O anjo que mudou de lado foi o Lucifer até para dar consistência dialética ao sentido divino numa ordem cindida entre o bem e o mal. Era um só, mas fez estragos consideráveis. Dá para imaginar agora se uma legião de anjos da guarda seguissem esse dissidente ou decidissem mudar de partido, como fazem os nossos políticos (exceção, é claro, o Lerner que é PDT como explicou anteontem ao seu líder nacional, o Leonel Brizola).
A comparação é apropriada com os nossos ‘‘anjos da guarda’’, os policiais, civis ou militares, pouco importa. Sabemos que muitos deles jogam dos dois lados e conseguem, com incrível habilidade, superior à dos acrobatas, ficar permanentemente nessa ambivalência e sem sofrer sanções, quer da autoridade, quer do crime organizado ou não. Não é só no Brasil e no Paraná que essas coisas acontecem.
Quando há muita gente jogando dos dois lados, como dá para perceber nos casos apurados (e que, naturalmente, representam a parte visível do iceberg), o meio de campo complica porque o mimetismo é forte demais para que os bem intencionados consigam ter uma visão clara de processo. Mais do que uma Corregedoria os organismos de segurança deveriam ter sistemas internos de informação, ilhados e bem estruturados, para que se tivesse um mínimo de monitoramento do cenário. Além de ouvidorias, internas e externas, teríamos uma carência fatal: a da própria cidadania, que, intimidada, não age.
Neste fim de semana o cineasta Frederico Fullgraf pediu garantias de vida em favor de si próprio e de sua mãe, dona Minna Thea, de 70 anos, porque a sua casa no dia 14 foi arrombada, móveis derrubados, mas nada levaram, o que tem todas as características de um recado porque havia denunciado o ataque sofrido no dia 5 por policiais (ou pelo menos assim o declararam, sem apresentar documento de identidade) ocupando veículo com chapa de São Paulo, conforme registrei nesta coluna. O pedido foi dirigido ao secretário de Segurança. Mas na Corregedoria uma delegada, ao ouvir a explanação, apressou-se em dizer que tudo poderia não passar de uma coincidência.
A postura do cineasta neste momento é emblemática: ela expressa a cidadania afrontada e hoje submetida à condição de refém de um cenário kafkiano, de absurdo. Ele é uma figura pública e está inconformada e indignada porque sabe que a maioria do povo simples e humilde sofre tudo isso no cotidiano e não denuncia por medo de mais terror.
BIZARRICEÁlvaro Dias está em campanha eleitoral via Telepar: sai em defesa do Sérgio Motta no caso da compra de votos e ainda faz gracinha ao dizer que o Rainha, aquele do MST, é lider dos sem-terra e o Lerner do MSO, o Movimento dos Sem Obra. Álvaro é o líder do MSP, o dos Sem Professor.
SPRAYO papo de Lerner com Brizola foi curioso: o líder nacional lembrou que o objetivo de um político, engajado num partido, não pode ser a conquista imediata ou a obsessão do poder.- ‘‘Veja o exemplo dos trabalhistas ingleses, Jaime, apeados do poder há dezoito anos e que agora voltaram.’’ Enquanto arrumava o laço do sapato 752 mostrava ao governador que o povo, mais cedo ou mais tarde, julga com severidade os políticos vacilantes.- Como se percebe deve ter sido constrangedor o encontro no qual Lerner disse, outra vez, que está apenas fazendo uma ‘‘reflexão’’. Portanto fica no PDT, não se sabe até quando. - De Sem Obra, segundo Álvaro, Lerner acaba virando o Sem Partido. Ou ainda o em dúvida permanente. E parece que é esse o seu destino: o PFL está manchado com essa história da compra de votos para a reeleição; o PSDB também pela circunstância de sustentar o governo; Brizola é o passado, o arcaísmo e isso dá bem uma idéia do drama insolúvel. - Dirigentes de veículos de comunicação há seis meses só pensam em Jaime Lerner. Por que será? Um deles cobra dívidas de campanha eleitoral (‘‘A Folha da Imprensa’’) e outro, que também alega ter sido passado pra trás (‘‘Gazeta do Paranᒒ), está batendo forte no governo. E os demais por que estariam com essa idéia fixa? - Há uma figura de destaque do empresariado com negócios no Paraguai e com o ex-ditador Stroessner. - O segurança Postarek, morto em Ortigueira, foi cobrar conta do ex-prefeito de Mauá e de campanha eleitoral. Essa é a versão do irmão do autor dos disparos. O Paraná está com clima de faroeste. Outro dia quem sobrou foi o prefeito de Arapuã num atentado político. - FHC entrou no tobogã, em queda junto à opinião pública e essa tendência não muda se não houver clareza no caso da venda de votos, não importa se por devotos ou não.
GLOSAEnquanto Álvaro Dias mostra extrema mobilidade, criando fatos políticos em cima de pequenos feitos de uma empresa que caiu de qualidade, como todos os usuários sabem, já que a Telepar era a melhor do Brasil, Lerner não se mexe, aturdido com as trapalhadas de sua equipe, às quais associa as suas, também nada desprezíveis. Álvaro dá show em Cascavel e Foz do Iguaçu e Lerner gagueja diante de Brizola. E quem ri com tudo isso é Requião, que torce pela aliança entre os dois promovida pelo Planalto, desde que não seja cassado pelo TSE, é claro. Nunca o Paraná foi tão medíocre como agora. E isso num momento de suposta glória com o ciclo das montadoras.
FOLCLOREProfessores de latim e de esperanto dão cursos para quem desejar falar com liberdade ao telefone. É um recurso erudito contra grampos.
CROMOHelena Kolody no parlamento: a poesia depura, como incenso, a casa tão mal falada e exorciza os demônios da demagogia. Ilumina o ambiente e seus versos de cristal, expressão do seu corpo e espírito, humanizam, pelo menos por momento, os que a ouvem.

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