Luiz Geraldo Mazza
Escassez de doutrina (1)
Quando Ney Braga tocou o processo de diversificação da economia paranaense, tinha uma base doutrinária muito forte. O Alex Beltrão foi uma espécie de estrategista desse novo ciclo. Parecia algo singelo já que priorizava a infra-estrutura econômica (estradas, energia) mas tinha todas as componentes de uma revolução. Houve aspectos falhos na política de substituição de importações, como as fábricas de óleo comestível e pasta mecânica. Natimortos, como se dá com as microempresas no Brasil, mas as que tiveram maior capacidade de sobrevivência acabaram dando sentido ao novo ciclo.
Havia tudo para que com a proposta de Lerner de mudança do perfil da economia vivêssemos o impacto de algo assemelhado, embora em outra escala, com o havido nos anos 60. Da mesma forma que aquele ciclo mexeu com mentes e corações, o de agora também o faria. Só que no tempo do neysmo, a sociedade não falava tanto pelo código atual da propaganda e do marketing, como faz Lerner com exagerada aplicação, mas sem clareza de idéias, pensamentos, axiologias, filosofia, valores apenas subjacentes ou até inexistentes na fase atual.
Basta lembrar um detalhe: confiava-se no planejamento e na doutrina. Hoje o processo tem muito pouco dessa cautela. A maior prova está aí: a cada índice econômico e social, que revele queda, o governo não tem massa crítica para a resposta que não seja na superficialidade do código publicitário.
Vejamos um dado relevante: a reportagem da Gazeta Mercantil mostrando que fornecedores paranaenses correm o risco de ser alijados das gôndolas das redes de mega-supermercados é uma evidência caprichosa da não previsão de acidentes de percurso dessa ordem, comuns na sociedade globalizada e cuja abordagem é feita ou como se fosse um fundamentalismo ou bobamente rejeitada.
O fato é que desajustes são normais nessa quadra, ainda que não pegue bem - que o governo ceda tantas facilidades para transnacionais gigantes num momento em que a expressão regional da economia seus empresários, suas marcas desaparece como uma espécie de fatalidade para a qual não existiria qualquer tipo de antídoto. Lerner não raciocina: ele pega um papel branco e com o pincel atômico desenha o mapa, e lá vem a chatíssima descrição dos Anéis de Desenvolvimento, o teaser dessa inovação bronqueada que é o pedágio. E tanto é mal pensada que para salvar seu couro na reeleição, Lerner cortou ao meio as tarifas delinquentes que havia decretado para o serviço.
Ele vai passar, como já disse, à história, como o que mais multinacionalizou e o que mais desparanizou a nossa economia. Está aí o pepino dos fornecedores que pagam impostos, que não contam com imunidades, como é o caso da subsidiária do Grupo Sonae, a Tafisa, e que são agora submetidos a esse garrote vil.
BIZARRICE
O novo comandante da PM, coronel Guaraci, anunciou que vai colocar em trabalhos operacionais 60% do efetivo da Banda da corporação. É algo que corre na contramão de um governo festivo
AXIOMA Essa história levantada pelo Greca para inibir críticas que a bancada paranaense no Senado seria contra o Estado é de uma pobreza franciscana, uma jogada provinciana e paroquial. Osmar Dias respondeu bem: o caso dos bingos eletrônicos interessa ao Brasil e ao mundo pela notícia de que as máquinas, que o ministério queria liberar, eram de interesse da máfia italiana.
Não é uma parada de campanário. Não é bingo de quermesse de igreja.
GLOSA Frases, aparentemente ingênuas, podem ser contundentes. O governador Antony Garotinho disse que o PT é o partido da boquinha. FHC chamou aposentado precoce de vagabundo. Hugo Borghi atribuiu ao brigadeiro Eduardo Gomes a observação de que não queria o voto dos marmiteiros. Não se sabe se a frase foi verdadeira, mas teve efeito devastador em São Paulo em favor de Getúlio Vargas. Marmiteiro era pejorativo de trabalhador.
SPRAY A condenação do leilão de óvulos e esperma pela Internet, feita pelo cientista Volnei Garrafa na CBN de Curitiba, teve repercussão nacional: a autoridade em bioética fez uma crítica pesada ao fundamentalismo econômico e às deformações éticas do capitalismo. - Garrafa, mestre da Universidade de Brasília, tem obra em conjunto com o especialista italiano Giovani Berlinguer, senador do Partido Socialista, e consultor do Vaticano na matéria. - Aqui, em Curitiba, nessa complexa área há um padre, Ricardo Hopers, vigário da Catedral e que atua no cotidiano de um comitê do Hospital Nossa Senhora das Graças sobre questões éticas e filosóficas, prolongamento da vida nas UTIs etc. - Curitiba, na pesquisa da revista Amanhã (Simonsen Associados), foi a única das capitais metropolitanas a registrar, de 1997 a este ano, aumento em seu potencial de consumo: saltou de 1,75% do total do País, para 1,93%. São Paulo caiu de 13,26 para 10,93, o Rio de 6,76 para 5,98, Belô de 2,15 para 1,98. - Londrina aparece bem. Está com 0,42 e ganha de Joinville (primeiro de SC), com 0,40, de Caxias do Sul (0,37), de Floripa (0,36) e de Vitória (0,29), que são capitais. - Destaques de Londrina, segundo o documentário, são tecnologia de ponta (sede da Global Telecom e em novembro inaugura o teleporto, primeiro do interior brasileiro), agricultura de vanguarda e medicina de excelência (há também, para completar, o desempenho como terceira universidade do Brasil).
FOLCLORE Com o uso do paranismo como escudo dos desvios morais é de lembrar-se da paródia de Dalton Trevisan como refúgio da mediocridade e da frase original de Samuel Johnsson sobre o patriotismo como último refúgio dos canalhas. Millor disse que o patriotismo é o primeiro refúgio dos canalhas.
CROMO Houve quem achasse que um dos cavalheiros do anúncio da Skol em que dizem é redondo! se pareceria com o governador. Pois agora há um, na mesma linha, de mulheres comemorando, em que uma delas é muito parecida com uma assessora de gabinete.
AFORÍSTICO Por que o revisionismo da moda na Assembléia Legislativa não operava sob o mando de Aníbal Khury? Questão de caráter.





