Luiz Geraldo Mazza




A surdez do auditório
Há pessoas com a incrível vocação de falar para o vento ou aos surdos. Um desses casos é o do deputado federal Gustavo Fruet. Era incrível vê-lo na Câmara Municipal de Curitiba fazendo discursos de estadista, de cientista político, para um fôro de desinteressados, pois normalmente habituado com a emergência dos bairros, os buracos no antipó, as valetas transformadas em cloacas ou ainda as badalações das homenagens sem-fim.
Ele o fazia com uma humildade de yoga, daqueles capazes de irem ao faquirismo com a maior tranquilidade, respeitando nos seus colegas o interlocutor que a qualquer momento poderia aflorar para enriquecer o debate. Pois pelo jeito, ele vai viver experiência igual na Câmara Federal. No dia 5 deste mês, ele fez o seu primeiro pronunciamento no grande expediente da Câmara Baixa sobre a temática das cidades e fez reflexões de como conciliar o acelerado crescimento das urbes com a preservação de liberdades individuais e públicas quanto ao ordenamento jurídico e político da questão.
Lastreado em fundamentos antropológicos e da forma como um Lewis Mumford apreciou essa problemática, Gustavo desenvolveu o seu raciocínio em cima dos conflitos que cercam o exercício da democracia na sociedade massiva, e referiu-se às questões genuínas do Brasil como o déficit habitacional de baixa renda com 4 milhões de unidades nas cidades e de 1,7 milhão na área rural. Levou a sua análise às concepções mais avançadas do Direito Urbanístico e mostrou que a origem do vocábulo está na cidade de Ur, civilização sumeriana, Baixa Mesopotânia. Defendeu, com brilho, o caráter público das intervenções, o que é indispensável para que se coloque numa época de fundamentalismo econômico e da obediência cega às pulsações do mercado.
A Câmara em que Fruet deveria falar seria a do tempo de Carlos Lacerda, Aliomar Baleeiro, Affonso Arinos, Gilberto Freire, Munhoz da Rocha e não a de hoje, voltada para o espetáculo das coisas imediatas. O discurso fica e é, por essa razão, um documento, com o rigor de um ensaio acadêmico.



BIZARRICE
Agora, sim, há um risco de Lerner providenciar a remoção do acampamento sem-terra no Centro Cívico: é que alguns turistas estrangeiros o acham mais interessante que a Ópera de Arame, o Jardim Botânico, os parques Tingui e Tanguá, Barigui e São Lourenço. O narcisismo, às vezes, tem função pedagógica e transformadora

AXIOMA Cientista norte-americano percebeu que o magnetismo dos telefones celulares pode ter efeitos danosos ao ser humano. A comprovação se deu com as experiências com ratos. Como o repórter Israel Reinstein mostrou (na edição da Região Sul) que para cada curitibano há cinco ratos, convém cuidar que nenhum deles se aproxime muito de um telefone celular e, ainda por cima, ouse utilizá-lo.
GLOSA A cota de cinco ratos por morador da Cidade Ecológica (e respeitar esses roedores é uma forma de não agredir o ecossistema) mostra que se na renda o mínimo fica para os pobres na questão dos nossos gabirus, é quase certo que cada um dos seres de baixa renda detém maior número de animais. Não se trata de consolo, mas de um distributivismo inversamente proporcional ao da renda.
EPIGRAMA ‘‘A gauchada’’ – de tão mal que foi no campeonato nacional – ‘‘ganhou mais um argumento para o Movimento O Sul é o meu País!’’ Elísio Marques.
SPRAY Consequência da omissão de Lerner nos casos de invasão de terras: está criada a milícia para defender os fazendeiros lá em Catanduvas. - Alegar que isso é ilegal sugere, por silogismo, que as invasões são legais, mesmo quando se dão em áreas produtivas. - Ademais, já existem sistemas, ainda precários, de segurança. Se o governador fosse determinado quando os ruralistas invadiram uma área ocupada por sem-terra e, eufóricos, ‘‘posaram’’ para as câmeras de TV, deveria ter ampliado os fotogramas, identificado os valentões e os processado exemplarmente. Mostraria neutralidade e ganharia moral para ser um mediador equilibrado das tensões. - J. Bettoni, autor do livro ‘‘Revolução de Paradigma na psicologia’’, acha que Mateus, o autor do massacre de São Paulo, não pode ser dado como esquizofrênico se não for provada a hipótese dessa patologia por instrumentos físicos (tomografia). - Em seu livro polêmico, mostra seu fascínio pela energia do pensamento e mecânica da mente. E diz coisas assim: ‘‘A psicologia acadêmica tem menos de um século e meio, ao passo que o neocórtex tem 130 milhões de anos.’’ - Jacob Bettoni foi o único brasileiro a submeter o material de trabalho de Uri Geller (o entortador de facas e colheres) à análise química nos laboratórios da UFPR. - Cita nas inúmeras declarações contra a psicanálise, a de um prêmio Nobel de Medicina, brasileiro de origem, naturalizado inglês, o Peter Medawar, por sinal parente do Aníbal Khury, ‘‘antes de começar eu não fazia idéia da montanha de atentados à inteligência que iria encontrar na psicanálise.’’ - No Conselho da Magistratura, em discussão esta semana, o regulamento do concurso para a delegação de cargo notarial e de registro. Assunto fermentadíssimo.
FOLCLORE Ainda sobre o acampamento sem-terra, tão visitado por turistas, no Centro Cívico. Só falta o Allan Jacobs, que sempre exalta os feitos do seu amigo e colega de profissão Jaime Lerner, dizer que se trata do terceiro maior assentamento do mundo. Saque é do ‘‘cientista político’’ Eduardo Schneider.
CROMO ‘‘Sobre o lado ímpar da memória// o anjo da guarda esqueceu//perguntas que não se respondem.// Seriam hélices// aviões, locomotivas// timidamente precocidade// balões-cativos si-bemol?// Mas meus 10 anos indiferentes// rodaram mais uma vez// nos mesmos intermináveis carrosséis.//’’ Mais João Cabral de Melo Neto, em ‘‘Infância’’, no livro ‘‘Pedra do Sono’’.
AFORÍSTICO Se Curitiba tivesse o pudor de Londrina, as CPIs surgiriam aqui com a maior naturalidade diante de um governo de ‘‘caixa preta’’. Nos dois casos, há o desconforto da mídia por vezes domesticada demais.

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