Luiz Geraldo Mazza
Encontro com Aristóteles
Quinta-feira passada, quando saí para a marcha matinal, deparei com uma cena fortemente poética: uma jovem andava pela rua a tocar uma flauta, não com aquela compulsão do lendário Hammelin a atrair os roedores, obrigando a todos das proximidades alguma reverência à música melodiosa. Um grupo de trabalhadores, que tirava blocos de grama de um caminhão para assentar nos jardins do calçamento, parou de trabalhar não para ver a banda passar, aquela do Chico Buarque entoada pela Nara Leão, e sim na atenção à musicista entregue ao seu enlevo, enquanto se dirigia para a Escola de Música e Belas Artes.
Quem ensinava a ler, a estudar, a refletir, enquanto caminhava, foi o sábio grego, Aristóteles, o estagirita. Ele criou a escola peripatética, da qual fui um dos seguidores. Enquanto, porém, os peripatéticos marchavam estudando ou lendo, eu o fazia até no interior dos autolotações, ouvindo papo em voz alta, música de rádio, o som do sacolejo do carro saturado de gente e o motorista, lá na frente, com cédulas no vão dos dedos para atender o troco dos que saíam, embora parecesse sempre que havia mais gente entrando.
Pois nessa não muito radiosa manhã, a estudante de música longelínea, sacola de pano e calça de jeans, cabelo do tipo rabo-de-cavalo renovava, com perspectiva aperfeiçoada, o sentido pedagógico e agora poético do ato de esparzir sons pela rua, não percebendo que magnetizava a todos nós, os trabalhadores, as donas-de-casa que saíam a passear com seus cães, empresários sizudos, todos do mesmo auditório. Mesmo parados, muitos de nós, talvez todos, marchávamos atrás da flautista que botou mais luz em nossa manhã e renovou as artes pedagógicas do sábio grego.
ANALOGIA
O dinamismo de Juscelino Kubitschek, que inundou o País num clima de otimismo radical, serviu de tema até para música popular que glosava a sua mania de viajar: Passa, passa avião// Será ele ou não?. Não dá para comparar as viagens de JK com as de Lerner: as do mineiro eram em maioria no Brasil e tinham sempre algum objetivo
CALVÁRIO Se há uma peça teatral que gera situações anedóticas é a da Paixão de Cristo e isso se dá em todo o Brasil. Numa delas, o filho crucificado é olhado pela mãe piedosa e como esta enxerga as partes baixas do ator na cruz, e é pudica, evita olhar para o alto. A seu lado um centurião romano, o Kit Abdalla, debochado em tempo integral, toca, não muito delicadamente, com a lança pontiaguda nas costas da atriz para obrigá-la a ver o descuido do Roberto Menghini, que mais uma vez interpretava Jesus.
No Cine Santa Helena, em Paranaguá, na passagem de um ato para outro e com o fim de acentuar o estado agonizante do Cristo, lançaram no peito do Menghini uma bacia de água gelada. O Cristo usou uma interjeição de campo de futebol, referindo-se à mãe do contra-regra, e ao perceber que naquele momento o pano se abria lentamente, deixou a frase pela metade e pousou, também no mesmo ritmo, a cabeça no ombro, como quem desfalece.
LATIM Mestre João Mazzarotto, professor de Latim, pega um aluno colando. Tasca o latinório se studes, studes tibe e traduz se estudas, estudas para ti e ato contínuo pega o livro enciclopédico que servia de cola e o arremessa do segundo andar para o jardim do Ginásio Paranaense.
Latim de categoria foi o do médico londrinense, então deputado estadual na primeira Constituinte depois da queda de Getúlio Vargas, Justiniano Clímaco da Silva. Fez um pronunciamento em latim na Assembléia, defendendo a entronização do Cristo na casa, que era contestado pelo mestre comunista José Rodrigues Vieira Neto, em nome do Estado laico e de sua separação da Igreja.
Outra de latim foi, já nos anos setenta, governo Canet Júnior, quando o deputado estadual Jaime Rodrigues, ao referir-se belicosamente ao seu xará do Palácio Iguaçu, depois de afirmar se vis pace, para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra), arrematou em latim clássico, vertido para o catarinês se queres guerra, guerra tereis.
VÍCIO Da turma de pescaria, décadas passadas, havia dois fumantes: eu e o coronel da Polícia Militar da reserva Antunes. Foi quando eu o vi sofrer uma terrível crise devido ao enfisema pulmonar. O desespero na busca do oxigênio residual me contagiou: lancei ao rio a carteira de cigarros.
COMÍCIO Mesmo na liberdade, uma reunião comunista sempre tinha um tom de expectativa de repressão. Isso incendiava ainda mais os oradores que se tornavam provocadores. Falava-se mal do candidato presidencial do PCB: Yedo Fiuza, engenheiro do DNER. Lacerda, ex-comunista e engajado com a UDN, o chamava no jornal de o rato Fiuza. O coral partidário na Praça Osório ressoava: Yedo, Yedo, Yedo não tem medo! O grito anestesiava mais do que esse Povo unido jamais será vencido, quase sempre entoado pouco antes da plebe ser dispersada na pauleira.
ANIMAIS Lembro do meu avô, Randolpho, que tocava na boemia junto com o Villa-Lobos em Paranaguá, alimentando com mamadeira uma lontra: na água da banheira era ágil como um golfinho. Recordo do papagaio falastrão que repetia todos os palavrões de minha avó Cota. Vi o papagaio, mais tarde, inerte, e foi uma das visões da morte que se completaria com a dos cães da casa e, mais tarde, com a de minha própria avó. Num dia acertaram um tucano no quintal da casa: minha mãe o reanimou com calor e colheres de azeite: era a ressurreição. Fênix renasce, multicor, para pousar no abacateiro mais próximo.
LATIM Traduzindo De Bello Galico, que narra os feitos de César, um colega referiu-se a um aperto louco para o complemento circunstancial de lugar in aperto loco, que significa num lugar aberto. O mestre riu, o que era anormal nele, e ironizou, como as tropas estavam nas faldas das montanhas, de certa forma se encontravam visíveis demais e, portanto, num aperto louco.





