Saída pirandelliana
Não há fauna mais qualificada para a prestidigitação do que a política: superior aos mágicos, imunizada contra ‘‘Mister M’’, ela é insuperável. Vejam o ocorrido na área de Segurança anteontem, em que o fato detonador da mudança é driblado pelas artes da representação, ainda que com as deficiências de um espetáculo mambembe. Assim é – como sugere Luigi Pirandello – se vos parece.
Ontem, no Senado, houve o depoimento de Manoel Tubino, ex-presidente do Indesp, e que saiu atirando contra Greca e especialmente Luiz Antônio Buffara de Freitas. Este, que deveria depor também como acusado principal de obter vantagens no licenciamento dos bingos, aparece num leito de hospital acometido de esclerose múltipla e estresse na Santa Casa de Misericórdia de Curitiba e de onde assinou, em carta manuscrita, seu pedido de exoneração do cargo que ocupava na pasta do ministro paranaense.
Num governo do PMDB houve um caso parecido: um autor de irregularidades, coincidentemente, recolheu-se a um hospital na hora do ‘‘vamos ver’’ e conseguiu ganhar tempo e tolerância. Novamente é de lembrar-se do Pirandello: ‘‘Assim é se vos parece’’.
Uma pesquisa de opinião pública, atribuída à Alvorada Pesquisas, feita junto - a 500 curitibanos (e não foi nem na convenção do PMDB, nem muito menos numa linguiçada da agremiação), teria mostrado Requião com 43,2% contra 25,2% de Lerner e mais Requião 42,2% e Greca 27%. É de um ridículo atroz o resultado dessa sondagem que colide com tudo o que institutos como o DataFolha e outros equivalentes. Se assim é – é o que sugere a interpretação imediata – Requião não precisa temer uma disputa com Cassio Taniguchi, o que parece uma constante no seu comportamento, já que é a única solução oposicionista para encarar a parada. Além disso, se essa distância entre ele e Lerner fosse real, poderia se dar ao luxo de apoiar um clone ou um irmão para terçar armas com o Japonês. Pelo menos é ‘‘assim, se vos parece’’.
Outra questão é a dívida: Lerner acha pouco, Alvaro Dias acha muito e Requião acha graça. Qual seria o montante da dívida e quais os agentes que a teriam fomentado? Lerner diz que foram os antecessores, Alvaro Dias afirma que foram os sucessores e Requião afirmaria, com sua compulsão pela blague, que deixou o Paraná ‘‘redondinho’’ e que hoje a maior redondeza é a do governador.
Como jamais saberemos ao certo o tamanho e o causador da dívida resta concluir que tudo é ‘‘assim se vos parece’’.



BIZARRICE
Conferência do prefeito Cassio Taniguchi no Hotel Rayon para grupo de seguradoras: ao ser questionado sobre a segurança, ele se recusou a falar sob o fundamento de que correria o risco de ter a cabeça cortada e lançada para flutuar no Rio Belém. Detalhe ecológico: neste rio seria impossível porque está de tal forma assoreado, que a cabeça, por mais ilustre que fosse, não boiaria. Cassio falou brincando para não invadir área que não é de sua atribuição por ser estadual

AXIOMA A vinculação ao narcotráfico da Secretaria de Segurança, referida ontem no meu artigo de abertura, não envolve a figura do secretário Martins de Oliveira, mas a instituição. O delegado Adauto Abreu de Oliveira, do Grupo Fera, supostamente de elite, declarou que havia um grande número de policiais da Anti-Tóxicos (33) vinculados ao narcotráfico e a operações de extorsão. Mesmo que fosse um declaração leviana mereceria apuração e o que se sabe é que nada se fez.
Também o autor da declaração, embora afastado de delegacia operacional, foi em seguida nomeado diretor da Escola de Polícia, prova de que merecia confiança. Como não andou a apuração da maior violência a direitos humanos que foi a invasão da Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos por vinte encapuzados que executaram um preso que no dia anterior assassinara um policial. O delegado Bassan, então corregedor, entendeu que se tratava de ação retaliadora. Não presumiu, afirmou.
Nos dois casos, a Secretaria alega que os dois delegados, embora as declarações feitas, não tomaram providências. O secretário está até hoje à espera dos 33 nomes jamais declinados e, quando isso acontecer, as providências serão imediatas. É o que promete.
GLOSA A Telepar, tanto a fixa como a móvel, vai sofrer um cerco do jornalista Cândido Gomes Chagas da revista ‘‘Paraná em Páginas’’. Ele não a tratará como monotema, como faz com Lerner & Rischbieter, Greca e Taniguchi, mas a levará à desestabilização. Telepar vai ter que se aconselhar com a Telepaz, aquela que atende desesperados.
DOSSIÊ 1 Sílvio Sebastiani está montando um dossiê do George Pantazis, o homem que vendeu as jaquetas para a Polícia Militar. Ontem na TV Exclusiva, ele citou processos da 1ª Vara Cível, de números 58.198 e 58.213, movidos pelo então senador Francisco Leite Chaves desde 1990. Tem mais.
DOSSIÊ 2 Um episódio irregular de pagamento indevido de precatório a uma viúva no IPE vai dar margem a um procedimento que atingirá o governador e um dos seus secretários por eles haverem, num despacho, anulado acordo homologado e transitado em julgado. Equivaleu a uma revogação de ato judicial pelo Executivo, o que pode ser considerado heresia constitucional.
FOLCLORE Mais uma do Elísio Marques: ‘‘Cantei a pedra, mês atrás. Mais fácil uma anta passar pela cabeça de uma agulha de crochê do que o time do Atlético ser campeão brasileiro de 99, o Coritiba ficar entre os oito classificados, e o Paraná escapar da Segundona em 2000’’.
CROMO Previsão apocaliptica, ao estilo de Hitchcock, sugere que as sabiás- brancas, correntinas, laranjeiras serão tantas nas cidades que invadirão as nossas casas. Melhor isso e invasões de colibris do que as de agora.
AFORÍSTICO Receio no Palácio Iguaçu de uma campanha presidencial de Lerner é o de que aí será inevitável conhecer o que tem acontecido no Paraná e acaba tão filtrado, tão glamourizado.

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