Luiz Geraldo Mazza
O cerco do perguntador
Um dos vícios abomináveis de todos nós, jornalistas, é a arrogância, vertida na auto-suficiência e na mania de encurralar o entrevistado, seguindo, aliás, um ritual de certos psicólogos quando o paciente procura saídas, de uma forma desesperada, e ele, sadomasoquisticamente, bloqueia-as com a boa intenção de resolver-lhes os conflitos como se fosse o rato no labirinto.
Já há perguntas que acabam levantando a bola como uma que fiz a Bento Munhoz da Rocha, no Canal 6 em 1961, justamente em cima da renúncia de Jânio e do bloqueio à posse do vice-presidente João Goulart. Governador: é verdade que até hoje o senhor não desembarcou do Tamandaré, quando da resistência militar à posse de Carlos Luz?
Bento, orador primoroso, argumentou que estava agora, como na belonave da Marinha, com a bandeira da democracia. Brilhante, sacou algo como na democracia se está sempre embarcado; dela não se desembarca!
Num dia, Ney Braga, que decidira desfraldar as bandeiras da co-gestão nas empresas, da reforma agrária, da reforma política com voto do analfabeto, vai ao Canal 6 (suponho que era um programa institucional e, portanto, pago e que a mim, como âncora eventual, cabia apenas levantar a bola do entrevistado).
Mas o Ney, que era um velha afeição, que não tinha o desembaraço de anos mais tarde, para mostrar-se próximo da gente, coloquial, empático, referiu-se a uma observação que eu fizera num programa sobre o primado da moral em política, e diante do qual me colocara crítico. E dizendo que colocava a moral em primeiro lugar, acabou me perguntando se eu confirmava aquele conceito.
De entrevistador, virei entrevistado e argumentei: O senhor defende as reformas de base como indispensáveis. A não existência delas é o que dá o tom moral de uma sociedade que precisamos mudar e, portanto, a moral corretiva é diversa daquela que permanece imutável e se pretende até eterna!
Fui cumprimentado pelos reformistas pelo argumento, mas, para a maioria, o Ney Braga não teria pisado na bola. É uma questão de comunicação.
BLAGUE
Por causa do discurso do Cunha Pereira na ADVB falando sobre a energia nuclear, e que em parte acato como inevitável no decorrer do tempo, desde que tomadas as salvaguardas, o repórter Israel Reistein fez a piada melhor de anteontem na Redação: O Mazza e o Cunha Pereira defendem a fissão nuclear porque são imortais. Gozação em cima da condição de acadêmicos. Estaríamos nós, no mundo das letras, mais perto da ficção nuclear do que da fricção
AS MISSES Um dos meus orgulhos é o de ter feito de tudo em jornal, inclusive promoções como a do Dia do Papai e concurso de Miss Paraná. Aprendi muito nesse mundo, pois não era fácil superar bloqueios morais como o das mães que, no preenchimento da ficha biométrica das filhas, ficavam escandalizadas quando pedíamos a medida das coxas e elas, aturdidas, mostravam-se embasbacadas em dar detalhes sobre seios, nádegas, cintura. Hoje, convenhamos, sem qualquer irreverência, a miss já viria dançando a coreografia da bundinha. Uma das minhas glórias foi a de ter feito na Sociedade Thalia um primeiro desfile de maiô, o famoso Catalina, merchandising da promoção.
Das misses, houve a Vilma Sozzi, que ganhou o Miss Cinelândia da Miss Brasil, Adalgisa Colombo, segunda do mundo no Miss Universo, mas não se classificou no concurso dos Diários Associados. No Miss Brasil, das nossas candidatas daquele tempo apenas a Karin Japp ficou entre as cinco, o que seria superado pela Ângela Vasconcellos, que chegaria a Miss Brasil. De Ângela, uma cena insólita: como as outras, era ligada em O Pequeno Príncipe de Exupery, mas que interpretava com profundidade, e também curtia o Franz Kafka e logo o de A Metamorfose o homem, Gregório Sansa, que desperta transformado em barata, aos poucos assumindo o inseto por inteiro.
A gangue dos concursos era formada por mim e o Dino Almeida e mais tarde pelo Edy Franciosi, teatrólogo e colunista mundano. Nos júris sempre estava por lá o pintor Guido Viaro, que nos dava aulas sobre as várias Vênus para decodificar os parâmetros da beleza. Num papel em branco, ele dava essas características na agilidade do desenho revelador.
O AMOR Era diferente o meu amor adolescente: a ansiedade diante das cartas em busca de mensagens sutis, que driblavam a fala aberta e imediata; a vitória de pegar na mão (contar aos amigos, espantados, esse feito incrível), a emoção do abraço ao dançar, e do beijo que tinha um cronograma de moratória.
Que caretice, diria qualquer um dos meus netos, os maiores é claro, habilitados nessa arte solta do beijo roto-rooter.
Isso é palha, vô!
A MORTE Muitos jornalistas se sentiram mal na Redação, mas um morreu: foi o Marcel Leite, grande artista gráfico, que chegou a conviver com Orson Welles quando ele veio rodar o inacabado e polêmico filme, remontado muito mais tarde.
Marcel esteve em publicações pioneiras como ilustrador e editor, e era um poeta: num dos painéis da laranjada Wimi, no Passeio Público, um lírico menino, navegando uma casca de laranja, urinava cítricos num lago. Esses meninos do Marcel tinham a delicadeza de um anjo, lembrando muito as figuras de outros artistas plásticos, no enfoque da infância, o Loio Pérsio...
OS VELHOS Havia o impulso iconoclástico de colocar mal os velhos. Nem todos, é claro, já que os da nossa área eram aceitos. Quando lançamos livro de contos, uma antologia bolada pelo Jamil Snege, quem se empenhou em analisar, um a um, os textos, todos de jornalistas, foi o mestre Raul Rodrigues Gomes, já com mais de 80 anos. Havia os velhos da roda, como o Coelho Júnior e o Barros Cassal, aquele historiador e este poeta e polemista. Um dia, como eu defendia linha solta da poesia, o Cassal fez essa, só para provocar o Coelho, aferrado à tradição formalista: O vizinho do sargento Clemente// não estava doente, nem nada// Chamou a empregada:// Maria me traz uma empada// O vizinho do sargento Clemente// bebeu o refresco// e comeu a empada// Que morte engraçada!//





