Mentiras convencionais (1)
Em passado distante, um dos deleites de certo setor da intelectualidade era o livro ‘‘Mentiras convencionais de nossa civilização’’, de Max Nordau. Ele tentava desmistificar os fundamentos da religião, e mostrava como alguns valores do cristianismo, como o mistério da Santíssima Trindade, tinham origem em rituais seculares de outras crenças, e também os da cultura, da economia e da moral. Se escalássemos o Paraná e Curitiba para identificar mentiras que pela repetição se tornam verdadeiras, como no conselho de Goebbels, teríamos material de sobra. Vamos a algumas.
Sugere-se pela propaganda e com lastro em pesquisa da Embratur que Curitiba já bate a Bahia em turismo (provavelmente em produção de coco também). Movimento da fronteira – o entra e sai – é contado como turismo, como se essa forma de migração não tivesse uma especificidade. Mesmo assim, se incluirmos os terminais de transporte da capital na singela relação de áreas conurbadas da chamada Região Metropolitana. Um critério absurdo, mas parecido com essa referência ao controle ‘‘migratório’’ na fronteira e nas divisas. O turismo é uma forma superior de migração e até hoje não se encontrou, em termos nacionais, um modelo adequado de investigação estatística.
Durante a Abav 99, que foi um sucesso (dizem até que se tratou da melhor e da mais bem organizada dentre as havidas no País), todos os documentos repetiram o equívoco transformado em axioma. O turismo de Curitiba é de negócios, seus limites são notórios para o de lazer. A fragilidade do empresariado da área é visível e a escala do city-tour é artesanal. Não há oferta de produto e a idéia de ‘‘conhecer o mundo sem sair de Curitiba’’ eu a lancei num prospecto no IPPUC quando Lerner o dirigia. Hoje há muito mais para mostrar com parques temáticos vinculados às etnias. Todavia a insuficiência é clara.
Claro que há um mérito nas colocações triunfalistas: de um lado levantam a auto-estima, mas de outro conduzem ao conformismo, uma vez que esses mitos passam a figurar na malha ideológica empregada em lavagem cerebral.
Já alertei para outro mito, o da qualidade de vida, seguidamente derrubado por estatísticas sérias e centradas em análises do chamado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), numa das quais nossa querida capital aparece em 30º lugar. Não esquecer que anos passados quase tivemos uma epidemia de leptospirose na sequência de enchentes, uma correção pedagógica aos exageros.



RETÍFICA
Almir Bornancin, que viajou com Greca a Roma, é assessor da pasta desde janeiro e não é motorista e, quando assessor do prefeito Greca, às vezes, por gentileza, dirigia o carro. Não tem, portanto, semelhança com o Tabaco (Valdir Leal) motorista do Requião. Este, que ouviu mil confidências do ex-prefeito e ex-governador, aciona-o na Justiça do Trabalho; já o Almir persiste, ontem como hoje, em cargo de confiança

BIZARRICE ‘‘Essa história das jaquetas dos milicos é uma tremenda saia justa (mas é filme batido porque isso ocorre desde o uniforme da campanha para o Contestado). E pensar que eu saí da PM, em 71, para não vestir azul!’’. Saque do ex-PM e ex-juiz de Direito, o anarquista Elísio Marques.
Por falar nisso, parece que a PM do Rio está interessada na jaqueta: o vendedor Georges Pantasis andou por lá.
AXIOMA A Paranaprevidência está sendo chamada de ‘‘Bruxa de Blair’’: ninguém vê, não aparece, mas continua mordendo o funcionalismo todo mês, tirando os olhos da cara, operando sem anestesia. Lerner pretende com a reunião de amanhã em Brasília revigorá-lo com sangue, plasma e soro.
A grana, já como ocorria antes, não está sendo recolhida e misturada no bolo do pagamento que sabidamente é curto.
GLOSA Dino Almeida, jornalista-vereador, elogiou a rede de supermercados que trata do estímulo e patrocínio dos estudos de empregados que não fizeram o 1º grau. Uma coisa, menos rebuscada, que precisa ser feita, é ensinar boa parte desses trabalhadores a respeitar a clientela com a desatenção com que se move no interior das lojas, inclusive de carrinhos e patins, não dando a mínima para os clientes. Uma campanha dessas é tão importante quanto a de prevenção de acidentes que, aliás, podem provocar a todo o momento.
SPRAY Caíto Quintana não quer Pessuti e este não quer aquele para líder da oposição. Haverá revezamento e o primeiro deve ser, por seis meses, Edgar Bueno, o mais cotado e, portanto, o menos ‘‘cortado’’. - Dia 19, com ou sem o ‘‘apitaço’’, o Sindijus (trabalhadores do Judiciário) dialoga com a direção do TJ para acertar a reposição há tanto protelada que vem sendo empurrada, há anos, com a ‘‘barriga’’. - No Tribunal de Justiça já se aceta como pacífica a implosão do Fórum de Curitiba, mas mesmo assim nem todos concordam com a proposta da OAB, de uso da Prisão Provisória do Ahú. A propósito, titulares de direitos possessórios voltam a reivindicar aquela propriedade e mais a vasta área hoje considerada do INSS que, aliás, não dá a mínima para as invasões. - Perto de uma abertura moderna da Rua dos Funcionários, catadores de lixo montam barracos e capturam e matam todos os gambás da região. O Ibama está por fora.
FOLCLORE Milton Buabssi, dirigente regional do PMDB, acha que as convenções de depois de amanhã renovarão o partido em 70%. Setenta remete à lembrança que se tenta isso há muito tempo, mas o partido permanece do mesmo jeito. Pela direção, dá para imaginar a base.
CROMO ‘‘Saio do meu poema//como quem lava as mãos’’ diz o João Cabral de Melo Neto, e prossegue no tema de Malarmé ‘‘Esta folha branca// me proscreve o sonho,// me incita ao verso// nítido e preciso.// Eu me refugio// nesta praia pura// onde nada existe// em que a noite pouse.//’’
AFORÍSTICO Quem viu o jogo Barcelona x Real Madri captou ritmo não existente em nosso futebol. Em nossos jogos, a bola rolada não chega a 50 minutos, na Espanha passa de 80. Que bom seria se a cadência fosse a dos nossos locutores esportivos, que conseguem o milagre de reduzir o campo a menos de 30 metros em suas dramatizações.

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