O céu não é de brigadeiro
Embora o governo nos convoque pelos meios de comunicação a testemunhar as ‘‘transformações que a gente v꒒, o que está levando muita gente ao oculista ou ao analista, percebe-se que acaba de entrar numa fase de turbulência: o PT pendurou a licitação da Ferroeste, a PM continua em crise por força do acúmulo de trapalhadas, Requião brecou no Senado empréstimo a pequenos agricultores e só o libera se receber informações suficientes sobre o caixa do Estado e as concessões feitas com renúncia fiscal às montadoras, servidores universitários aguardam o cumprimento da promessa dos 80% de reajuste a prestações, PSDB-PPS desejam suspender a diplomação de Cássio Taniguchi por vários motivos que vão da renúncia do vice (isso favorece o poder de fogo de Túlio em querer tanto espaço quanto o Greca quando é bem mais magrinho) à falta de prestação de contas e ações com denúncias de abuso do poder econômico.
Como só se dá bem em tempestade os que sabem criá-la, como Requião, Lerner acaba, depois de um suposto dia de glórias em Brasília, em que teve até o seu nome lançado à Presidência da República e a notícia de sua nova premiação de caráter internacional, saindo da euforia para a fossa. Dos cenários fictícios, que até merece por suas qualificações, cai numa real que reclama um guru de verdade, e não o suposto, para contrabalançar as nuvens sombrias com um sol daqueles da Groenlândia que vara a noite.
Tudo, no entanto, perfeitamente previsível: estranha-se o comportamento de Requião, mas já era esperado, pois ele próprio entrara com uma cautelar de caráter preparatório a uma ação popular por causa das montadoras e havia alertado que colocaria as pré-condições para o parecer favorável. Vir com o papo de paranismo (o último refúgio dos calhordas, conforme a paródia de Dalton Trevisan) é uma caretice destituída de imaginação que nem merece ser analisada porque convoca à unanimidade e, segundo o silogismo clássico, essa é, sempre, irremediavelmente burra.
Essas dificuldades do governo, no fundo, servem à democracia, ainda mais aqui onde o que prevalece é a teocracia chapa branca, porque geram fator de contraste que também inexistia ao tempo de Requião e testam a têmpera de Jaime Lerner, ainda mais agora quando aparece, aureolado, com a condição de possível candidato presidencial. O que, aliás, valoriza sobremaneira o Paraná, pois as encenações anteriores como a de Affonsinho, inesquecível como vexame, e as tentativas de Álvaro Dias e Requião, das quais não dá para recordar sem algum constrangimento.
O céu não é de brigadeiro, mas também não se prenuncia aquele mar azul singrado, num dia calmo, pelo Titanic.
BIZARRICE - O saudoso promotor Acir Camargo, um dos maiores contadores de causos do mundo jurídico, revelou que numa audiência na vara de família, o juiz, circunspecto, perguntava a uma testemunha se ela tinha visto ou ouvido falar algo que significasse restrições ao comportamento da desquitada. A testemunha mostrou ao juiz que não entendera a pergunta.
Ao simplificá-la, o magistrado levou o sujeito, antes de terminar a explicação, à maiêutica socrática, processo de ‘‘parturição de idéias’’, pela dedução:
- Se ela era isso que o senhor falou não sei, mas que era dadeira era.
SPRAY - Vulcânico, depois de brecar a tramitação do ‘‘Paraná 12 Meses’’ no Senado, Requião fez a denúncia de trem-da-alegria em cima do Judiciário e do Ministério Público, com a criação de 400 cargos. - Batendo nos juízes, ele consegue, como fez anteriormente, dar a impressão ao público que magistrados estariam sob suspeição para julgá-lo e isso, explorado na área política, rende dividendos. A forma de ser justo e democrático nessas como em quaisquer outras questões é ouvir todos os lados, incluindo as denúncias que ilustraram o ato de cassação do seu mandato. - Por falar em mandato, o advogado Genésio Natividade entra com ação cautelar no TRE pedindo a suspensão da diplomação do prefeito eleito de Curitiba, Cássio Taniguchi, com três fundamentos: o fato de Algaci Túlio não assumir quando a chapa é indivisível, prestação de contas não aprovada e denúncias de abuso do poder econômico. - Mais ainda: PDT e aliados declararam um valor para os dois turnos e gastaram tudo num só e a empreiteira CBPO fez doações em valores acima do 1% do seu faturamento bruto, limite legal. - A PM, no momento da crise, está assoberbada: é acusada de usar bombas para despejo de invasores e vai ter que enfrentar vários focos de ocupação de sem-terras no Noroeste. - Na bolsa de apostas para o comando da PM, além do chefe do Estado Maior, coronel Lara, fala-se em Valdemar Kretschmer, do Policiamento do Interior. Indicações do coronel Vieira estariam prejudicadas, no entender de muitos, pela omissão no episódio da destituição do coronel Bortolini. - Dezenas de consultas de vários pontos do País, especialmente da Amazônia, Norte e Nordeste, ao escritório do advogado Nilso Sguarezzi sobre como cassar mandatos eletivos.
FOLCLORE - Sobre as especulações em torno de quem vai comandar a PM, outra observação do ex-miliciano, ex-juiz, advogado e anarquista Elísio Marques sugere apenas que o bastão de comando na atualidade é tão seguro quanto o manche do vôo 402 da TAM.
CROMO - Na inconstância do tempo, lembro da cantiga ‘‘chuva e sol, casamento de espanhol; sol e chuva, casamento de viúva’’, que entoávamos para melhorar o tempo, como simpatia em que confiávamos e que nos garantia a ida ao banho de mar com a família.
AFORÍSTICO - Inimaginável em meio aos áulicos palacianos, chegar alguém no estilo do Pacheco do Eça de Queiroz, lembrando em voz alta que ‘‘a adversidade, governador, retempera o caráter.’’

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