Uma dor de cabeça
Para usar uma linguagem de italiano de novela (‘‘Terra Nostra’’) os nossos governantes, desde quinta-feira, padecem de ‘‘male di testa’’. Estão com dor de cabeça em função de revelações dos inquéritos em Londrina na Polícia Federal, relativos a desvios de conduta em autarquias municipais. Quando a dor de cabeça é intermitente, urge o analgésico.
O poeta maior do Brasil, João Cabral de Melo Neto, que nos deixou há pouco tempo, vivia sofrendo, e isso aconteceu durante anos, dessa síndrome terrível, a enxaqueca persistente, às vezes rumando para o desespero. E foi em cima da dor sofrida e vivida que fez uma ode à aspirina com mais rigor do que a celebrada por Pablo Neruda à cebola.
Chama-se ‘‘Num monumento à aspirina’’ que reproduzo para alívio desses ocasionais pacientes da dor circunstancial e até para descomprimi-los de tanta preocupação. Um momento samaritano.
‘‘Claramente: o mais prático dos sóis,// o sol de um comprimido de aspirina:// de emprego fácil, portátil e barato,// compacto de sol na lápide sucinta.//Principalmente porque, sol artificial,// que nada limita a funcionar de dia,// que a noite não expulsa, cada noite,// sol imune às leis de meteorologia,// a toda hora em que se necessita dele// levanta e vem (sempre num claro dia):// acende, para secar a aniagem da alma,// quará-la, em linhos de um meio-dia.// Convergem: a aparência e os efeitos// da lente do comprimido de aspirina:// o acabamento esmerado desse cristal,//polido a esmeril e repolido a lima,// prefigura o clima onde ele faz viver// e o cartesiano de tudo nesse clima.// De outro lado, porque lente interna,// de uso interno, por detrás da retina,// não serve exclusivamente para o olho// a lente, ou o comprimido de aspirina:// ela reenfoca, para o corpo inteiro,// o borroso de ao redor, e o reafina.//’’



ERRATA
Um dia, aqui no jornal, me meti a reproduzir um trecho do poema de Castro Alves, hoje muito citado na novela das 8 e disse assim: ‘‘Alviverde pendão da minha terra// que a brisa do Brasil beija e balança...’’ O secretário Miguel Salomão ligou pra mim para dizer que era auriverde e que o alviverde decorria da minha condição de empedernido coxa branca.

APELIDO I Falava, ontem, do Festival de Apelidos em Paranaguá, uma iniciativa bem sacada. Certa ocasião, fui até a minha cidade natal e perguntei à minha tia Celina, onde eu poderia encontrar o Zizi (Acir), seu genro. Ela me indicou várias hipóteses: a casa de Chiquito Louco, no bar da praça, com o Zezengo ou ainda num jogo de baralho com Maria Gordinha. Nesse dia pensei numa jogada que a Companhia Telefônica poderia patrocinar: uma lista telefônica só de apelidos.
Eu próprio, em 1950, com 19 anos e estudante de Direito, não me conformava com o pessoal na Praça Fernando Amaro siderado com a perda da Copa do Mundo. Como andava escrevendo artigos pedindo um curso de filosofia em Paranaguá no ‘‘Diário do Comércio’’, o Joaquim Marmita, ao me ver na roda com uma calça de caroá com listas de cima abaixo, tascou: ‘‘O Calça de Caderno de Linguagem está aí ditando cátedra.’’ Não pegou, mas em Paranaguá não mais usei aquela calça por uma questão de precaução.
REFLEXÃO E nessa Lei de Zoneamento, que debateram ontem e anteontem? Onde fica afinal a zona? Ora, isso não existe porque o negócio está espalhado por todos os cantos e também na indústria dos motéis. O bichódromo foi esquecido, o epicentro da área do trotoar ocupa todo o centro da cidade delimitado pelas ruas Cruz Machado e Riachuelo.
Nostalgia: que saudades do Bar dos Bandidos na Praça Tiradentes e o Caneco de Sangue, perto da Estação Ferroviária.
PLATÔNICAS Ah! Coisa inconcebível, em nossos dias: o amor platônico. Diante da Fonte Luminosa, em Paranaguá, não chegava a um acordo com a namorada quanto às cores do chafariz, pois um dizia azul e outro verde. No exame do CPOR descobri, mais tarde, a razão da divergência: era daltônico.
APELIDO 2 Alguns apelidos, comuns em todas cidades litorâneas, originam-se da mesma raiz oral. A estória do cara que temia ser apelidado e que ficou no hotel diante de praça e de vez em quando tirava a cabeça pra fora para ver o que estava acontecendo. Virou ‘‘Cuco’’ e a blague aparece em Fortaleza, em Floripa, em Antonina.
Uma das melhores, já relatei aqui, é a do escritor Wilson Rio Appa que usava barbas indianas e lançou praticamente o ‘‘Jean Sablon’’, camisa por fora das calças e chamada pelos irreverentes de ‘‘Caga em P钒. Pois lá vinha o tipo místico de barbas e cabelos longos com a mulher Ester e os filhos Kim e Thor. Um chapa que queria saber de quem era a bagagem na plataforma da estação foi explicando: ‘‘é do Jesus Cristo em férias’’.
ECOLOGIA O governo lançou, como sempre estrepitosamente, no Parque Barigui, o comboio da cultura. Só que no fecho houve abuso com foguetes e um ecologista lembrou aos falsos seguidores da doutrina que aquilo estressava a bicharada, que os cisnes andavam em sentido contrário, o jacaré quase de pé, os maçaricos rodopiando. Lembrava que iria repetir-se com a megacomemoração do ano 2000.
Uma ouvinte da CBN ratificou o protesto e contou que o seu vizinho durante a Copa do Mundo soltava foguetes em excesso a cada gol. Consolei-a em meu comentário: se o Brasil ganha de 3 a zero da França seu cachorrinho seria, no mínimo, internado em clínica de repouso. Goleada contrária foi um bálsamo.
Na primeira página do ‘‘Clarin’’, na Argentina, saiu uma chamada em que moradores do lado gringo das Cataratas do Iguaçu prometiam abater os helicópteros nos vôos panorâmicos porque justamente afetavam as aves em seus nichos na rocha. Isso dá bem a idéia de como as coisas se radicalizam.
FOLCLORE Consta que Jaime Lerner, ao receber um dos seus prêmios mundiais no Japão, teve que sorrir e até ficar com um ar meio nipônico quando o mestre-de-cerimônias o apresentou como Jaime Lero-Lero.

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