Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Uno e indivisível?
Uma das coisas mais elementares que estão sendo apuradas na CPI das Drogas é que esse tipo de crime é uno e indivisível: isso é a sua acoplagem a outras modalidades (roubo de carros, de caminhões, de mercadorias, contrabando de armas, operação com desmanches) é imposição estrutural do delito que se dá em escala mundial. Assim, pois, qualquer tolerância por parte da autoridade diante dessas dependências criminosas significará facilidades para o delito maior pela consciência que os autores têm dessa vinculação orgânica.
Em todos os Estados onde se apurou a ligação entre poderes constituídos e a malha criminosa, ficou visível que sem esse envolvimento o tráfico não teria alcançado a capilaridade que obteve ao ponto de vincular, de uma forma estreita, a escola à disseminação da droga como garantia de mercado futuro. Como decorrência, surgem as gangues que fornecem voluntários para as tarefas de distribuição. Quando os aviõezinhos os que distribuem a droga não entregam o que receberam há as execuções pelos esquadrões de extermínio e essa aproximação entre o tráfico e as armas, dentre elas algumas que nem as forças regulares do Exército possuem, dita a complexidade dessa guerra desigual.
Um dos fatores de sucesso do tráfico está justamente na falta de governo: quando um dos seus agentes dá assistência a uma comunidade, a rigor substituindo o poder público, tal qual ocorre nos aglomerados de favelas no Rio e em São Paulo, acaba se transformando em líder e até mitificado, como se vê na reação das crianças do morro quando um desses anti-heróis é perseguido ou morto por policiais civís e militares.
Se as autoridades estiverem interessadas em combater o tráfico devem ter em mente que todo o ecossistema do crime (suas várias dependências) precisa ficar sob sensoreamento, já que ele se dá por vasos comunicantes. Não basta, pois, ter um bom núcleo operativo numa especializada. É indispensável que haja na secretaria de Segurança a visão de conjunto desse processo: qualquer afrouxamento em um dos setores comprometerá o combate.
O envolvimento político é consequência natural e uma sociedade sob o estado de anomia (falta de referenciais legais) como a nossa acaba legitimando essas operações, estabelecendo bases até de financiamento eleitoral. No Rio, havia a ligação entre o narcotráfico e o jogo do bicho, que afinal é uma atividade que também faz, como rotina, lavagem de dinheiro. Outra vinculação, que aparece com frequência nas investigações, é com setores que movimentam câmbio e a área de intermediários financeiros como o caso das contas-fantasmas.
Há, no entanto, uma ameaça à CPI: o vedetismo pode dispersar o que de útil até agora foi identificado. E será frustrante apurar novamente que a cada expectativa de mudança tudo fica pela metade, o que dará ainda mais força, se é que isso é possível, ao crime organizado.
BIZARRICE
Como a bancada governista assinou a CPI das Jaquetas? Há mais mistério nessa atitude do que no ritual de compra do fardamento. É, de tal forma, tão chocante que o fato em si mereceria, este sim, uma CPI
AXIOMA Anteontem deu para perceber porque o governo federal se sente forte com a anunciada mobilização da CUT. Ficou, afinal, provado que mesmo quem tem CUT também tem medo.
GLOSA Consolo de esportista fanático é rápido: atleticanos consideravam que estar em primeiro lugar entre os não classificados já é um feito.
EPIGRAMA Há organizações que fazem pesquisas e que chegam a resultados incríveis: a de que Requião vence, em Curitiba, tanto Lerner como Greca e agora a de que o Jocelito Canto, de Ponta Grossa, tem 70% das preferências.
Quando se fará a pesquisa das empresas de pesquisas?
SPRAY Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo conferem prioridade a estudos da história, geografia e literatura regionais e questões pertinentes aparecem nos vestibulares. - Aqui no Paraná isso não acontece, apesar dos esforços da Academia Paranaense de Letras junto à Secretaria da Educação mostrando essa discrepância. - Parece até que isso visa facilitar a nossa descaracterização e perda de identidade, tal o desinteresse do oficialismo que prefere a badalação do marketing do que um trabalho de longo prazo e de traço permanente voltado para questões culturais. - Até aqui, a insuficiência de bibliografia tem dificultado o trabalho dos professores e a distribuição dos conteúdos da referida disciplina no currículo escolar não conta com o suficiente número de horas para aprendizagem. - Além de tudo, a distribuição de horas destinadas ao ensino da história do Paraná privilegia apenas uma série no contexto das onze séries do ensino fundamental. - E depois disso ainda há quem pergunte por que razão o Paraná não é respeitado politicamente. Destrói-se uma província, como expressão cultural, em primeiro lugar pela perda da identidade. - E é uma ilusão pensar-se que ela seja recuperada com jogadas de marketing, campanhas personalistas do governador e em recursos gráficos em logomarcas e aparatos vários da propaganda. Além de tudo, divulgar o Paraná nas escolas é mais durável, mais apropriado e de menor custo.
SILOGISMO Requião quer cortar o mal pela raiz: apresentou um projeto acabando com o bingo no Brasil. Dá para perceber que ele não pretende acabar com o ministro Rafael Greca, mas sim com o bingo.
FOLCLORE O delegado Adauto estava sem função. Bastou saberem que seria ouvido na CPI para que lhe oferecessem um cargo. Prestidigitação é o estilo do governo em todos os setores. Com o sumiço de Mister M a ousadia aumenta.
CROMO O que vale uma flor no deserto? Tanto quanto uma borboleta por inútil.
AFORÍSTICO O padre que vendeu o templo disse que a Igreja não é democracia, mas hierarquia. Para que então as comunidades eclesiais de base se nelas a Igreja tenta ligar-se ao povo?





