As mentiras convencionais (2)
Nesta semana, duas referências míticas foram seriamente checadas: a fantasia de que a economia deslancha e com ela o nível de emprego. O levantamento do Dieese mostrou que apesar da melhora no interior, mínima porém importante, houve queda tanto em Curitiba, quanto no conjunto metropolitano do nível de emprego.
Com a mudança de critérios metodológicos, o desemprego foi cortado – e isso nos gráficos – pela metade: dos 150 mil a 160 mil habituais, caiu para 80 mil a 85 mil. Essa característica, a do desemprego endêmico, registrado prioritariamente na zona periférica (a massa de analfabetos e de pessoas sem habilitação para o fazer urbano, ainda mais com a crise da construção civil, que o explica), é um traço permanente de áreas metropolitanas devido à migração.
As coisas, porém, não param aí: um estudo de economia interregional (aliás, o Paraná apanha de cinta do Rio Grande do Sul nessa questão, em que pese o fato de anos passados esse tipo de avaliação ter sido uma rotina no Ipardes, nos trabalhos do Lucas Pereira) mostra que o Paraná perdeu também competitividade empresarial. Na atoarda triunfalista, estilo do lernerismo que atinge o auge, já que é continuidade exasperada que se seguiram ao de Ney Braga – este sim um deflagrador de processo – não há lugar para o meio tom e a variação de matizes.
Outra questão está sendo igualmente radiografada: a tal da qualidade de vida, em torno da qual o Banco Mundial poderia ser processado por apontar Curitiba - como o lugar em que esse item sempre melhora, o que é propaganda enganosa. É que a prefeitura da capital, rompendo a cautela militante de Cassio Taniguchi, espalhou pela cidade, certamente para os participantes do conclave lerem, vários out doors com essa mensagem, atribuindo a autoria do elogio indevido ao organismo financeiro internacional, que passa por exagerado e falso quando tentava apenas ser cordial e educado.



BIZARRICE
Qual figura da nossa política que lembraria uma ursa maior? Dá para esclarecer que, a despeito do possível fulgor, nada tem da constelação e muito mais do portentoso mamífero

AXIOMA O senador Alvaro Dias acha que foi elogiado por seu colega, Pedro Simon, que disse que Collor não teria ganho a eleição se o paranaense fosse o candidato do PMDB. Mas Simon esclareceu: ‘‘Ninguém gostou e foi mais apaixonado pelo Dr. Ulysses Guimarães do que eu, mas ele pagou o preço de ter um pé no governo Sarney e outro pé na oposição.’’ Exatamente o que Dias faz.
E sempre fez: tanto que ficou em quarto na convenção nacional do PMDB e não respeitou a regra democrática de apoiar o ganhador. Como, aliás, seu outro colega de Senado, Roberto Requião, fez em relação a Quércia.
GLOSA Cada vez fica mais nítido que o melhor para o Banestado seria mesmo a sua federalização, como se deu com o Banespa que, depois de saneado, obteve lucros e adiou, convenientemente, a sua privatização.
EPIGRAMA Foi criada a expectativa de que os royalties de Itaipu sairiam logo. É ‘‘menas verdade’’, como diria Lula. Além do mais, vai passar pelo crivo do Senado porque se trata de imposição constitucional. De repente, a tal da ParanaPrevidência, como se faz com os pobres até no FMI, vai servir apenas de de ferramenta para abrir cofres e fechar bocas.
SPRAY Requião, obviamente, criticou o programa do PMDB em que aparecia muita gente, dissimuladamente a favor do governo. Com Requião isso não acontece não, pois em programas regionais só ele aparece. - Insiste a Prefeitura de Curitiba que a praça está no ‘‘ranking’’ do turismo nacional. A Fipe confirma o rigor da estatística, segundo a qual tivemos 611.328 turistas em 98, mesmo número da Bahia, 1,6% do total brasileiro. - Visitar parente não é turismo. Estar no entorno das cidades, saindo de Curitiba a Mandirituba é uma forma discutível de turismo e isso entrou no ‘‘bolo’’ dos 38.028 milhões do chamado turismo doméstico no Brasil. - Constatação elementar: o Brasil, com mais atrações e meios razoáveis de transporte, obtém a metade da renda da Argentina – US$ 2 bilhões contra US$ 4 bilhões. Há uma questão de cultura: imaginem que o nosso setor histórico fosse a Recoleta de Buenos Aires. Lá não entra mendigo, drogado, traficante, bandido, arruaceiro, o que predomina por aqui. Não apenas aqui, mas em qualquer metrópole do Brasil. - Se o fluxo de interessados na comida crioula de Santa Felicidade, aos domingos, entrar nessa estatística, o número de pouco mais de 600 mil turistas é pequeno. - Pesquisa coordenada por Wilson Rabahy, mestre de Turismo da USP, tentou evidenciar que o turismo das classes populares é significativo, incluindo classes D e E. - Com a crise econômica do Brasil, aceitar essa referência como componente de migração de massa é também discutível, mesmo que o nomadismo dos sem-terra seja incluído, posto que isso esteja longe, conceitualmente, de turismo. - Dizer que o Rio Grande do Sul não aparece (Porto Alegre em 27º, sem menções a Gramado e Canela) na listagem, é assustador como o é atribuir a Camboriú apenas um movimento de 267.456 turistas. Num feriadão, só, há mais do que isso.
FOLCLORE Sobre essa história de turismo, há uma genial do Joubert Gonzaga Vieira quando prefeito de Antonina: para mostrar que a cidade estava muito movimentada na rua principal, aconselhou os contribuintes a saírem com seus automóveis por aquela artéria, em seguida asfaltada, porque o fluxo mostrou a viabilidade econômica da iniciativa. Mais inteligente que os saques daqui.
CROMO João Cabral de Mello Neto enveredou pelo mundo da bola e assim falou do Ademir da Guia: ‘‘Ademir impõe com seu jogo// o ritmo do chumbo (e o peso),// da lesma, da câmara lenta,// do homem dentro do pesadelo.// Ritmo líquido se infiltrando// no adversário, grosso, de dentro,// impondo-lhe o que ele deseja,// mandando nele, apodrecendo-o.// Ritmo morno, de andar na areia,// de água doente de alagados,// entorpecendo e então atando// o mais irrequieto adversário.//’’ Em Ademir havia a elegância simulando lentidão e ele saia debaixo da trave, salvando uma bola na linha, e fazia o gol do outro lado. Jogava de ‘‘smooking’’ sem sujar a roupa.
AFORÍSTICO Dizer que Segurança é caso de polícia não é redundância.

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