É proibido proibir
Já tenho me referido ao quadro de anomia que marca o Brasil dos nossos dias. Vinculações do crime organizado com a malha institucional dos poderes constituídos ratificam essa característica. Que pode fazer o cidadão quando os investidos de função pública se associam ao delito?
Não é apenas nessa questão séria que se percebe a anomia. Ela é visível na rotina dos poderes: magistrados que ganham dinheiro para libertar gente do narcotráfico, policiais que estão associados a roubo de cargas, de automóveis e deputados envolvidos em gangues, como a imprensa vem registrando no andamento das apurações da CPI das drogas.
Percebe-se a falta de referências institucionais na própria greve dos juízes. Se eles se acham no direito de fazer greve, conforme as exortações de ontem, estão inabilitados a julgar pendências em que se questione, por exemplo, o direito de greve dos servidores públicos, de quem são assemelhados. Como o dispositivo do direito à greve não é auto-aplicável e depende, portanto, de legislação complementar reguladora, estão sob suspeição para a hipótese de uma declaração de ilegalidade. Da mesma forma há um pouco desse clima também nas declarações do presidente do STF, Carlos Velloso, ao antecipar juízos de valor sobre matéria que ainda vai julgar como no caso da aposentadoria dos inativos do serviço público.
Há uma tolerância indiscriminada quanto a infrações e delitos, como se assiste na folga com que o MST deita e rola ao invadir propriedades claramente produtivas ou se vê nesse monumento à irresponsabilidade que é o acampamento dos sem-terra no Centro Cívico ou ainda na sequência das selvagerias no campo das invasões urbanas, das quais é paradigmática a demagogia da Ferrovila, que foi claramente instrumentada pelo poder público.
A prepotência da direção do futebol brasileiro com episódios que lembram as fases mais negras do feudalismo – a invasão do gramado de São Januário pelo presidente do Vasco, deputado federal Eurico Miranda, que interrompeu o jogo com o Paraná e sem a respectiva perda de pontos – é outro sinal de anomia. Os feitos desse dirigente fazem com que as coisas atribuídas ao Meneghel em Bandeirantes pareçam coisa de criança.
Como estamos numa espécie de vale tudo, caminhamos para uma quadra em que a lei será o sinal visível da subversão e do caos porque seus agentes formais estarão manietados na condição de reféns de um sistema paralelo mais forte.



BIZARRICE
O governador Jaime Lerner em tudo lembra o clima atual afetado pelo ‘‘El Niño’’ e ‘‘La Niña’’: você pensa que vai chover e sai sol, a nuvem escura sugere tempestade e de repente irrompe o arco-íris. Igual ao governador: você pensa que ele vai começar a governar e isso não acontece e quando tudo indica que se dedicará, tempo integral, às tarefas de Estado – viaja de novo

AXIOMA Anteontem, novamente no Supremo Tribunal Federal, voltaram os rituais de sepultamento da ParanaPrevidência: foi firmada a jurisprudência de que mesmo naquelas unidades federativas, que tinham leis estaduais prevendo a cobrança dos inativos, a exigência é ilegal por inconstitucional. As focas amestradas do governo estadual vão tentar, uma vez mais, subestimar esse entendimento, como se fossem o Flipper dando exibição no aquário de Miami.
GLOSA Governistas acham ridículo a oposição querer uma CPI do Endividamento. Mas pelos dribles oficiais da informação a suspeita leva a isso: um esforço para transformar assunto dessa magnitude em outra ‘‘caixa preta’’. Nos casos do Banestado não adiantou: o furúnculo latejou e acabou vazando, sem ser preciso usar basilicão e folha gorda.
EPIGRAMA ‘‘Se o Lula está se dando bem com ACM, por que o Christovam Buarque não pode se arreglar com FHC?’ Essa é do Elísio Marques.
SILOGISMO Cada vez que Mateo e Juliana, na novela ‘‘Terra Nostra’’ fazem o dueto operístico a coisa levanta. Coisa é audiência e Ibope e não o que os grossos e rústicos estão pensando.
SPRAY Tiroteio na direção da Prisão Provisória do Ahu, nesta madrugada, alarmou moradores do Alto Cabral e Juvevê. - Essa é a época de rebeliões e fugas nos presídios, uma questão sazonal, já que a expectativa em torno das listas de indultados do Natal gera ansiedade semelhante à do vestibular na hora de saber quem passou, quem rodou. - Paraná já foi a unidade que gerava maior volume de divisas líquidas, isso porque importávamos pouco. - Ano passado, a exportação foi de R$ 4,23 bi (quarto lugar no País) e a importação de R$ 4,06 bi. Tudo isso é consequência do novo modelo pós-Collor. - São Paulo exportou R$ 18,22 bi e importou R$ 27,94, e Minas teve superávit, já que exportou R$ 7,59 bi e importou R$ 3,55 bi. - O fato é que a despeito das resistências da equipe técnica do Ipardes, o governo paranaense caiu muito na análises de dados e pesquisas inter-regionais. - Rio Grande do Sul teve R$ 5,63 bi de exportação e R$ 4,33 bi de importação. - Dado relevante é o referente a consumo de energia. Embora grande gerador, o Paraná consumiu apenas 15.604 GWh-ano. São Paulo consumiu quase um terço do total brasileiro (287.392 GWh/ano) com 92.313 GWh-ano. Imaginem se houvesse taxação da energia vendida: iríamos nadar em dinheiro e o governo não precisaria mendigar os pingues ‘‘royaklties’’ de Itaipu. - Entre os 16 finalistas do Prêmio Empreendedor do Ano está o empresário paranaense Marcel Malczewski, sócio da Bematech, uma das primeiras incubadas do Tecpar.
FOLCLORE Vem aí, segundo a entusiasmada oposição, a CPI das Jaquetas Coreanas, aquela aquisição de uniforme feita pelo ex-comandante da PM. Essa sai, mas não a do Endividamento. O argumento do governo é simples ‘‘vão-se os anéis, mas que fiquem os dedos.’ Menos, é claro, os Anéis da Integração e a festa do pedágio. Aí também a oposição acha que dá pé na busca do ágio.
CROMO Afinal Van Gogh não pintou pinheiros, mas Bakun os viu cercados de denso misticismo e Lange de Morretes os deificou.
AFORÍSTICO Quem concretamente não deixa cair a peteca são os petequeiros, cultores de modalidade esportiva meio aristocrática. O futebol começou assim e virou plebeu, esperança dos petequeiros.

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