Atômico e atônito
No ato de entrega de Prêmio Homem de Vendas, merecidíssimo, da ADVB, ao jornalista Francisco da Cunha Pereira, anteontem, foi colocado pelo homenageado um problema crucial e polêmico: o do nosso ingresso necessário na era nuclear. Ele citou até a óbvia circunstância de o Paraná deter apreciáveis reservas de urânio em Figueira. Na verdade, o ciclo da hidro-energia, no País e na região, não está encerrado, ainda que se preveja um recuo, com a compulsão do governo vendilhão (que primeiro ‘‘quebra’’ para depois vender seu patrimônio), das iniciativas com o fim da Copel.
Precisamos, no entanto, dominar melhor a tecnologia e, se possível, por gente nossa (o filho do homenageado é físico e poderia estar nesse escalão, onde já existe, há muito tempo, uma tradição de estudos, até aqui limitados ao campo da teoria pura) para não abrirmos mais um ‘‘front’’ de dependência. O que houve em Angra dos Reis nos aconselha mais humildade e seriedade e não colocar a política à frente da ciência, como se viu na atitude do presidente Geisel, ao romper o acordo nuclear, ato grandiloquente, ao gosto dos nacionaleiros, aparentando esnobada nos States, mas prejudicado pela tecnologia adquirida, sabidamente inferior e que até agora só gerou problemas, além de aprofundar a nossa dívida externa, já elástica demais.



NOVO CICLO
Que iremos entrar necessariamente nesse ciclo e com visão de etapas nem se discute, até porque as fontes energéticas, em que o País mais se especializou, tal qual se deu com o Paraná, com a hidroeletricidade, são esgotáveis. No Paraná, tirando as hipóteses do Rio Tibagi (há ali o problema das áreas de silvícolas) e exploração dos seus saltos, mais o aproveitamento de baixa queda e ainda de ‘‘usinas a bulbo’’, que exploram as correntes do rio e não os desníveis naturais ou artificais, tecnologia não usada por aqui, há pouco a fazer. A Copel, embora seja hoje uma companhia de energia, resultado da poupança de todos e agora alvo da compulsão leiloeira de um grupo no poder, pouco se voltou para outras formas que não fossem de origem hidráulica, tanto que somente agora – e isso mesmo em escala reduzida – cuida de energia eólica (cataventos em Palmas) e solar (com aplicação de baterias em pontos isolados), tendo até, de certa forma, dispensado a do uso do carvão (ex-Utelfa) de Figueira, e que ora retoma.
Exemplos de Chernobyl, do Japão, dos States e do Brasil, aqui ainda com raio mínimo de efeitos, recomendam uma reavaliação de todas as fontes de energia em algumas das quais o País é craque, como no Proálcool, que nos habilita a tocar barcos e trens e mesmo usinas térmicas com esse insumo, a exploração da energia solar, das ondas do mar, que foram pesquisadas ainda no primeiro choque do petróleo. Há o problema tecnológico e o dos custos ainda a ser avaliado, como colocou muito bem o secretário da área científica, Ramiro Wahrhaftig. Com a Copel, provamos que é possível gerar ‘‘know how’’ e inscrever nossos feitos na codificação da Associação Brasileira de Normas Técnicas e o obtivemos em pouco mais de duas décadas.

ATÔNITOEntrar de alegre, e atrasado, já que a Índia e o Paquistão até hoje nos passam a perna, e jogam artefatos nucleares um no outro, como fez o Brasil ufanista de Geisel, não é uma boa. Urge avaliação abrangente, que contemple todos os energéticos, e levando em conta logicamente a sua inserção no meio ambiente. A usina a carvão em Paranaguá, que implicaria num investimento de R$ 700 milhões e soluções para vários lixões junto à baía, foi sepultada por pressão social, na qual me angajei e até fiz palestras num seminário na Universidade Federal. Dá para imaginar a guerra que moveriam ambientalistas na hipótese de uma usina termonuclear.
Com Lerner no governo, que vetou a usina litorânea para ficar de bem com ecologistas e manter a fantasia de que é da ideologia ecológica, não entraríamos no Paraná atômico, de que fala o empresário Cunha Pereira, mas no Paraná atônito, este que vende o seu patrimônio, construído há quase meio século, para tapar rombos, gerados por desídia e incompetência, nos últimos cinco anos e em alguns casos por malícia e corrupção como os do Banestado.
AFORÍSTICO Observação do ex-juiz Elísio Marques sobre o dia da mobilização dos magistrados, a 4 de novembro: ‘‘Sei não. Este ano o juiz que mais se mexeu, Leopoldino, morreu...’’ Elísio brinca, mas é a favor do protesto.
BIZARRICE O senador Alvaro Dias resolveu partir para a luta na questão da dívida paranaense, engordada pela prodigalidade atual. Se nessa questão não tem muita moral para criticar, já que contribuiu bastante com desacertos no Badep, absorvidos pelo Banestado, na da Copel, em que se empenha e de forma acertadíssima contra a privatização, ele tem créditos agudíssimos. Teve peito para enfrentar o cartel barrageiro no caso da Hidrelétrica de Segredo e enfrentar, na sequência, o megaempresário Cecílio Rego Almeida, situação inimaginável se colocada diante do governo atual. Haja vista para aquele acampamento dos sem-terra diante do Palácio Iguaçu, expressão da inércia da autoridade.
FOLCLORE A reportagem da ‘‘Folha’’ penetrou no mundo informal dos cambistas de espetáculos, a fauna que faz o comércio clandestino e paralelo diante dos teatros e estádios de futebol. A categoria já tem sindicato como bicheiros montaram (para proteger-se) a sua cooperativa. É o Brasil da anomia e da economia subterrânea se formalizando. Quem começou isso foi o Maurício Fruet, ao dar pontos e carrinhos aos camelôs, ambulantes que não ambulam, como diz o Greca, que ambulou na história dos caça-níqueis e bingos eletrônicos.
CROMO O zumbido de elétrons me faz procurar uma cigarra nuclear onde postes de concreto substituem as árvores: a terra é arida, jamais como um poema do João Cabral de Melo Neto.
MEMÓRIA Em entrevista ao semanário ‘‘Hora H’’, Walter Pecoits fala de ontem e de hoje e conta que o bedel do seu ginásio (Júlio de Castilhos, Porto Alegre) era justamente o grande Lupicínio Rodrigues.

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