Alternativa à globalização
A extrema e insuperável carência das esquerdas de um modo geral é a falta de uma doutrina alternativa, moderadora dos efeitos da globalização. Não dá para citar a social-democracia européia por uma questão de origem, a irrigação dos países pelo ‘‘welfare state’’, o Estado do Bem-Estar. Isso é tão verdadeiro que as ofensivas da direita, tanto na França, como na Alemanha, a despeito da má situação dos socialistas neste país, para abolir os resíduos assistenciais têm resultado negativas pela firme resistência das corporações interessadas.
Essa é a deficiência-chave do pensamento político brasileiro neste momento: um homem originariamente de esquerda, o presidente Fernando Henrique, executa aqui, sem questionamento, o receituário internacional, que nos coloca numa forma de dependência apropriada aos protetorados. O cotidiano nacional está carregado dessa deficiência e o discurso de oposição, como era de sua obrigação, não inova e reproduz fórmulas arcaicas de nacionalismo primário e de visão autárquica da economia, sabidamente inviáveis.
Na convenção do PT, a mais concatenada expressão de esquerda ao lado do MST, percebeu-se no vigor das disputas entre correntes internas, tanto nacional como regionalmente, essa brutal escassez de doutrina. A resistência do PT à necessidade do ajuste previdenciário, que levou seus governadores à ausência no encontro da semana passada com o presidente FHC, e que era do interesse de todos, decorre da visão ainda patriarcal, estreita, para manter laços com um setor do sindicalismo dos servidores públicos, que tende, a cada vez mais, em função do que se dá em escala mundial, a perder expressão. E não porque se pretenda o minimalismo idiota (a fanfarronice do Estado Mínimo), mas sim porque a elefantíase nos níveis alcançados é uma questão de organização e que alcança, a um só tempo, o setor público e o privado.
O quadro atual está lembrando e muito situações históricas passadas como as que se deram logo após a proclamação da República e que passaram a incluir, em sua doutrina, a nostalgia da monarquia, o que se deu tanto com a saga de Antonio Conselheiro como com a do Contestado, no Paraná, o que já estava incubada na própria Revolução Federalista. Não pega bem para quem cultiva uma utopia – e precisamos delas – servir de caldo de cultura para sair em busca não do tempo perdido, itinerário proustiano, mas da era vencida.
AXIOMA O governo negocia com malandros sem consultar cadastros. Isso se deu muito no Banestado (Leasing) e agora se repete em outros setores: empresário que quebrou uma fábrica de extintores de incêndio está ateando fogo na área de segurança.
GLOSA Países que adotaram os genéricos tiveram queda de preços nos remédios da ordem de 40%. Esperar-se que a Abifarma apoiasse os genéricos era o mesmo que aguardar que a Abifumo defendesse restrições ao tabagismo.
EPIGRAMA Dois escritórios e todas as instalações do semanário ‘‘Hora H’’, num prédio do Jardim Schaffer, foram roubados de cabo a rabo. Os ladrões sempre chegam na ‘‘hora h’’, enquanto a polícia, quando aparece, pinta na 25ª hora.
TERGIVERSAR Cada vez que aparece uma estatística oficial, com timbre do IBGE, negativa para o Paraná, os ‘‘image-makers’’ do Palácio Iguaçu sempre têm uma explicação: as estatísticas aqui seriam mais rigorosas do que em outras unidades federativas, por haver maior fidelidade nas comunicações.
Assim, atingiríamos taxas elevadas de mortalidade infantil (28,5 por mil nascidos vivos), o que nos coloca em décimo neste item, porque seríamos mais precisos na informação estatística. Em analfabetismo também aparecemos, conforme a resenha da revista ‘‘Amanh㒒, em nono com 11,68% da população com 15 anos ou mais. Também. segundo os triunfalistas, a informação seria precisa.
SPRAY Se o governo fosse eficiente, mobilizaria seus recursos técnicos para avaliar e, se fosse o caso, corrigir o levantamento da revista ‘‘Amanh㒒: há coisas incríveis na documentação como, por exemplo, o informe de que não estamos entre os dez mais dotados de iluminação elétrica. - Em posse de aparelho de TV estamos em nono com 91,2% de famílias com receptor em casa. - Quanto à geladeira (dados devem ser extraídos da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar), embora sejamos fabricantes (Refripar absorvida pela Electrolux), aparecemos em oitavo lugar com 89,0% de famílias com refrigerador em casa. - Badalamos muito programas de saneamento ambiental (‘‘Lixo que não é Lixo’’) e no entanto aparecemos abaixo dos gaúchos (93,8% de famílias urbanas atendidas), de São Paulo (94,1%), Santa Catarina, em primeiro, com 94,3%. O Paraná está com 93,6%, em quarto lugar. - Em leitos hospitalares (por mil habitantes) aparecemos em quinto com 3,3, atrás da Paraíba com 3,5, Rio com 4,1, Maranhão com 4,6 e Goiás com 4,7. A média brasileira é de 3, indicador alcançado por Santa Catarina.
FOLCLORE Roubaram, no Ahú, o Gol AGJ-6557, carro locado, da Secretaria de Segurança. Se a repartição não está garantida, imagine-se o que se dá com nós. O atentado ao secretário, gestão passada, permanece insolúvel.
CROMO Os zangões morrem de amor nas tenazes da abelha rainha.
AFORÍSTICO Como tem gente revisando Aníbal Khury. Quando em vida, não havia assim tantos voluntários. É um teste de caráter.

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