Luiz Geraldo Mazza
Escassez de doutrina (2)
O PIB do Paraná continua abaixo do registrado no Rio Grande do Sul. R$ 54,5 bilhões contra R$ 46,9. Os números são de 98, quando a badalação em torno dos R$ 17 bilhões de investimentos vem sendo repetida à exaustão há mais de três anos. Assim, pois, os dados do Banco Central e Ipea não registraram oscilação correspondente ao triunfalismo da praça.
É mais um argumento para documentar que o efeito-demonstração da economia em nada parece sincrônico ao agito publicitário do governo. Com as mobilizações dos trabalhadores das montadoras, percebemos que eles são mal remunerados, e em certa medida em escala incomparável com os centros tradicionais, mesmo depois dos enxugamentos e dos avanços tecnológicos. Além de tudo, as unidades daqui são claramente poupadoras de mão-de-obra.
O governo está cansado de saber que as atividades tradicionais, como as da agroindústria, têm maior efeito multiplicador nessa questão do emprego, afinal o maior problema brasileiro. Não criou qualquer salvaguarda para proteger as nossas organizações, e enquanto se empenhava no carnaval de atrair montadoras, cujos protocolos escondia burramente, permitiu, sem esboçar qualquer gesto de defesa, que a Batavo soçobrasse, quando havia tempo de evitar que fosse absorvida pela multinacional Parmalat.
Percebe-se uma adesão fundamentalista que reproduz aqui, na escala devida, a mesma postura do presidente FHC, como se não houvesse matizes entre a abertura irresponsável e antibrasileira e formas menos dependentes e primárias de atuar na economia. Está claro que o alinhamento automático do governo estadual afastou o exame de qualquer outra alternativa.
Uma das coisas boas que Aníbal Khury fez foi, no andamento desse processo, ter alertado para duas questões: a perda de expressão regional na economia e o estímulo aberto a um tipo de concentração que despreza o pequeno e o médio empreendimento. Afinal, ele sabia do que estava falando por ter sido o autor da lei de incentivos.
Outra coisa: estamos mal de expressão externa. Nos desembolsos no BNDES, ante a submissão sistêmica ao capital externo, especialmente, era de se esperar que tivéssemos melhor posição. No ano passado aparecemos em sexto lugar, atrás dos catarinenses, com apenas R$ 666 milhões. Não temos expressão política e vamos mal de divulgação porque na lista de intenções de investimentos aparecemos, em 98, com apenas R$ 5,8 bi, quando o oficialismo cacarejava muito mais. Como os números são retirados da imprensa, no levantamento da Simonsen, vamos mal de comunicação, embora os gastos de quase R$ 500 milhões em menos de cinco anos.
BIZARRICE
O nosso ministro Rafael Greca fala dos bingos com uma tranquilidade como se se tratasse de algo inocente, como jogos de quermesse, roda da fortuna e pesca milagrosa. Só falta a gasosa Cini para completar o cenário. E a voz do padre polaco, ao fundo, anunciando o churasco
AXIOMA Telepar Celular, em certos aspectos, lembra caça-níqueis: a Telepar Fixa é quem fatura aquele aviso gravado, como se fosse uma ligação de 30 segundos, informando estar o aparelho fora de área ou desligado, quando se liga de um telefone convencional para um celular. O custo de R$ 2,07 para o uso do serviço 102 é um abuso, mas o absurdo maior é que o usuário tem que engolir uma propaganda, Telepar 14.
GLOSA Pra Seleção sub-23 foram convocados três paranaenses. Para o Ministério só temos um e, no momento, sob forte balanço.
ANALOGIAS Diferenças entre Richa e Lerner, apesar da semelhança no ritmo: o primeiro, ao receber denúncia contra seu principal secretário, o da Fazenda, instalou Comissão de Alto Nível e permitiu que acusador e acusado se submetessem ao crivo dos deputados em sessão aberta com TV; o segundo, ao saber de irregularidades graves na Banestado Leasing, promoveu o acusado a secretário de Estado com o que haver ratificado tudo o que foi feito.
O homem, como diz a sentença clássica, é o estilo.
SPRAY Ninguém consegue arrancar do governo a lista de acertadores do Serlopar nos bingos. A cautela é para evitar que se tente vincular os fatos (acusação de uma pessoa sendo premiada duas vezes) aos problemas do ministro Greca. - Um conselho: fechem tudo, revisem os regulamentos, examinem as máquinas (o procurador da República, hoje deputado federal Antonio Carlos Biscaia acusou- as de viciadas), pesquisem se há ou não lavagem de dinheiro. E por último: se não houver ganho apreciável para o esporte, acabem com tudo! - Nova cena de cabo-de-esquadra na área policial: o auto-posto Banestado da Marechal Deodoro foi assaltado e o vigilante só avisou a autoridade vinte minutos depois, sob alegação de que essa é a orientação da empresa de vigilência. Havia quatro viaturas do Copom e duas do Cope nas imediações. O delegado-geral investiga as razões dessa incrível norma de segurança, que só facilita o crime. - Novela ambiental em Araucária com nova vitória da associação ecológica no caso das obras da CSN. Esta vai ter que pagar R$ 10 mil por metro quadrado danificado na área de preservação. - CPI da Segurança vai ser pedida no Legislativo.
FOLCLORE Acostumados com o ambiente da terra (imprensa acomodada, políticos cordatos) ministros paranaenses, como se dá agora com Rafael Greca, acabam estranhando as pressões. A torcida no Paraná é para que com Greca esteja acontecendo o mesmo que houve com o Alceni Guerra, muito mais agredido, cuja honestidade foi reconhecida ainda que fora do governo.
CROMO Pergunta-se como trabalhadores,// certamente escravos,// construíram a Pirâmide de Gizé// e é fácil percebê-lo// na estiva do catador de lixo// nas nossas ruas e avenidas// ao desafiar a lei da gravidade// com a montanha de sucata// uma reprodução mais acidentada da Torre de Pisa// na engenharia caótica de papelão// e lâmina de compensado.//
AFORÍSTICO Quem quebrou o Paraná: pelo jeito foram todos, mas o último posa de síndico da massa falida e vítima de circunstâncias históricas.





