Luiz Geraldo Mazza
O vexame anunciado
A oposição aposta agora na hipótese de ver aprovada uma CPI para investigar o endividamento do Paraná. Interessados nisso são dois prováveis candidatos à sucessão de Lerner, os senadores Alvaro Dias e Roberto Requião, que aparecem com frequência tratando do assunto e dando números exacerbados, bem superiores aos do governo em pelo menos o dobro. Gionédis, secretário da Fazenda, fala em pouco mais de R$ 5 bi e os senadores citam cifras de R$ 10 bi a R$ 15 bi.
Há alguns fatores, como os emergidos daquele grupo dos 18 deputados e que redundou na CPI da Sercomtel, abortada na vigésima quinta hora, que podem ser reativados pela circunstância muito clara de Alvaro Dias ter o poder de prensa sobre tucanos que normalmente jogam com o governo. Como o acordo branco, que favoreceu a eleição de Lerner, já que Alvaro se omitiu na parada, está com jeito de papel higiênico usado, pelo menos a essa altura, há condições para dobrar parlamentares com o perfil de Neivo Beraldin.
O governo, todos sabem, tem a ditadura dos números, tanto dos verdadeiros como dos manipulados e essa é a sua vantagem num confronto desses. No bloqueio aos empréstimos do Paraná, a pretexto de exigir os protocolos das montadoras, a oposição (leia-se Osmar Dias, mais diligente, e Requião, provocador) deu um baile em toda a estrutura de poder do governo, mesmo com o ingresso de Jaime Lerner no PFL. O Banco Central e algumas de suas dependências davam informes arrasadores que mostravam que o governo estadual não respeitava a ritualística de praxe e o que salvava a situação era o fato de contar com um especialista nesse domínio, por sua carreira naquele órgão controlador da moeda, o secretário Miguel Salomão.
A ida de Giovani Gionédis, ainda que esteja longe de dominar o assunto como secretário da Fazenda (ele é disparadamente menos categorizado do que qualquer dos seus antecessores neste e nos governos anteriores), ao Legislativo no próximo dia 11 pode marcar uma derrota a mais da oposição por ser preguiçosa e não ir atrás de documentação hábil para contestar o governo na questão da dívida. Experiências anteriores, estaduais ou federais, mostraram que o governo levou vantagem por causa desse dado orgânico: a posse de dados. E se Gionédis der um baile nos atarantados deputados oposicionistas haverá perda de substância para a CPI desejada por Alvaro Dias como um ponto importante de sua escalada na sucessão de Lerner.
BIZARRICE
O Ministério da Saúde avisa: olhar para o Requião faz mal à saúde. Esse o saque do Rafael Greca na sua entrevista de sábado pela manhã à CBN-Curitiba. É por essas e por outras que tanto se parece com Requião até nos motejos. Parecido no autoritarismo e nas blagues. De um e de outro se pode dizer: Requião é um Greca mais magro e menos estudioso e o Greca é um Requião mais gordo e majestático
AXIOMA O mimetismo social é uma das malandragens brasileiras: o cidadão bem falante se mostra revoltado com o pagamento da previdência pelos aposentados porque é também inativo, mas ganha mais de R$ 10 mil. Não é viável um país que tem aposentados e pensionistas ganhando de R$ 35 mil a R$ 50 mil. É a sociedade de castas reproduzida no diagrama do serviço público.
Enquanto isso, o aposentado da iniciativa privada, que obviamente trabalha muito mais do que o seu colega do setor público, tem que se conformar com pagamentos máximos de R$ 1 mil e R$ 1 mil e pouco, isso no escalão superior.
GLOSA A discussão sobre a dívida estadual, se ficar na mão de leigos, vai mais desinformar do que informar. Comparar períodos inflacionários com os de um tempo de moeda estável não tem sentido. É isso que a oposição vai fazer e o governo, de seu lado, vai tentar provar que seus antecessores é que quebraram o Estado porque eles sim teriam sacado fortemente contra o futuro.
Um sessão de sofismas, sempre, como no sentido original, depravação do saber.
EPIGRAMA O que há, por aqui, da parte de oposicionistas, é muita inveja: não se conformam que com Lerner como prefeito o empresário Salomão Soifer tenha ganho, com a fajutice do biombo da restauração, o Shopping Mueller que havia sido negado anteriormente a Dias Martins, e agora com Lerner, como governador, o homem tenha ficado com parcela ponderável do sistema de contêineres do Porto de Paranaguá e também a exploração do Parque Nacional do Iguaçu.
A inveja, não esqueçam, é um grave pecado capital.
PARADOXO Duro é o correntista do Banestado ouvir advertência gerencial por ter o seu supercheque entrado no vermelho quando fazem os acertos absurdos de até 20% do valor com os grandes devedores. Burguesa de coluna social pode ficar devendo R$ 2 mi a R$ 3 mi e a coisa é arrastada, saudavelmente. Ainda os reis da malandragem queriam que os bancos estaduais continuassem existindo.
OPOSIÇÃO A falta de imaginação nem sempre significa mobilidade social: nova e demagógica invasão na antiga Ferrovila mostra que o repertório não mudou. Bem mais pobre que a pobreza que se pretende instrumentar.
FOLCLORE 1 Discutia-se, em véspera de Finados, as vantagens de ordem espacial, higiênica e econômica da cremação dos corpos. Aí o ex-vereador, desatento, perguntou de onde sairia a matéria-prima, o creme, para tantos corpos.
FOLCLORE 2 Segundo o Banco Mundial, há uma cidade cuja qualidade de vida sempre melhora: Curitiba. Pelo jeito o organismo financeiro piora em avaliações à medida em que a capital paranaense se degrada.
CROMO Papagaios no verde da cidade, sanhaços fundidos no azul do céu: belezas se anulam na transfusão mimética. Por isso é mediocremente branca.
AFORÍSTICO O olhar do governante reclama um filme do Fellini: que expressão mortal de tédio!





