Já deram todas as definições para o Brasil: do clichê da cordialidade ao extremo do país de Macunaíma, herói sem caráter; já se disse que somos, antes de tudo, indolentes e preguiçosos e igualmente que o nosso forte é a aguda permeabilidade de nossa gente, como doutrinava o alegre Darci Ribeiro. Há, porém, todas as evidências de que somos, mais que do que esquizofrênicos, surreais.
Vejam só: o governo encara com o máximo fair play a gincana dos sem terra que, a qualquer tempo, se transforma num simulacro de guerrilha: irrita-se, porém, com a invasão do gabinete do ministro Kandir por marrecos, cabras e porcos, ameaçando intervenção na PM de Brasília, quando se manteve estático ante o massacre de Corumbiara e de Eldorado de Carajás, não suscitando qualquer censura à corporação militar como se se tratasse de ação normal.
A informalidade ganha do sistema jurídico não apenas no mercado de trabalho, no mundo empresarial e no crime organizado. Tanto que gravações clandestinas valem mais do que o libelo de um promotor até porque acionadas pelos meios de comunicação, que lhe conferem uma força magnética que a justiça não tem. Há mais pessoas sem carteira assinada no mercado, a sonegação tributária é tão desenfreada que se calcula que haja uma perda superior a 80%, a cada instante se descobre uma nova patifaria dos precatórios, aos acertos do futebol e da vergonhosa compra de votos para a reeleição de FHC; a água dos hospitais está contaminada como a das vítimas da hemodiálise de Caruaru ou da Clínica Santa Genoveva; o governo, atolado em dívidas impagáveis, vende as suas estatais a preço de banana.
Em meio a tal cenário tudo pode acontecer e anteontem houve um episódio bem curioso: a lista da Loteria Federal dava o número errado do 5º prêmio da extração (33687 quando era 33684), o que foi corrigido ontem. Qual porém o dado surreal da estória? As listinhas do jogo do bicho, da contravenção, davam o número correto. Quer dizer a ilegalidade é que é legal, não apenas naquele sentido semântico dos jovens, mas no da expressão do direito.
Precisávamos subverter o Carnaval: que tal a festa o ano inteiro, assim como está e três dias de seriedade, como sacrifício, só para experimentar ? Se eleição no Brasil é forjada (vide Ferreirinha aqui no Paraná, vide tentativa da Globo de impedir a vitória de Brizola no Rio no caso Proconsult), se as votações do Congresso têm algo pior do que os ‘‘pianistas’’ (lembram deles?), se o ‘‘é dando que se recebe’’ dos tempos da Constituinte funciona outra vez até com acerto em cima de concessões de televisão (como no acordo para os 5 anos de Sarney), se os jogos de futebol são pré-acertados o que esperar se não o Apocalipse? Que poderia ser à brasileira: uma chuva de bosta durante um mês, seguida para a depuração, por outra com dez dias de água benta.
BIZARRICE Hélio Duque chamou Lerner, em Brasília, de chupa-cabra do PSDB. Disse que no seu partido não há lugar para vampiro. Mas há, e como há, para outros bichos. A dissimulação do espanto agora no caso da venda de votos, por exemplo, lembra em tudo salamandra ou camaleão com todos fazendo aquele ar de dignidade ofendida. Lembram do Ibsen Pinheiro posando de julgador de Collor e depois apanhado com a mão no jarro na CPI do Orçamento?
SPRAY Demissões no sistema de agricultura estadual vão mobilizar ainda mais o sindicato da categoria. - Pânico entre o pessoal do Banestado com a política de cortes que se intensifica. Pior para a Fundação (Funbep) que também deixou de receber dotações. O aperto nos parafusos está virando ‘‘garrote vil’’. -
Margarita Sansone escreve para contestar que a Fundação Cultural receba 2 milhas por mês. É apenas 1 milhão e 100 mil (a dotação gráfica é de 1,4 milhão). Mas há cerca de R$ 4 ou 5 milhões anuais ainda da política de incentivo à cultura. A grana é gasta em despesas de custeio. - Piranhas - taxistas de outros municípios da Grã-Curitiba - voltam a atacar e incidentes exigem a atenção da URBS. Um malho é o de porteiros de hotéis que liberam carros para idas ao aeroporto, levando 20%, o que os taxistas não podem pagar. A URBS pede que as partes se entendam como se nada tivesse a ver com o peixe. - Está deflagrada a campanha pela manutenção do BRDE, mas há setores do governo favoráveis à tese gaúcha. Se isso acontecer perde-se cerca de R$ 130 milhões ao ano no FAT, Fundo de Amparo ao Trabalhador; apoio a investimentos em projetos integrados das cooperativas de crédito rural num montante de R$ 3 milhões; mais R$ 10 milhões do PRONAF (atendimento a 1.500 famílias rurais) e muito mais. - Brizola e Lerner podem se encontrar hoje: uma despedida sem mágoas. Lerner se acredita no terceiro milênio e vê o Brizola ainda nos anos 50. Se Lerner for para o PFL pega um pouco da nódoa dos votos comprados. - E no PSDB Richa se dispõe a brigar pela vaga ao Senado, agora aconteça o que acontecer. Quer dizer: mesmo que fechado o acordo com Lerner na cabeça e Álvaro para o Senado, o turco se queimou e disputa a vaga. Cisão à vista. -
Em andamento cauteloso a privatização da Copel como se depreende da forma como foi encaminhado o recente projeto que amplia o leque de atuação. Vai sobrar também para a Sanepar. Com o quadro atual nem a venda de estatais resolve a asfixia financeira.
FOLCLORE Para dançar miudinho vaneirão, hoje, com mestre Brizola, Lerner disse para quem quisesse ouvir que jamais cogitou de sair do PDT e que tudo não passou de especulação. A loucura do Requião era mais sadia.

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