados a retirarem a assinatura do pedido de CPI, o empenho em evitar que Sérgio Motta, referido nas fitas claramente, não seja sequer citado no relatório da sindicância, a renúncia de dois dos envolvidos no flagra do ‘‘grampo’’, que parece também ter o dedo ou a inspiração do sistema em desagregação.
Fernando Henrique vai perder muito da sua majestade daqui para a frente. Se andava com jeito de Luis XIV, pelo fulgor triunfalista e pelo inegável charme que ainda mantém, ficará cada vez mais com o jeitão trágico de um governante que foi apanhado em pecado mortal. Sua lealdade ao assessor-chave e tesoureiro de campanha, Sérgio Motta, que assume o lado kamikaze do governo pasteurizado, o coloca no olho do furação da crise. Toda articulação de ‘‘panos quentes’’, por mais que aparente normalidade formal, será debitada em nova queda de pontos superior aos 20 registrados no IBOPE e anteriores à revelação da trama.
Também denúncias contra um cabo eleitoral-chave determinaram o ‘impeachment’ do outro Fernando, menos qualificado como currículo e competência, mas já transformado, pelo marketing, num herói de história em quadrinhos, que andava em supersônicos e tentava crescer e empolgar com a velocidade da luz. Aquilo acabou deflagrando uma CPI e o processo incontrolável da queda do governo. E é porque acreditam que a poeira vai assentar que os governistas sufocam qualquer possibilidade de esclarecimento, como havia reclamado, no início, o presidente da República.
Não vão esclarecer nada. Em compensação não poderão evitar que nas imagens da campanha eleitoral registrem o papo da compra de votos, desde anteontem na Internet, mais a marcha dos sem terra, a questão da Vale do Rio Doce, a carga do desemprego, o massacre de Corumbiara e de Eldorado de Carajás. Age bem a oposição em colocar, desde já, nos programas eleitorais gratuitos questões sórdidas como essa da compra de votos. E enquanto o Senado aprova a reeleição, em que pese todo o ocorrido, percebe-se o quanto as instituições formais, que deveriam representar a sociedade, se distanciam do seu verdadeiro papel e da Nação.
BIZARRICE No meio das intrigas de deputados contra Lerner descobriram um bode ‘‘respiratório’’ como dizia o vereador do Piauí: urge decapitar Lechinski. Aí eles chegam em casa ou retornam ao psicanalista e dizem para sí mesmos que derrubar o Jaime era uma questão de honra. Só que se atiravam no polaco mais fraco e de caneta vazia, como vivem reclamando os veículos.
VERGONHA A Feira Interamericana do Livro é um vexame geral. Começa pelo local, o horrendo Centro de Exposições do Barigui, adequado ao clima hoje do rio assoreado e com odor próprio, área já verificada inviável em promoção recente de supermercadistas. Cobram entrada (Virmond, o secretário, diz que é para evitar que maloqueiro se aproxime) e cara, os livros não estão com preços compatíveis para a mostra (afinal o objetivo é promocional) e as visitas de colégios não estão sincronizadas com o que ora se tem o vazio absoluto, ora a superlotação.
Para coroar tudo isso, o governador, esquiando na maionese, vem com outro daqueles projetos que não saem dos diagramas: o Paraná como pólo editorial quando não tornou realidade um só dos pontos daquele mapinha intolerável que vive a rabiscar. Cadê os anéis de integração, a Costa Oeste, o canal ligando Pontal do Sul a Matinhos, onde haverá mais resíduo fecal do que peixes?
Em suma a feira do livro estava uma brochura.
AUTOFAGIA Senadores aprovaram a rolagem da dívida do município de São Paulo, quando esse assunto está sob o foco da CPI dos precatórios. No entanto negaram andamento aos projetos de interesse do Paraná sob a alegação de que não temos demonstrada a capacidade de endividamento e o governo oculta as concessões que faz às montadoras. Não consta que qualquer estado-membro tenha aberto essa caixa preta em qualquer tempo. Portanto é apenas autofagia de Requião e Osmar Dias.
Há autofagia, mas ela não seria tão forte se o governo se fizesse respeitar e soubesse abrir clareiras políticas que não fossem o estrito caminho da cúpula: presidência da República e do Senado, ministério do Planejamento. Impensável imaginar qualquer antecessor de Lerner, até mesmo Mário Pereira, admitir isso sem uma reação adequada, inteligente e afirmativa.
FOLCLORE 1 Quando houve a notícia da renúncia dos deputados federais, a primeira indagação que corria nas ruas era essa: ‘‘quanto será que levaram?’’
FOLCLORE 2 Em São Paulo houve um choque entre sem teto e sem tato. Os sem tato mataram três sem teto, mas tiveram feridos. Havia, nas proximidades, muitos que andam atrás de emprego público e candidatos não eleitos, os sem têtas.
CROMO E esse céu carregado, tenso, que lembra tumor latejante aguardando o bisturi da purgação e do desafogo, quando irromperá as comportas? Há uma festa à chuva anunciada que vai dar de beber aos nossos mortos, saturar o seio da terra, devolver a vida aos nossos rios.
AFORÍSTICO Se essa história da venda de votos contaminar mesmo FHC os políticos da terra, como Álvaro Dias e Jaime Lerner, continuarão brigando para receber a luz desse apoio ou tomam juízo e assumem caminho próprio?

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