Luiz Geraldo Mazza
Incidentes, um luminoso
Há incidentes curiosos na vida profissional, uns caricatos, outros luminosos. Vamos ao caricato: num movimento popular contra a alta da carne, que se repetia a toda entressafra, em que a patuléia assaltava os açougues e lhes roubava traseiros e dianteiros imensos que eram queimados na rua, andaram prendendo alguns colegas, entre eles o Daquino Borges, o Paulino Andreoli, o Valmor Coelho, todos estudantes, simnplesmente porque assistiam na Avenida Luis Xavier (hoje), antes João Pessoa, o choque entre a PM e a massa em Curitiba.
Dia seguinte fizemos passeata monstro de protesto contra a violência e a prisão dos colegas. Na frente da Sociedade Garibaldi e de cima de um caminhão alguém nos filmava, todos de luto e repetindo palavras de ordem. Eu e o Newton Stadler de Souza fomos filmados e depois a revelação foi processada na repartição em que trabalhávamos, órgão de informação do governo. O comissário Ascânio de Abreu nos mostrou os fotogramas, deu uma risadinha e mandou-os para o órgão que precedeu a Polícia Federal. Ser fichado para alguns era um caso de honra, para outros, de pânico.
Outra caricatura: Getúlio Vargas, hospedado no Palácio São Francisco, e de repente o mestre Milton Carneiro, na Casa Civil, chama-me. Subo as escadas e lá em cima o armário, Gregório, chefe da guarda pessoal do presidente, me bloqueia a passagem, transformada em mata-burro. Como o burro era eu, não deu outra: o Gregório, que iria derrubar Getúlio com o atentado da Rua Toneleros contra Carlos Lacerda, e que mataria o major Rubens Vaz, um ano depois, me deu um empurrão. Rolei pela escada, mas não deixei de sofrer um atentado.
A LUZ
A repartição, referida pelo caso dos fotogramas, meu e do Newton, que seria meu companheiro de Ato Institucional número 1, onze anos depois, ficava na Saldanha Marinho, onde existe hoje, ao lado da sinagoga, o Motel Don Juan. Pois apesar desse lado profano, um dia a sala principal da então Câmara de Expansão Econômica do Estado, embrião da Secretaria de Comunicação, estava imersa em luz como um vitral: o hábito, bem claro de dominicano, de costas, o padre J. Lebret, o líder do Movimento de Economia e Humanismo que abriria a Igreja para os avanços do ecumenismo e da Teologia da Libertação. Um santo leigo, imerso na realidade como estudioso e planejador. Foi rápido o lance, do qual me recordo cada vez que lembro dos que modernizaram o País pelo planejamento. Ele está para essa área (aqui, em São Paulo, em outros pontos do País) como o estudo da filosofia para Roger Bastide, e o de arquitetura para o paranaense e maravilhoso comunista, Vilanova Artigas.
BALZAC E SARTRE Desintelectualizar o Carnaval não impediu que, através dele, o povo tomasse conhecimento de doutrinas como a do existencialismo e do saque de Honore de Balzac sobre a mulher de trinta anos. Balzac e Sartre foram vertidos em marchinha. O primeiro: Não quero broto// não quero não// não sou garoto// pra mudar de opinião!//Sete dias na semana// eu preciso ver minha balzaqueana//. O segundo: Chiquita bacana// lá da Martinica// se veste com uma casca// de banana nanica.// Não usa vestido// não usa calção// o inverno pra ela// é pleno verão// existencialista// com toda razão// só faz o que manda// o seu coração.//
Convenhamos que é melhor ouvir isso do que conversar com esquerdeiros falando sobre clichês que mal entendem: neoliberalismo, globalização, valores que tentam exorcizar no berro. Até os sem-terrinha estão nessa. A juventude de Hitler também era disciplinada, engajada e entusiasmada, todos animados para a luta, falangistas-escoteiros de uma causa enlouquecida. E assim as brigadas fascistas, as falanges stalinistas, todos negando o outro porque imantados pela suposição de guardiões de uma verdade inquestionável.
A JOGADEIRA Se até a mãe etíope, desvitalizada, dando o seio murcho ao filho minado pela fome, tinha um adorno no braço, por que não percebemos o fetiche da bolinha de gude, escolhida como jogadeira?
Ideologias redutoras podem ver um desperdício nessa pulseira de pano da madona etíope. Para essas formas de pensar é uma inutilidade consultar a antropologia para entender um fato, comum entre povos primitivos e índios.
Ai de quem recolutar a jogadeira: o crime é de lesa honra, o amuleto é intocável. Dizem que a palavra recolutar é um defectivo de recrutar e que foi muito usada no interior do Brasil na busca de voluntários para a Guerra do Paraguai, um episódio que historiadores novos olham com constrangimento.
Mais herético, embora meio erótico, era recolutar namoradas de amigos.
A CONDOR A praia em Paranaguá era justamente no aeroporto ou porto aéreo da Côndor, empresa alemã de aviação, obviamente fechada na guerra. Era quase na frente da Ilha da Cotinga, no Rio Itiberê. À tarde descíamos a Rua Visconde de Nácar, o Campo do Lage, contornávamos o Clube Olímpico e íamos ao que era tido como praia. Havia uma plataforma imensa de madeira que com o tempo foi ficando distante do ponto em que amerrissavam os hidroaviões.
Caiobá, Matinhos, Praia de Leste, Ilha do Mel eram tão distantes quanto a Maracangalha de Caymi e a Pasárgada de Bandeira. O porto aéreo era ali bem pertinho. Fiquei devendo velas e velas de promessas aos santos para que não fizessem chover e eu tivesse garantido o direito às abluções.
GUERRA Em Curitiba, jogava pelada nas margens do Rio Belém, perto de onde hoje é o Centro Cívico, no dia em que o Brasil declarou guerra ao Eixo. O alto-falante, tocando o hinário patriótico, deu a nova e fiquei desesperado pensando que meu pai fosse para a batalha. Anos mais tarde, agosto de 54, o alto-falante, último ano de faculdade, anuncia o suicídio de Vargas e corro, desesperado, para casa consolar meu pai, com quem eu vivia discutindo por causa da trama da guarda pessoal. Emoção a dois, comum a todo o Brasil, tudo redime. Um sentimento de purgação de culpa levou as massas à rua, dispostas a tudo, pois nos dias anteriores não eram poucos os que condenavam o presidente e agora o vingavam.





