A bancada senatorial
Nunca houve, na história política do Paraná, a circunstância de uma bancada inteira do Senado postar-se em oposição aberta ao governo. Não bastasse o que os senadores Roberto Requião e Osmar Dias impuseram com o bloqueio cerrado aos empréstimos, temos agora um bloco monolítico, pois ao grupo se juntou Alvaro Dias, ressentido de derrotas e acordos brancos. No andar que vai, Alvaro acaba pedindo uma devassa nas contas do governo estadual, embora não ouse fazê-lo com as federais, mesmo com a insistência com que tenta mostrar-se um tucano diferenciado. Afinal, ele sempre foi mais importante do que os numerosos partidos que integrou, alguns praticamente ‘‘refundados’’ por ele.
Para uma sociedade confessional como a nossa, isso é ótimo. Da mesma forma que uma eventual campanha de Lerner daria oportunidade ao paranaense saber o que aqui ocorreu de sinistro e não foi publicado, as broncas dos três senadores em aberta ao Paraná não deixam de ter um aspecto positivo. Uma certa dosagem de autofagia até que é pedagógico, posto que no caso do Senado pareça uma dose excessiva, para mamute.
Como Giovani Gionédis é o guerreiro deste governo (e por aí se tem a medida de QI que o anima), é ele quem responde às provocações. Tanto que lembrou, e muito bem, uma das ‘‘quebras’’ sofridas pelo Banestado em decorrência de pepinos do Alvaro Dias transferidos do Badep, uma novela tediosa de dívida de empreiteiros.
O fato de três senadores estarem em aberta oposição ao governo é, desde logo, uma evidência das dificuldades operacionais do lernerismo, voltado quase que exclusivamente para a sua turma. Como ela é grande, maior do que o clã, tanto dos Dias quanto do Requião, a dificuldade se amplia.
Dá para imaginar a hipótese de Lerner disputar uma eleição nacional (e ele detém condições bem superiores às de todos os seus antecessores, mesmo com suas deficiências de comunicação, falta de energia e determinação) o que transformaria o Paraná no maior foco de hostilidade.
Há quem diga ainda que a autofagia é meramente imaginária.



AXIOMA
O comandante da PM, coronel Lara, teria emprestado R$ 350 mil ao grego que importa as jaquetas coreanas. Coisas que caberiam ao Tribunal de Contas apurar só se esclarecem com a intervenção do Ministério Público

BIZARRICE No ano 2000, o homem de vendas do mundo vai ser FHC com o leilão das estatais restantes, e Lerner o do Brasil, com sua compulsão em vender a Copel. E convenhamos que Lerner, no caso regional, vai mais longe do que Fernando Henrique, que não ousa vender a Petrobras, que está para o Brasil como a Copel para os paranaenses.
Há gente babando em certos setores de ansiedade por essa venda.
GLOSA Ofensiva do governo em responder o que a imprensa publica está ficando até engraçada: agora a Secretaria de Segurança quer nos convencer que houve queda de 7% dos homicídios em Curitiba e alta de 5% na Região Metropolitana. O levantamento entre 98 e 99 só vai até junho. Outro detalhe: para eles, o timbre ‘‘homicídio’’ não vale quando o caso é de ‘‘latrocínio’’ e outras formas de morte violenta.
Curitiba, a continuar como está, é a Baixada Fluminense amanhã.
SPRAY A nossa oposição, convenhamos, está se agarrando em fio descapado: ora aplaude a grosseria do prefeito de Ponta Grossa, como se fosse possível justificá-la; ora se liga nos discursos do Alvaro Dias sobre a dívida do Paraná. - Simples: por que não exige, desde logo, já que existe requerimento aprovado, que o Giovani Gionédis vá até lá e explique tudo isso? É melhor do que insistir em bate-boca. - Uma lembrança, que gosto de recordar: no governo Munhoz da Rocha, a oposição (que era um milhão de vezes melhor do que essa que está aí e tinha entre outros o Acioly Filho e o Hélio Setti) convocou o secretário da Fazenda, o guarda-livros antoninense Eugênio José de Souza, o Genico, com a intenção de encurralá-lo. Resultado: Genico levou a melhor. Hoje a situação está de tal forma subvertida que a oposição desqualificada é capaz de constranger o secretário. - Araucária vai para o livro dos recordes: uma estrada rural com 9 quilômetros tinha um bueiro a cada 20 metros. Duas associações, uma de ambientalistas e outra de produtores rurais, tocaram uma ação cível pública contra o prefeito Rizio Wachowicz e auxiliares (secretários de Obras Públicas e de Finanças e mais o presidente da comissão de licitação de obras e serviços). Nada menos de 450 bueiros, dreno suficiente para secar as lágrimas da telenovela ‘‘Terra Nostra’’, ainda mais agora depois do afano do bebê da Juliana, que até parece decalque de ‘‘O Direito de Nascer’’. - Um detalhe nada insignificante sobre essa estrada de Araucária: ela é ‘‘fantasma’’, de acordo com a denúncia, já levou mais de R$ 546 mil e há ainda a pagar mais R$ 793 mil. Para completar, decorre de uma licitação apontada como fictícia.
EPIGRAMA Agora inventaram um sutiã que tem um alarme e aciona uma sirene ao menor toque. Se for como alarme de automóvel, as usuárias estarão sob o risco de disparos acidentais. E desligar na hora do ‘‘amasso’’ não vai ser fácil. Dá para usar um ‘‘slogan’’ para o produto: ‘‘o amigo do peito’’.
FOLCLORE Jaime Lerner jamais foi ofendido em suas viagens ao exterior, mesmo quando sofreu aquele acidente de automóvel na Inglaterra. Depois dessa havida em Ponta Grossa, ele arrumou um argumento a mais para viajar mais ao exterior do que ao cansativo e surpreendente interior.
CROMO ‘‘Não há guarda-chuva// contra o amor// que mastiga e cospe como qualquer boca,// que tritura como um desastre.// Não há guarda-chuva// contra o tédio:// o tédio das quatro paredes, das quatro// estações, dos quatro pontos cardeais.// Não há guarda-chuva// contra o mundo// cada dia devorado nos jornais// sob as espécies de papel e tinta.//’’ João Cabral de Melo Neto, dedicando o poema a Drummond de Andrade.
AFORÍSTICO Tédio e náusea são o governo e a oposição que temos. Que angústia!

mockup