Luiz Geraldo Mazza
Os surtos de moralismo no Brasil parecem de circunstância: agora temos como destaque o da compra de votos para a reeleição, no qual já citaram o trator Sérgio Motta como acoplado às conversas, e o da sentina entupida da CBF. Como antes tivemos o dos precatórios, que entrou em perda de interesse diante da dimensão dos novos escândalos, como já havíamos esquecido, juntamente com a Câmara Federal e suas instituições, entre as quais a Corregedoria, eventos como o da denúncia de extorsão do deputado Marquinho Chedid, de São Paulo, contra os donos dessa praga moderna, que é o bingo, e outro do deputado Pedrinho Abrão em cima de achaque contra empreiteiras.
Como se vê a memória humana é volátil e o sentido da moralidade e da ética depende da sazonalidade, isso é do calendário, e ainda da conveniência e da conivência que no Brasil, em política, são sinônimas.
Cada um se agarra num processo desses com um objetivo que não é o clareamento da questão, mas a sua exploração intensiva pela exposição na mídia, como se viu no episódio dos precatórios, onde avultavam os interesses regionais para faturamento político imediato. Agora o PT, que é o herdeiro da bandeira da UDN, a direitona metida a liberal, com seu moralismo radical, já imagina que pode pôr em risco a reeleição por causa do pecado de origem que deve ter alcançado bem mais, segundo supõem os fogosos moralistas (não esquecer do vice do Lula, o jurista e senador José Paulo Bisol, apanhado em ações de tráfico de influência quando invectivava as safanagens de PC Farias), parlamentares do que a lista já divulgada.
Os que não levaram nada e votaram por convicção estão igualmente indignados porque passam, pela generalização, a ser olhados como beneficiários ou ainda, isso é claro numa interpretação mais sacana e maliciosa, como otários ou porque não sabiam ou porque foram passados pra trás. Instituições e pessoas, repito, ficam transformadas em reféns de gravações telefônicas entregues a veículos de comunicaçãoque usam os seus critérios subjetivos e seletivos para a divulgação e com isso se postam acima do bem e do mal, uma vez que na origem a escuta é ilegal quando não autorizada judicialmente e passa a ser olhada como algo indevassável, pedra de toque do sistema de liberdade de imprensa, centrado no princípio de que a fonte é intangível.
Dir-se-ia que a moral pública legitimaria o procedimento pela gravidade das acusações. Como, porém, diferenciar a escuta decente da indecente é a questão. Ela induziria ao exercício desenfreado da caça a informações, tal qual os milicos fizeram nos anos de chumbo em nome da segurança nacional. É apenas para uma reflexão, como diria o Lerner, indeciso, entre o paraíso
pefelista, o purgatório tucano ou o inferno pedetista.
BIZARRICE Quando disseram que o Mário Celso Petraglia poderia ser afastado definitivamente da presidência do Atlético sugeriram que o Aníbal Khury ocupasse o seu posto. Aí um advogado disse que era impossível porque se tratava de acumulação ilegal, uma vez que Aníbal já detém os três poderes do Estado e, ainda por cima, o Tribunal de Contas. Exageros, como se vê, educam.
SPRAY Além de passar a história como o governo que mais internacionalizou a economia paranaense e mais a desbrasileirou e desparanizou, Lerner pelo jeito vai ser o autor do pontapé inicial da privatização da Copel, nossa maior empresa pública. - E não foi a venda das ações que deixou essa indicação, mas o caso de Salto Caxias, que era concessão da Copel (e isso é patrimônio, já que independia de licitação) e foi submetida à parceria em novo modelo. - Outra indicação clara foi o empréstimo dos R$ 160 milhões pelo BNDES atendido sob a epígrafe de adiantamento de receitas para fim de privatização. - Agora um artigo de Edmar Bacha, que está por dentro como um dos pais do Real, cita entre as estatais a serem vendidas as subsidiárias da Embratel e Eletrobrás, todo o sistema de geração de energia elétrica de São Paulo e Rio de Janeiro, Cemig e Copel e os bancos Meridional, Banerj, Credireal, Bemge, Banespa e as ações do Unibanco, além da Fepasa. - Depois dessa e dos balanços negativos do Tesouro estadual, com despesas de custeio já não cobertas pela arrecadação, é de esperar-se também, durante essa gestão, o fim do Estado, a sua quebra. Perguntar ao governador é inútil. Ele não sabe nem o partido para o qual ora se dirige. - Por sinal que vai ter um encontro com Brizola para reflexão sobre a conjuntura nacional. Briza volta do Chile depois de um encontro perplexo das esquerdas latinoamericanas sobre O que fazer?, título aliás da biblioteca marxista, diante da hegemonia fundamentalista do neoliberalismo. - Curitiba de cidade modelo, ecológica e outras mitificações reafirma agora uma medalha de ouro: a da maior inflação do Brasil em abril com INPC de 1,34% (o nacional foi de 0,60%) e o IPCA de 1,46% (o brasileiro de 0,80%). Esse assunto que não se presta a louvações é que deveria ser severamente analisado. -
FOLCLORE Rubinho Ferreira acha que a hesitação partidária de Lerner tem sua razão de ser: como no vestiba, a questão comporta cinco alternativas e uma delas, como se sabe, anula todas as quatro. Pelo jeito O Pensador de Rodin estava diante de uma situação dessas. Aí nem o Chapéu Pensador da Copel ajuda a inspirar.
CROMO Na estrada do Colono o silêncio foi rompido: além das papanás, agora também se esconde o Curupira com seus pés tortos para confundir os caçadores.
AFORÍSTICO O País em crise, Curitiba acumula taxas violentas de desemprego, a prefeitura caça ambulantes e a Fundação Cultural gasta R$ 2 milhões ao mês.





