O lado burlesco do golpe
Há quem ache uma heresia fazer anedotas sobre o golpe de 64. Santificadas as vítimas e demonizados os beneficiários, como a Redentora é hoje abertamente atacada até pelo Delfim Netto, ainda que recorrendo a sutilezas, não são poucos os que repelem qualquer visão caricatural como se o assunto fosse sagrado.
O fato é que houve muita coisa engraçada. Por exemplo: no dia 1º de abril, o livreiro Aristides Vinholes ia ao café da Boca Maldita de Curitiba e certamente no íntimo lamentava a sequência de acontecimentos com os quais não se conformava, por sua dupla condição de esquerdista e democrata.
Lá encontrou o médico jornalista Aloysio Blasi que, com o cachimbo de espuma do mar à boca, mostrava que a parada estava decidida. Nem o mitológico e badalado coronel Crisanto (na esquerda essas figuras eram cultuadas como super-heróis) a alteraria. Vinholes se irritava fácil com a realidade (aliás esquerdista está sempre na contramão dela) e, por pura provocação, com sua incrível dialética, mostrava que as coisas não eram bem assim. E depois de provar com dados geopolíticos que o quadro ia mudar, deu uma risada sinistra e disse em voz alta: ‘‘Agora é que o sangue vai correr’’.
Às 2 e pouco ao entrar na Livrobrás, livraria que gerenciava, Aristides foi preso. Se naquele tempo pensamento e supostas intenções eram olhados como fato, não poderia dar outra coisa.



O FINGIMENTO
Numa das primeiras levas de presos havia muita gente do interior. Meu tio, Alfredo Mazza, comunista intituitivo, precisou, em Ponta Grossa, trocar um cheque na casa do líder esquerdista e seu amigo, Felipe Chede. Bem na hora chegou a turma do Exército (naquela cidade deitaram e rolaram) e da polícia que levou o Chede e meu tio.
Na prisão, o Ahú, havia muita gente serena, mas também não eram poucos os descompensados e alguns angustiados. Meu tio flagrou um deles chorando de forma convulsiva. Aproximou-se do companheiro e aconselhou-o: ‘‘Faça como eu e finja que é homem!’’ Fortalecia o outro com a idéia de que também tinha medo, mas que era indispensável dissimular.

CANDINHO A briga entre ‘‘Pombos’’ e ‘‘Falcões’’ do regime militar era permanente: os grupos se revezavam no poder e em áreas de influência. Ney Braga, dos ‘‘Pombos’’ (Castelo Branco, Geisel e, de certa forma, o próprio João Figueiredo), era visado pelos ‘‘Duros’’. Prometiam cassá-lo com uma obstinação doentia e nós, que sofríamos processos na Auditoria Militar éramos abertamente ‘‘usados’’ naquele jogo de interesses.
Numa audiência, o jornalista Cândido Gomes Chagas, que foi testemunha do advogado Edésio Passos, quis fazer declaração complementar e o Conselho de Justiça se dividiu se havia ou não condições de fazê-lo. Candinho foi direto na provocação: os jornalistas que estavam ali eram do jornal paulista ‘‘Última Hora’’ e se essa era a razão do processo, os militares deveriam investigar quem o financiava. Dito isso puxou a cópia de um cheque assinado pela comissão que cuidara da campanha do ‘‘Paraná em Flagelo’’ por causa dos incêndios florestais e que levava a firma do então ministro da Educação e ex-reitor da Universidade Federal, Flávio Suplicy de Lacerda, pago ao órgão tido com o subversivo.
O jornal ‘‘UH’’ foi chave na onda armada e que tanto exagerou as dimensões dos incêndios e isso em escala nacional. O cheque mostrava uma relação que havia entre o governo e que vinha de muito. Ari de Carvalho, hoje dono de ‘‘O Dia’’, maior circulação de jornal em banca no País, fez um acordo com Ney Braga incrível: o pau era parelho em todo mundo, menos na figura do governador e das três indiretas financiadoras, a Copel, o Banestado e o Badep.
APELIDO Com as blitze dos incêndios florestais deram um maldoso apelido ao governador: Nero Braga. A repercussão em torno do assunto lotou armazéns e depósitos com doações vindas de todo o mundo, inclusive na União Soviética que mandou quantidades astronômicas de açúcar de beterraba, cor do regime.
FOLCLORE Essa é contada como ocorrida em vários pontos do País, ora aqui, ora em Floripa ou no Rio, até na Ilha das Flores, de onde o Fábio Campana saiu por interferência do Anfrísio Siqueira junto ao general Isac Nahon. Por sinal que o Fábio foi companheiro de cela do ‘‘Bom Burguês’’, aquele que levantou recursos dentro do Banco do Brasil para a resistência.
Agora a estória: um fofoqueiro foi preso e o submeteram a uma simulação de fuzilamento com todo o ritual na base do capuz e do carrasco. Foi dada a ordem de disparo e a munição era de festim. Terminada a experiência, um militar deu duro em cima do fofoqueiro: ‘‘Veja se agora larga mão de fazer fofoca e se arranca.’’
Ao chegar lá fora do presídio foi abraçado por um amigo que lhe perguntou como estava indo tudo. ‘‘Tudo bem. Só que o Exército está sem munição!’’
LUDDISMO Na história do socialismo há um momento em que a revolta do operário se volta contra a máquina porque ela é poupadora de mão-de-obra. Se aplicassem a regra de Ervin Ludd, que destruía teares, não sobrava nenhuma das montadoras em Curitiba e os carroceiros não teriam sido substituídos pelos caminhoneiros.
Em compensação, continuaríamos tendo os barriqueiros do Ahú, que fabricariam embalagens para a erva-mate. Acusa-se o Meneghelli, da CUT, de ter desenvolvido operação semelhante numa das greves do ABC, deixando carros com defeitos, após a linha de montagem. Nos States, houve uma de jornalistas, romântica, em Nova York, de vários dias, contra a automação e não é coisa tão antiga. Pensar nisso nessas redações liofilizadas de hoje até parece coisa das cavernas.
Fernando Pessoa Ferreira olhava o relógio-ponto no jornal e o chamava de ‘‘coisa reacionária’’, com sotaque pernambucano. Quando ninguém estava olhando, jogava sal ou gilete moída nas engrenagens e lá se ia o registro. Era o luddismo lúdico do poeta irreverente.

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