Luiz Geraldo Mazza
Como ultima ratio a oposição joga no fracasso do Real e até na hipótese de aqui haver um repeteco, ainda que tardio, do efeito tequila, aquele que colocou o México diante de um ciclone. O déficit de transações correntes pode chegar este ano a US$ 35 bilhões. O que segura tudo é o financiamento com as taxas elevadas de juros, fato que de outro lado atrai ao país o investimento especulativo, um dos muitos fatores da síndrome mexicana.
Mas a oposição recebeu como um maná bíblico a denúncia da compra de votos que colocou o governo e, mais do que ele, a imagem forte de FHC em posição defensiva. É claro que o situacionismo tenta de todas as formas impedir a CPI, exigência fundamental para o caso, em que pese a forma como se obteve a gravação por um misterioso e encapuzado Senhor X da maracutaia de compra e venda de votos, seguindo as regras da oferta e procura. Botaram esparadrapo na boca do Sérgio Motta, o que é providência elementar. Inventaram aquele recurso que já existem cinco CPIs, velha malandragem das ordens rígidas, como vimos tantas vezes aqui no Paraná e imaginaram a Comissão Mista do Parlamento entre Senado e Câmara para cuidar da questão.
Enquanto tentam ganhar tempo procuram acelerar providências para cassar os envolvidos meio a toque de caixa para dar uma satisfação ao público, mas o Senhor X já disse que há mais fitas e mais gravações e que tem mais gente do que os do norte envolvidos. O misterioso personagem diz que não entrega mais ninguém, o que dá a entender que deseja resultados em cima daqueles que foram citados com os quais certamente há de ter alguma demanda, o que transforma o andamento do episódio em cima de uma questão pessoal.
Amanhã ou depois será publicada uma pesquisa Ibope que revela uma queda de 20 pontos de FHC, antes ainda da revelação das fitas. Dá para imaginar um estrago considerável não apenas em cima da tese da reeleição como de Fernando Henrique como beneficiário do Plano Real, que detém indicadores de popularidade bem mais elevados do que os do presidente.
À oposição o que se poderia sugerir é que não se precipitasse, não apostasse no quanto pior, melhor e acreditasse nas habilidades do acaso, como deu para perceber nessa questão das fitas. Collor estava também numa posição bem confortável quando uma briga de campanário levou o seu irmão Pedro a fazer as denúncias. Agora um conflito provinciano bota em risco a hegemonia de Fernando Henrique e expõe o seu mais agitado esgrimista, Sérgio Motta. A oposição deve controlar hormônios, impulsos destrutivos e acreditar no cronograma do desgaste, mais forte do que todo o seu arsenal doutrinário, paupérrimo, atrasado e que não encontra ressonância junto ao público.
BIZARRICE O imperador ouvia o Chalaça, mas achava graça. Lerner ouve os seus (e tem muito mais de um) e os leva a sério. Isso explica tudo. O bobo da corte pode até ter razão, mas, excepcionalmente, jamais como regra. Ele é bom em fazer facécias, dar cambotes e sacudir os guizos: em questões de Estado na melhor das hipótese é um regra três.
SPRAY Aníbal Khury, presidente da Assembléia, vai endurecer novamente com o governo. E sutilmente almoçou ontem com a vice governadora, Emília Belinati, candidata ao Senado e que o guru corteja politicamente. - Enquanto isso há falta de quorum para votar matérias de interesse do governo como a que joga a Copel no campo da privatização (positiva ou negativa) e a que cria a Agência de Desenvolvimento. - Diferença comportamental chave entre Lerner e seus antecessores: havia mais gente nos seus quadros do que a patota mais íntima. - Por que há resistência à nova secretaria de modernização do Estado? Simples: ela se incumbiria de fazer um trabalho que outras secretarias beliscam apenas para efeito publicitário e também esse aparato novo chamado Paraná Investimentos, cujo titular, Karlos Rischbieter, é dirigente de inúmeras empresas que financiou ou apoiou ao longo de sua carreira em órgãos estaduais e federais como Volvo, MPM (a um tempo a maior agência de propaganda do país) e tantas outras. - Requião chutou a canela do ministro Kandir alegando que este pressiona Osmar Dias para aprovar empréstimo de US$ 400 milhões junto ao governo japonês. É que Osmar sendo tucano e fiel ao governo se obriga a ouvir o time de FHC e como vacila conta pro Requião. E depois ainda perguntam porque somos especialistas em autofagia. Kandir esclarece que vai em missão ao Japão e desejava colocar o assunto na pauta e que pedia simplesmente o parecer para uma definição, nada mais. Deplorável a postura política dos senadores. Há outros meios de bater no governo. -
FOLCLORE Agora largaram a onda de que Lerner é pé frio. Esteve com o ministro Sérgio Motta e esse acabou enrolado no papo telefônico. Também esteve com o governador de Rondônia, em Cascavel, o Valdyr Raupp, que é agora alvo de baita denúncia de chunchos na área de comunicação. Antes Lerner dava sorte. Tanto que quando o Cândido Gomes Chagas ao saber da queda ministerial de Rischbieter teria dito agora ele vai andar de ônibus e em seguida Karlos foi nomeado para o conselho da Volvo, passou a ser dono de ônibus.
CROMO Os penitentes, latas com água e flores à mão, fazem a procissão para pedir chuvas. Há os que punem os santos e os deixam de cabeça para baixo como castigo para que chova. Padres invocam o Ad petendam pluviam, mas os rios encolhem e se tornam sombrios com suas margens ampliadas, pedras descobertas.
AFORÍSTICO Se os mosqueteiros que eram três (Atos, Portos e Aramis) havia um quarto e mais importante (Dartagnan) é possível que os trapalhões possam ser mais do que quatro. No governo, pelo menos, perdura essa impressão. Exercício de lógica formal com um silogismo conclusivo.





