Luiz Geraldo Mazza
Ideologia e modismo
Aos estudiosos de filosofia soa herético ver hoje a hegemonia ideológica do chamado neoliberalismo que, como todos os totalitarismos, manda às favas as regras elementares do direito, torna-as supérfluas em nome do pragmatismo, desde que sirvam a causa que, como se dá agora com a mundialização, vertida num prosaico modismo. O paradoxal é que em nome da eficiência do sistema se passa por cima do seu fundamento originário, o liberalismo. Não há, portanto, a despeito dos que forçam a interpretação a razões de ordem política e de traço utilitário, qualquer sincronia, de princípio ou epistemológica, entre o liberalismo e essa deturpação visceral denominada neoliberalismo. A isso, aquele que mais se esforçou para fixar uma ponte entre o pensamento liberal e o socialismo, o ajuste entre liberalismo e socialismo, Norberto Bobbio, chamou de liberismo, aplicação hodierna do laissez faire, dos fisiocratas.
Atividades essenciais de Estado passam a ser exercidas por gente vinculada ao setor privado, como se isso não se constituísse numa lesão grave a princípio de ordem pública. Como o setor público está sucateado, e o Brasil, de cócoras diante do FMI, todas as flexibilizações são admissíveis, como se vê na rotina das terceirizações, na entrega a agentes privados de funções claras de Estado como as de multas no trânsito, alugueres de carros ao governo, quase sempre feitos por notórios participantes da lista de contribuintes financeiros de campanhas eleitorais.
Há alguns exemplos que extrapolam a mínima regra do bom senso como, por exemplo, no caso do Porto de Paranaguá, a entrega de funções de Estado na certificação de produtos agropecuários à Associação Comercial e Industrial de Paranaguá, concedendo-se a essa entidade o acesso, inclusive, a informações privilegiadas. Alega-se que o convênio surgiu da imposição da necessidade de flexibilização no desembaraço de mercadorias e diante da inexistência de agentes públicos do Ministério da Agricultura. Pode parecer uma solução de traço prático para remoção de entraves burocráticos, mas não é apropriada.
De repente, em nome do Estado Mínimo, a bobagem da moda, chega-se ao império do poder privado e que não é do povo, mas de minorias.
BIZARRICE
A secretária de Educação, Alcione Saliba, provocou a irritação da comunidade de Medianeira ao fazer ironia com uma questão séria, ausência de salas para o atendimento da 5ª série, de responsabilidade estadual, dizendo que a cidade estaria importando alunos do Paraguai e Uruguai. Nota 1 em matéria de urbanidade e zero em geografia. Importar burocratas dos circuitos fechados do Banco Mundial pode dar nessas coisas: a realidade vale menos do que os dados da estatística desejável
AXIOMA O acampamento sem-terra foi visitado por turistas no feriadão e mereceu matéria de destaque na Rádio CBN. Está aí o único jeito de o governo afastar o acampamento: verificar que ele pode ser um ponto de atração maior do que o Jardim Botânico, o Ópera de Arame, monumentos da galeria kitsch do lernerismo.
GLOSA Até o não fazer do governo virou auto de fé. A secretária da Educação tirou sarro do pessoal de Medianeira, ignorando que o município espera, há muito tempo, a reconstrução da Escola Costa e Silva, a construção das escolas Tancredo Neves e Naira Fellini e uma nova unidade no bairro Belo Horizonte e que constavam de vários orçamentos estaduais não cumpridos.
ANALOGIA 1 Há muitas semelhanças entre Lerner, Alvaro e Requião no horário eleitoral: hegemônicos, personalistas. Mas há uma diferença: Lerner discursa em cima de fatos como no caso da Vila Rural. Só ficou falsete aquela fala dele aos ex-bóias frias: Estou muito honrado de estar em sua casa!
ANALOGIA 2 Como o senador Suplicy está entrando fundo nesse caso de Mundo Novo e do assassinato da prefeita, sempre é interessante o papel de desastrado inspetor Clouseau que desempenhou no episódio dos anões do orçamento quando pintou nos Estados Unidos da América do Norte buscando pistas para encontrar a mulher do economista denunciante e que já estava enterrada.
SPRAY Hoje é dia de auê judiciário: greve dos juízes e também de outra mais justa a dos servidores do Judiciário e que até não receberam uma reposição de 53,06%, admitida pelo STF e não cumprida. - Há sete anos o Sindijus espera o cumprimento da medida, mas tanto o TJ como o Palácio Iguaçu fazem cera. - Haverá duas manifestações: a greve dos magistrados em escala nacional e essa dos trabalhadores que não recebem seus direitos pelo tratamento que lhes concede o Poder Judiciário. - Desde às 13 horas na praça em frente ao Palácio da Justiça e tudo culminará às 17 horas com a audiência que será concedida ao Sindijus pelo presidente do TJ, desembargador Sidney Zappa. - A luta será de luto: os servidores irão de preto aos protestos e à audiência. - Uma das coisas que está sendo lembrada é a diferença de tratamento para magistrados e para os servidores. Em 1998, houve um ato administrativo que autorizou o pagamento de diferenças aos juízes em 30 parcelas, acertado entre o governo e a sua pasta da Fazenda, o que jamais se procurou fazer com os servidores. A prioridade concedida nada tem de justa e equitativa.
FOLCLORE Segundo o anarquista Elísio Marques o ParanaPrevidência é a nossa legítima Bruxa de Blair. Elísio divide a Polícia Militar, da qual foi integrante, em três categorias: os pensantes, entre os quais inclui o comandante atual, os hesitantes (que flutuam entre a política e o rigor das normas corporativas) e os tementes. Conclui: os hesitantes que se cuidem; os tementes que se enquadrem.
CROMO A dona de casa se espanta com o fato de passarinhos estarem entrando nas residências. Cuidadosamente, não chama nem a polícia e nem ambientalistas.
AFORÍSTICO Cultos esperam Godot; os curtos aguardam o 13º.





