Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Os aliens atacam
Em pleno furor da globalização, um ato de romantismo: o presidente do Sindicato dos Proprietários de Jornais e Revistas, Abdo Aref Kudri, ante a insistência de boatos de que a RBS estaria negociando a compra de veículos locais, saiu-se com um manifesto em que repele a entrega do setor a interesses alienígenas, como se o grupo gaúcho proviesse de nação invasora.
Tudo parece decorrer de uma questão logística: a RBS, depois de consolidar-se no Rio Grande do Sul, e no campo da multimídia, com um grau de autonomia muito forte em relação à própria Globo com a qual mantém filiação em TV e rádio, subiu em direção a Santa Catarina onde detém relativa hegemonia do mercado eletrônico e impresso, o que não impediu que jornais tradicionais, fortemente enraizados em sua comunidade, como A Notícia de Joinville, continuassem em franca expansão. Quando uma organização paranaense como O Estado do Paraná saiu das mãos de grupos tradicionais Aristides Mehry e Fernando Camargo para Paulo Pimentel, com menos de três anos de Curitiba, embora atuando há mais tempo em Porecatu, na Usina Central, houve alguma perda? Ao contrário, daí em diante é que a organização se estrutura no campo eletrônico, graças também, ao prestígio político do empresário.
E esta Folha do Paraná/Folha de Londrina, carregada às costas por um catarinense obstinado, João Milanez, deixou algum momento de refletir as aspirações regionais? E o próprio Dezenove de Dezembro, o nosso primeiro jornal, de 1854, não era de um adventício?
Mas é bom que o Abdo Aref Kudri levante isso no domínio de um governo, este sim, que desparaniza a nossa economia e com recursos nossos, via isenções tributárias, concessão de terrenos e outras benfeitorias. Importante é olhar para a Copel, produto civilizatório da terra, feito-chave da área pública, colocada à venda por um governo vendilhão (criativo apenas para esse lado predatório) que faz isso para cobrir os rombos que ele próprio produziu no aparato estatal. Ataque alienígena é ver empresas nossas caírem nas mãos internacionais, sem que haja qualquer salvaguarda, qualquer ato defensivo para evitá-lo ou ao menos retardá-lo, como se deu com a Batavo.
BIZARRICE
Há todas as razões para que a CPI do Narcotráfico chegue até nós em face da droga de governo e de oposição que temos em overdose
AXIOMA O dia de luta contra o desemprego, pelo menos em São Paulo, conseguiu um feito excepcional: impedir que as pessoas chegassem ao local de trabalho. Por alguns momentos, de qualquer forma, acabaram se sentindo alegoricamente desempregadas, o que não deixa de ter efeitos psicológicos.
GLOSA Anteontem, na audiência pública do prefeito de Araucária, centenas de populares levaram susto quando irromperam na sala oficiais de Justiça para intimações ao burgomestre e dois secretários por causa da estrada-fantasma. Como normalmente os menos abonados é que são procurados por serventuários da Justiça, o fato produziu um certo mal estar no povão presente à audiência. É que normalmente autoridade não se sente culpada, mas o povo sim, tal a facilidade com que sempre leva a pior e é oprimido.
EPIGRAMA Um dos feitos do acampamento sem-terra do Centro Cívico é a proposta estética, que foge ao sinistro e feio da lona preta e chega a ser de mais bom gosto do que muitos dos trambolhos edificados na área.
SILOGISMO Se começarem a ligar roubo de carros, de cargas, de caminhões, de máquinas agrícolas e desmanches ao narcotráfico, a cloaca vaza pra valer.
Aí veremos que certas pessoas tidas como gradas não o são tanto assim.
SPRAY Age muito bem a oposição em pedir garantias aos situacionistas para não fazerem o papel de laranja na CPI das jaquetas. Ninguém esquece do papelão do caso Sercomtel, quando foi revertido o processo com a CPI já instalada. - É que se tornou muito comum na área política, ainda mais num governo frouxo, o arreganho isolado de parlamentares para valorização pessoal nas negociações com o governo. - A simulação feita por universitários quanto ao processo de urbanização da BR-116 (o que realmente se dará apenas quando concluídos e utilizados os contornos) é uma prova de que, pelo menos na área acadêmica, estamos derrubando o xiitismo lernerista, colocando sob foco crítico as propostas dos tecnocratas. Contestar as concepções no meio universitário é uma dificuldade porque a ideologia se alastrou. - Certa ocasião fui convidado para oferecer massa crítica a grupo de estudantes de Arquitetura que participaria de um encontro em Barcelona. Desfilei, durante duas horas, as críticas que acumulei sobre o assunto desde a sua parte histórica, as intervenções de Agache, a mais curta de Prestes Maia, até o Plano Diretor da Serete, de Wilheim, na gestão Ivo Arzua em Curitiba. Pois bem: o diretor do curso, que me havia convidado, não incluiu qualquer das restrições no memorial, argumentando que seu objetivo era o de que levassem em conta a minha crítica. O texto formal era uma repetição de todos os arquétipos da área técnica sobre a cidade, alguns verdadeiros, outros notórias deformações do marketing dominante. - Um dos meus prazeres foi fazer a orelha dos livros do vereador Miguel Samek e da arquiteta Fernanda Sanchez Garcia, que não entraram na unanimidade das badalações e submeteram o tema a tensa contestação.
FOLCLORE Sabe por que a Assembléia Legislativa terá sessões noturnas? Simples: é que agora normalizará decisões na calada da noite.
CROMO A saudade trama triste// três mil anos num segundo Wilson Bueno.
AFORÍSTICO Na política do Paraná é difícil apurar quem é mais incompetente: se o governo ou a oposição. Ambos erram no que fazem e no que deixam de fazer.





