A fome dos meios de comunicação por escândalos é insaciável: depois dos casos PC Farias e dos anões do orçamento, os mais emblemáticos, tivemos os da CPI dos precatórios, as gravações da violência em Diadema e agora o vazamento da cloaca do futebol. O primeiro impacto é de tal ordem que impossibilita qualquer avaliação crítica.
Havia no populário brasileiro, carnavalesco, uma peça que tratava justamente das aparências: ‘‘nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai’’, o estribilho didático. ‘‘Uma mulher que a gente conhece// que vive sempre rezando na igreja// pode ser que ela seja uma santa, mas também pode ser que não seja’’. Há um pouco disso tudo no caso do futebol: divulga-se uma fita obtida de forma tão clandestina quanto a dos episódios do Sivam, conseguidos internamente em disputas palacianas, e dá-se ao autor da gravação o direito de explorá-la em capítulos, como se estivesse praticando um ato legal. Ora o STF levou uma quinzena para decidir se o assessor de Maluf, o Neiva, poderia ter o seu sigilo telefônico e bancário quebrado, conforme desejava a CPI do Senado e essas denúncias passam por cima de formalidades nada desprezíveis, por mais sórdidos que sejam os intentos dos que acertavam resultados de jogos.
Saímos da censura para os transbordamentos da falta de parâmetros no exercício da liberdade. A CPI era um exemplo claro dessa falta de limites, o que só foi possível ponderar na continuidade e frequência dos abusos. A farsa nesse caso do futebol é que usando apenas dois clubes, o Atlético Paranaense e o Corinthians Paulista, que entraram no engodo de um corruptor, não se diz claramente que o intocável Ricardo Teixeira tem envolvimento e que há por trás dessa pendência outros interesses, inclusive os da Globo, que pretende a garantia da transmissão dos jogos do nacional contra a proposta da SBT e a resistência do clube dos doze, no qual o dirigente paranaense era um dos líderes e que negou à Venus Platinada o direito de cobrir para Belô o jogo entre o time da terra e o de Minas.
As divergências entre a Globo e Petraglia saem também do estrito limite do futebol para as disputas entre consórcios voltados para a banda ‘‘b’’ da telefonia, pois a Inepar e a Nec, absorvida do empresário Mário Garnero pelos Marinho, integram associações diferenciadas. Como se vê há muitos outros fatores servindo de ‘‘background’’. Há quem esteja até recordando do caso Abi-Ackel quando a Globo inventou a estória das pedras preciosas jamais comprovada para atingir o então ministro da Justiça que contrariava a organização.
O monopólio das comunicações extravasa, como se vê, o seu campo imediato de atuação e o pior para o autosuficiente Mário Celso Petraglia foi o fato de ter agido com arrogância, a mesma que o levou a dizer que o estádio do Coritiba iria desabar e que a torcida do Paraná não cabia numa kombi, pronunciamento que fica bem num torcedor apaixonado, nunca num dirigente. De qualquer forma é indispensável que se examine o entorno desse processo e se discuta a livre disposição que alguém possa ter de gravações provavelmente obtidas sem a permissão legal e que possa transmití-las no todo ou em parte quando melhor lhe convém.
Aqui no Paraná a TV Educativa foi condenada por ter colocado no ar vídeo obtido de forma astuciosa na gestão Requião de políticos em visita ao sindicato dos transportes, dando interpretação maliciosa como se todos fossem comprometidos e financiados pela organização. Naquele evento também a reação primeira foi de indignação, como se o sindicato fosse algum ‘‘aparelho’’. Há ainda a lembrar o vexame geral da Escola de Base em que todos os veículos se engajaram. Por mais que provoque horror o diálogo entre corruptores e os corrompidos do futebol não se pode formar juízo precipitado e desconsiderar igualmente que quando a ordem se torna mafiosa é difícil encontrar virgens num bordel. Aliás um caso raro, o da Granpola da novela ‘‘A Indomada’’, só se aceita na ficção.
BIZARRICE Ontem, quando se discutia a questão do ingresso de Lerner no PSDB, um tucano alvarista berrou: ‘‘só falta vir em dupla com o Petraglia, o seu tesoureiro de campanhas eleitorais.’’
TERRORISMO No sábado houve a morte de um jovem em terminal de ônibus em função do disparo do interior de um ônibus. Ontem os vândalos, esses mesmos que depredam, deixaram uma bomba caseira no interior de um ônibus, ferindo duas mocinhas. Não temos polícia: a ‘‘Boca do Brilho’’ dos engraxates pegou fogo e pelo jeito o pessoal do módulo policial da praça Osório dormia o sono dos justos. Outra coisa: maconha, crack, cocaína, anfetaminas, são consumidos no interior das torcidas com o que garantem a compulsão guerreira.
FOLCLORE ‘‘Jaime Lerner está para o PSDB como o ‘‘Cadeirudo’’ está para Greenville (da telenovela global) : provoca intenso alarido no viveiro.’’
A observação é do advogado e anarquista Elísio Marques que diz mais que ‘‘pelicano em ninho de tucano não se cria’’.
CROMO ‘‘Colho o inefável entre as mãos do vento// como quem colhe rosa em pensamento;// cresço no Tempo e o colorido lento// do vento apaga minha realidade;// pássaro livre nos jardins cifrados,// vôo em violino, em minhas mãos me invento.//’’ O ‘‘Cântico’’ de Colombo de Souza é exemplo da poesia onírica que cultivou.
AFORÍSTICO Na avenida Luis Xavier, a menor do mundo, um retrato da economia paranaense na chegada das montadoras: Bamerindus multinacionalizado, quebra de Hermes Macedo, concordata da Universal, estouro da Ika (na qual dançou o Banestado), crise da Mesbla. Impávido, permanece o cartório do Hoffmann de protestos de títulos.

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