Luiz Geraldo Mazza
Um castigo alegórico
A burguesia luminosa dá golpes incríveis (aplicações financeiras, mercado imobiliário, isso sem falar em coisas piores) e fica flanando por aí. Há alguns que pintam nos clubes granfos, com carros importados, mas que têm contas de até R$ 20 milhões na praça. Os credores não cobram porque quase sempre são da mesma classe social, às vezes um patamar mais baixo, e isso não fica bem.
Alguém me sugeriu um dia (certamente a pulsão veio de algum golpe sofrido) que se fizesse uma punição alegórica, mas necessariamente humilhante, a essas pessoas. Imaginou algo refinadíssimo: como se vivêssemos na Idade Média na hora das execuções, os sentenciados (a ricarada que vive de dinheiro público, nas empreiteiras ou em intermediários financeiros), em fila indiana, entrariam na praça (Centro Cívico ou Parque do Barigui, se em Curitiba), todos com roupas de veludo e marchando sob o rataplan dos bumbos e cortariam o cabelo e fariam a barba, seguindo-se a cena de mostrarem o bumbum que seria espetado por um agulha acionada por um anãozinho com fantasia de Rigoleto. Não seriam executados, apenas graciosamente execrados, já que é inimaginável vê-los apanhados no duro pela Justiça.
Há uma forma menos requintada de punição também alegórica: haveria no calendário uma data apropriada para que lesados pudessem reparar, é claro que de forma simbólica, os agravos sofridos, dando tapas na cara ou pontapés no traseiro dos seus devedores. Tudo seria feito com extrema elegância sem lesões de qualquer natureza. O tapa seria mais pelo som, já que alguns sugerem que o o áudio é indispensável para constranger e punir. No chute na sambiquira, o carrasco tiraria o sapato para não ofender.
Isso é mais elegante do que aquilo que o FMI faz com o Brasil e seu povo.
TROTE
Um dos trotes mais comuns em jornais, lá pelos anos 50, feito com os novos, os focas, era mandá-los buscar a calandra na oficina. Como a peça era enorme, os gráficos davam ao jornalista duas barras de chumbo, usadas na fundição para alimentar as linotipos, e o calouro levava para a Redação o troféu enorme, a sua penitência de batismo. Mais recentemente faziam uma terrível com novatos da televisão: buscar, na área técnica, imaginem, pó de vídeo
ESCURIDÃO Percival Charquetti, médico e jornalista, o primeiro Prêmio Esso da terra em O Estado do Paraná, tomou um pileque e acabou dormindo na Redação. Um dos Zimmerman, não sei se o Xiquinho ou o Mozart, resolveu fazer a perfídia, apagando a luz e todo o mundo continuava a bater à máquina como se tudo estivesse normal. Charquetti despertou no escuro, ouviu o bater das máquinas e pensou que estava irremediavelmente cego.
HIPOCONDRIA Tirar sarro, inquietar, acossar hipocondríacos é um esporte cruel. Na Caixa Econômica Federal, em Curitiba, havia um deles, o Cicarino. Um dia ele chegou na repartição e de cara um funcionário, espantado, perguntou-lhe se estava doente, pois dava a impressão que sua cabeça estava inchada. Cicarino já começou a somatizar. Passou pela procuradoria e lá vieram outras observações: O que há com sua cabeça que parece latejar?. E isso ia deixando o cara mais oprimido e angustiado.
Não aguentava mais ouvir observações sobre a patologia e dirigiu-se para a saída um pouco antes do final do expediente. Ao colocar o chapéu na cabeça, quase desmaiou: ele não se ajustava. É que os maldosos haviam colocado recheio no interior do chapéu (carneira) só para completar a perversidade.
A CIGANA No antigo Quick-Lanches da Boca Maldita, sou abordado por uma cigana que me pede que lhe pague um sorvete. Eu acabara de trocar um cheque por uma nota de 50 cruzeiros no caixa para as despesas do sábado. Paguei o sorvete e pouco depois a zíngara (por que elas não são bonitas como as dos romances?) me cercou e, sob a alegação de que eu havia sido prestativo, insistiu em querer fazer a leitura das mãos. Aí veio o golpe: pediu uma nota, que sujou de óleos (percebi que essa estava perdida), deu-me amuletos vegetais, enfim me anestesiou, mas indicou um número. Joguei no bicho e deu a centena na cabeça. Só não levei a melhor por causa do meu ceticismo, já que joguei pouco. Às vezes, um pouquinho de superstição não faz mal a ninguém.
LOBISOMEM Hoje se poderia dizer que é mais fácil achar um homem de lobby, já que eles são tantos, do que um lobisomem. A imprensa, volta e meia, vem com loira-fantasma, túmulo-que-chora e lobisomem. Numa região de Curitiba, diziam existir um deles que corria atrás das mulheres. Lá no bairro do Tarumã. No Correio do Paraná, o irreverentíssimo Fernando Pessoa Ferreira escrevia a coluna Venenoteca, assinada por Chiquinho Bórgia, seu pseudônimo. E tascou a barbárie: Se é baixinho, muito peludo, só pode ser o João Ribeiro Júnior, que era secretário da Fazenda do governo e sócio do jornal.
NAMORADAS Uma velha sentença assegura que ninguém esquece da primeira namorada, o quanto mais imaginária, mais forte a lembrança, o chamado amor à traição, desconhecido da amada, inconcebível nos dias de hoje. Se há algo que, se cair no vestibular, a rapaziada não corre o risco de errar é sobre o Dia do Fico porque para eles todo o dia é dia de ficar.
RIMA A mestra de minha mãe, dona Nair, dando aula de versificação no colégio em Paranaguá. Pede uma quadra a uma aluna e ela declama. A mestra replica em rimas de pé quebrado: Isso não é teu// é do Casemiro de Abreu.
PARANISMO É justo comparar paranismo com os conceitos críticos de patriotismo, como o de Samuel Johnsson, tal qual o último refúgio dos canalhas? Quase sempre se liga ao conceito alguma cumplicidade, alguma reserva de mercado, enfim uma garantia prévia de que ao paranista tudo se garante. Se há situação que não pode ser chamada de paranista é a proporcionada pelo atual governo. Mas a tchurma palaciana, com multinacionais ou não, vai sair numa boa.





