Luiz Geraldo Mazza
O desperdício permanente
Se há alguém que desperdiça diariamente o seu potencial é Lerner. Não importa que boa parte desse patrimônio se constitua de marketing em cima de mitos, como no caso da Curitiba ecológica de esgoto a céu aberto. O fato é que nunca tivemos alguém no governo com tanto prestígio nacional e internacional e que poderia reduzir significativamente as nossas limitações no plano nacional.
No momento, por exemplo, ele detém uma bandeira que desafraldou pioneiramente: a do sistema previdenciário estadual como fator de regulação do ajuste fiscal. E, como vai estar amanhã com outros governadores tratando do assunto com FHC, está diante de uma oportunidade excepcional para recuperar o tempo perdido. O Paraná é chorão, sempre repetindo a arenga de que é enjeitado pela União, que jamais lhe retribuiu com reciprocidade o que tem dado como contribuição ao País. Em termos de ação é nulo. Às vezes troca seu potencial reivindicatório por alguma pasta ministerial ou do segundo escalão.
Ontem, ao dar entrevista sobre o tema de sua viagem a Brasília, nem parecia o reticente e ameno de sempre, ao afirmar categoricamente que inexiste saída fora da revisão da decisão do STF, dependente de emenda constitucional clara e que não dê margem a interpretações dissimuladas e a sofismas. É isso aí: mas firmeza não pode apenas ficar no plano da discurseira ou das bravatas como essa, ridícula, de Itamar Franco e operações militares para o marketing defensivo contra a privatização da Cemig.
Se o ministro que temos, Rafael Greca, divide espaço com ACM na designação do novo presidente do Indesp, dá para perceber que se trata de velha deficiência nossa, orgânica. A Universidade Federal do Paraná tem ultimamente dado mostras de que é preciso reagir ao homenagear agora o Edson Machado, paranaense com presença vigorosa no estamento educacional superior, como antes o fez com o filósofo matemático Newton Carneiro Afonso da Costa. Insisto que é indispensável montar um quadro de referências de massa cinzenta, de mão-de-obra estratégica, do Paraná, aqui existente, no País e no exterior.
Bento Munhoz da Rocha, nos anos 50 trouxe a Universidade para o governo, irrigando-o com o saber superior. Ney Braga ampliou esse trabalho e Lerner, hoje, é um beneficiário de tudo isso. Alguns de sua equipe são nomes ministeriáveis como Miguel Salomão, Lubomir Ficinski, Rafael Dely, Alex Beltrão, mas a produção do conjunto, em termos políticos, é mínima, a despeito de numerosas iniciativas nossas serem decalcadas nacionalmente.
Espera-se que o Paraná não perca mais essa oportunidade.
BIZARRICE
Enquanto Itamar Franco ameaça até ações militares para evitar a privatização da Cemig, empresa não muito eficiente, Lerner se esforça para antecipar o leilão da Copel, a mais completa estatal de energia. No primeiro caso há encenação, no segundo, excesso de sinceridade
GLOSA Lembrando da história do lixo que não é lixo, que pretendeu ontem lançar para todo o Paraná, Lerner contou que ele e o Algaci Túlio, no início da campanha, foram chamados pelas crianças de lixeiros!.
AXIOMA Se o arcebispo de Curitiba, D. Pedro Fedalto, chegou a intervir no caso de Celina e Beatriz Abagge, caso das bruxas de Guaratuba, nada mais justo que o de Londrina, D. Albano Cavalin, acompanhe também as apurações do Ministério Público sobre irregularidades na prefeitura.
Conclusão: nada há de mais prolixo do que lixo que não é lixo. Pobres, aliás, levam isso ao pé da letra comendo restos de alimentos dos recipientes de lixo. Para eles não é lixo e, sim, comida.
INQUÉRITO A proposta de pescadores do Rio Paraná para que se faça uma perícia independente sobre as alterações na ictiofauna da bacia depois da formação do lago é pertinente. Não há porque aceitar a verdade imperial da Casa Grande (a Itaipu) contra o murmúrio da Senzala (os pescadores).
Perícia da Itaipu pode ser olhada como peixada.
EPIGRAMA Dizem por aí que essa jaqueta coreana comprada pela Polícia Militar é tão cara, embora adquirida sem concorrência, que dava impressão de tratar-se de jaqueta de dentista que, como sabeis, vale ouro.
SPRAY Políticos olharam, com muita inveja, a massa de mais de 4 mil pessoas presente ao jantar do Coxa Branca no Madalosso. Vejam bem: sem boca livre, prática muito comum em campanhas eleitorais. - Assim mesmo, o PMDB está anunciando que pretende reunir 200 mil filiados nas convenções do dia 17 no Paraná. Pelo jeito, quer quebrar o recorde de anteontem da Igreja Católica, que botou mais de 320 mil pessoas no Maracanã e em Aparecida. - A política não está com nada, mesmo quando mostra mobilizações como a da filiação dos prefeitos no PFL. - O PMDB dá atenção especial às convenções dos 30 maiores municípios, ainda que esteja atuando em 399. Do total, em apenas 60 não haverá convenções, uma vez que os diretórios foram dissolvidos por ineficiência ou traição.
FOLCLORE O secretário de Segurança vai responder até amanhã sobre o caso das jaquetas da PM, segundo adianta o deputado Ricardo Chab, o interpelante. Lá pelo fim do governo, explica o atentado que sofreu e o que se fez para apurar a invasão dos encapuzados para matar um detento em delegacia.
CROMO Há um homem sonhando// numa praia; um outro// que nunca sabe as datas;// há um homem fugindo// de uma árvore; outro que perdeu//seu barco ou seu chapéu;// há um homem que é soldado;//outro que faz de avião;// outro que vai esquecendo// sua hora seu mistério// seu medo da palavra véu;// e em forma de navio// há ainda um que adormeceu//. Cabral de Melo Neto em Janelas.
AFORÍSTICO Esperar soluções sociais do governo é como ficar aguardando Godot, aquele que nunca chega. O que parece absurdo é tradução da verdade.





