A redução ao campanário
Esforça-se o ministro Rafael Greca em tentar reduzir os problemas de sua pasta, gravíssimos, ainda mais com a denúncia de que a máfia italiana estaria por trás da comercialização de máquinas eletrônicas, para uma dimensão apenas de assunto provincial, de campanário. Ameaça processar todos os senadores do Paraná, que figuram na oposição interna, o que é o maior dos absurdos, já que essa é a pedra de toque da imunidade parlamentar – a liberdade para emitir opiniões da tribuna. Tenta-se, com justa razão, diminuir o raio, amplo demais, das imunidades, como a punibilidade dos crimes comuns, mas jamais se pensou em tirar de um deputado ou de um senador o livre curso das críticas, ainda mais quando assentadas naquilo que se apurou em investigações policiais e extraído do noticiário da imprensa.
Numa coisa, porém, Rafael Greca tem razão: o lamento do abominável acordo branco que permitiu a Alvaro Dias ganhar uma eleição no Senado praticamente sem concorrência. É que Greca pretendia sair pelo partido, mas o temor-pânico de Lerner era de tal ordem que pretendia fazer o máximo de acertos, alguns deles cobrados com traumas, como se vê no cotidiano da política, razão pela qual a frente situacionista abriu mão de uma vaga senatorial. A paranóia do lernerismo era a hipótese de uma aliança entre PMDB e PSDB, como quase se deu em 1994, e que foi esnobada justamente pelo senador Requião numa campanha solo, bem ao seu estilo, e de aberta ‘‘cristianização’’ de Alvaro Dias.
Esses fatos apenas acentuam a fragilidade política do Paraná, a ausência de senso de previsão de Rafael Greca, empolgado com a investidura e nela dando vazão aos seus impulsos pelo espetáculo, e não detectando o terreno minado de sua área pelas denúncias que se tornariam frequentes quanto à picaretagem essencial da jogatina eletrônica, cujo caldo de cultura só pode ser de vínculos de formas variadas de criminalidade, marginalismo, lavagem de dinheiro. Ora, nunca se colocou em dúvida a honestidade de Rafael Greca, apesar de ser combativo, raçudo nos entreveros, o que poderia lhe custar alguns ônus do patrulheirismo militante. Ao atuar, porém, numa pasta, que abre espaços para o jogo eletrônico, ficou sujeito a riscos impensáveis e que nesse momento minam a sua imagem de político e administrador.



AFORÍSTICO
O PMDB de hoje, em suas convenções, impressiona pelo silêncio: não há disputa e a paz dos cemitérios reina, gloriosamente

BIZARRICE Outra coisa: o ministro do Esporte pode ser cobrado também pelos prejuízos causados aos clubes da terra como o Paraná, que merecia os três pontos da partida contra o Vasco pela invasão do campo pelo senhor feudal, Eurico Miranda, e agora com o Atlético Paranaense, roubado escandalosamente.
Prova, afinal, de que também essa paixão somada à fraude nas competições do futebol profissional acentua o terreno movediço do esporte. Claro que há certa automonia de órgãos como a CBF, mas politicamente essas questões desgastam autoridades. Imagine-se, por exemplo, se a punição ao Coritiba, jogado na Segunda Divisão, se desse agora. Rafael, coxa branca, estaria ‘‘frito’’.
AXIOMA É voz corrente na oposição que há todas as condições agora para uma CPI do endividamento do Paraná e clarear a troca de informações interessadas, ora do governo, ora dos senadores Alvaro Dias e Requião. Alguns deputados, que normalmente votam com o oficialismo e que são ligados a Alvaro vão ser devidamente ‘‘cobrados’’ e isso pode mudar o quadro.
Governo pretende transformar a ida de Giovani Gionédis (que perde de longe para seus antecessores desde os de Alvaro/Hauly, e Requião/Arzua), até o próprio Miguel Salomão) numa resposta cabal ao assunto. Sabidamente não será suficiente. O governo, nessas questões, sempre tem mais bala na agulha.
GLOSA Se toda a mordomia que estaria sendo removida do Legislativo se devia a um só homem, Aníbal Khury, a maioria, ao acumpliciar-se, era por medo ou por excessivo culto ao ‘‘guru’’? Dá para concluir que há crise de caráter, ainda mais se tudo não passar de prestidigitação com novos serviços e também novos beneficiários.
EPIGRAMA Uma pendência no Judiciário, em torno de beneficiários de pensão previdenciária, pode implicar numa situação incrível: a revogação da Lei do Divórcio e, ao mesmo tempo, daquela outra que a precedeu, também de Nelson Carneiro, relativa aos direitos da companheira.
SPRAY O ‘‘feriadão’’ deu uma idéia de como será a temporada nas praias. Em Camboriú, nunca houve movimentação em massa de argentinos, a esta época do ano, como agora. Isso se aplica a todo o litoral catarinense, inclusive a praias menores como a de Barra do Sul. Já, no Paraná, a perspectiva não é tão boa pelas razões conhecidas. - Não sabemos tirar proveito de promoções, inexiste o hábito de tarifas menores em hotéis, restaurantes, pousadas na chamada entressafra turística. - Rafael Greca está disposto, mesmo, a ir ao Senado ou a uma de suas comissões, para análise das denúncias contra o seu ministério. Greca não pode ser subestimado em seus recursos oratoriais, superiores em conhecimento aos de Requião (a ironia cruel de um, oposta à epigramática do outro). Aliás até na prepotência Greca é com ele parecido. - O comandante da PM, Guaraci Barros, tem uma visão rigidamente profissional da vida na corporação. Pretende até convocar aposentados para tarefas burocráticas, deslocando o pessoal da ativa para funções operacionais. É um exercício de criatividade possível para o sufoco da insegurança generalizada.
FOLCLORE Só Lerner vai aparecer, segundo adianta o noticiário, nos programas eleitorais do PFL. Como isso se repete com o PSDB e o PMDB dá para perceber que nossas opções em política são como as da farmacologia para os chamados efervescentes Alka-Seltzer, Sonrissal e Sal de Andrews. Depois ainda querem que o povo não se abstenha de votar.
CROMO E de repente os neuróticos urbanos começam a implicar com o canto dos sabiás, como já o fizeram com a musiquinha do entregador de gás.

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