A preciosidade do ridículo
Foi Moliére, com sua sagacidade, que sacou o lado precioso do ridículo. Outro dia, o governador reclamou que era ridículo a oposição tentar uma CPI sobre a questão do endividamento estadual. Como não há o menor interesse da situação em tirar o assunto da ‘‘caixa preta’’, que é normalmente a instância da moda do regime, é claro que o governador fala como se fosse uma heresia a sociedade pretender conhecer o tamanho do ‘‘rombo’’, que tanto ele como antecessores deixaram. E declara isso com um distanciamento olímpico, sugerindo que suas prodigalidades e atos fraudulentos (os da Leasing e da Corretora Banestado podem assim ser classificados) não tiveram a menor influência na quebra, que ocorreu nitidamente sob o seu principado.
O ridículo não é, pois, a oposição pretender a CPI para a qual teria notórias dificuldades diante da submissão da maioria esmagadora de parlamentares ao ato de servidão que a caracteriza. Talvez tenha ocorrido um ‘‘ato falho’’ e por saber do nível de subserviência legislativa é que o governador vê o ridículo na proposta por entender, com a razão de Sancho Pança, que ela é inviável.
Há exagero dos dois lados: a oposição tentando, com sofismas, sugerir que nada tem a ver com a falência estatal, como se ela não fosse protegida, o tempo todo, pelo véu da inflação e da correção monetária; o situacionismo buscando minimizar o processo. No meio, tonto, como se estivesse em queda na lona de um ringue, o povo é tapeado pelos dois lados e não sabe quem está mentindo mais: se o governo, puxando a sardinha pro seu lado, se a oposição que está botando uma lupa nos números.
Ridículo é o povo desprezado nesse pôquer meio safado em que os dois lados, ao mesmo tempo, procuram blefar, acrobacia apropriada à fauna dos políticos, cada vez mais desprezada pelo público. A cara pintada que o povo deveria usar é a de palhaço.



BIZARRICE
Se todos os cornos do mundo portassem um lampeão teríamos, como na piada italiana, bela iluminação. Para a passagem do século seria especial

AXIOMA Cândido Martins de Oliveira, da Segurança, encheu a bola de Taniguchi como candidato ideal ao governo em 2002. Na verdade, não há outro, ainda mais se tudo continuar complicado para o lado do Greca. Haverá apenas um problema: a oposição pode colocar como tese que Cassio quer usar a cidade como escala, aliás o que ela mesma deseja que Requião faça. O vice é que vicejará e se for mal escolhido a eleição fica sob risco e a cidade muito mais ainda.
GLOSA ‘‘Paraná mora aqui’’, uma campanha de agência de propaganda para o governo até hoje não pagou os modelos da ‘‘Staff’’. Pelo jeito se poderia dizer ‘‘Paraná morreu aqui’’. E a ‘‘Staff’’ está ferrada.
EPIGRAMA Há alguma novidade quando o Tribunal de Contas ameaça endurecer com o governo estadual? Não. Volta e meia é um assunto: ora as organizações sociais que não prestam contas, ora a Copel (maior e mais bem organizada empresa paranaense e, no setor, a melhor do Brasil) com o veto à entrega de relógios folheados a ouro aos seus funcionários por tempo de serviço. Só que sempre acaba aprovando contas do governo, mesmo quando aponta distorções como o conselheiro João Féder fez ao relatar as contas de 1997. Bom, no entanto, para endurecer com prefeituras pequenas. Só que quando faziam isso com as da área do Aníbal Khoury retirava da gaveta o projeto, sabidamente inconstitucional, do Tribunal de Contas dos Municípios só para manter o equilíbrio.
O TC está prometendo, em release do conselheiro Artagão de Mattos Leão, ver, com bastante atenção, as privatizações, concessões às montadoras, pedágio, assunto principal do José Janene nas aparições eleitorais.
SPRAY O governo Lerner, desde anteontem, está de orelhas pegando fogo por causa do depoimento de um ex-funcionário da Autarquia Municipal do Ambiente (AMA) de Londrina, acusando um ex-diretor de haver desviado recursos para a campanha eleitoral do governador e da vice. - O servidor Edison Alves da Cruz (Edinho), atuava na área de licitações. E isso aí pode eventualmente configurar crime eleitoral, algo que nada tem a ver com as investigações em curso. - O impacto das declarações, amplamente repercutido pela Rádio CBN-Londrina, teve efeitos terríveis. - Houve gente que não pôde dormir na fauna palaciana. Não é para menos. Agora só falta o Requião, que foi acusado pelo situacionismo da fraude do Ferreirinha, que efetivamente aconteceu, pegar o peão na unha e fazer a festa costumeira com pronunciamentos na TV Senado. - É graças a esse tipo de conflito que sabemos alguma coisa. O governo aqui está habituado à cobertura cúmplice da maioria dos meios de comunicação social e deve, o quanto antes, reciclar-se para aprender a atuar no contraditório e na busca da transparência. - Já deveria ter aprendido ao longo da batalha dos protocolos das montadoras e, especialmente, nos chunchos do Banestado.
FOLCLORE É lançado hoje em Paranaguá o 1º Festival Nacional do Apelido. Essa característica, a de apelidar, não é especialidade de Paranaguá. Como o fandango e o barreado, a coisa se distribui entre Paranaguá, Morretes e Antonina. Quando o homem de Ibiporã, ex-prefeito e advogado Francisco Deliberador Neto, foi para a administração do Porto de Paranaguá, levou o apelido de ‘‘Olho de Garoupa’’, logo na chegada.
A um promotor público que, por causa de uma moléstia circulatória, costumava dormir em pé o apelido veio em cima ‘‘Cavalo de Padeiro’’.
CROMO Sabe lá o que é um ‘‘Abismo de Rosas’’, uma das composições mais difíceis de executar ao violão? É a maciez e o caos de um abismo floral, sépalas e pétalas, uma flor que surpreende e nem por isso deixa de ser cartesiana.
AFORÍSTICO Os governantes dormem o sono dos justos. Assim mesmo não podem, às vezes, evitar a dor de cabeça.

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