Luiz Geraldo Mazza
O lançamento do livro de Adherbal Fortes de Sá Júnior sobre Ney Braga deu margem a que se estabelecesse a analogia entre a virada dos anos 60, uma revolução que integrou o Paraná física e politicamente (abriu o ciclo de governantes do interior, com Paulo Pimentel), e a que se anuncia agora com a chegada das montadoras. Em ambas um traço comum: mudança estrutural da economia na direção do maior ganho de produtividade, agora com a inserção tecnológica.
Temos todas as condições de usufruir vantagens econômicas, mas corremos risco de, tal como se deu com Ney Braga, acumularmos deficiências sociais. Com Ney, houve acentuada prioridade ao econômico em detrimento do social. Tanto que ganhamos no sul em infraestrutura econômica e levamos um baile nos indicadores sociais como alfabetização, mortalidade infantil, expectativa de vida.
Criança no mercado de trabalho e fora da escola é, por exemplo, uma tatuagem para nós, por aparecermos somente à frente do Piauí em tal registro perverso.
Ney ainda enfrentava problemas mais graves do que os de Lerner: o café se exauria como ciclo e, paradoxalmente, um paranaense, Leônidas Bório, na direção do IBC, se incumbiria da erradicação. Ora, o café era o fundamento básico de toda a economia, por tornar rentável a pequena propriedade, permitir que meeiros se transformassem em proprietários e induzir a urbanização. No âmbito político, Ney se elegeu com minoria parlamentar e conseguiu seduzir a maioria na aceitação do seu programa. Enfrentou o ciclone da renúncia de Jânio com extrema flexibilidade ao aproximar-se de Jango e fazer outra revolução no sudoeste, com a entrega de mais de 50 mil títulos aos posseiros.
INDECISÕES Dá para imaginar um Lerner, com suas indecisões, enfrentar um rabo de foguete desse porte, quando mal consegue acertar o seu destino partidário? Ney não buscou o partido dominante: fez o PDC, que era quase nanico, crescer e com ele tornou-se um líder nacional. É verdade que Ney se valeu de um artifício para ganhar o governo: aproximar-se, meio na marra, de Jânio, quando este e a UDN do norte preferiam Nelson Maculan que, de uma decência à toda prova, foi leal ao general Lott, rejeitado pela cafeicultura porque detivera a marcha dos Godói, Reale e Vilela e tantos mais com as tropas do Exército.
O ponto de aproximação está no divisor de ciclos: tanto o vivido na cidade de Curitiba, gerida por Ney, como seu primeiro prefeito eleito na modernidade, como no Estado. Ney organizou fundamentos da cidade, trouxe Prestes Maia para uma revisão de indicadores urbanísticos do Plano Agache, acertou o transporte coletivo. No Estado, Lerner abre uma etapa de capitalização intensiva e de agregação tecnológica, num momento em que quebram as empresas locais e que não recebem a enésima parte do que se concede às multinacionais, especialmente montadoras.
ANALOGIA ÚTIL Triunfalistas acham que seremos mais do que o segundo pólo automotivo do País para nos transformarmos na segunda potência brasileira, quando ainda figuramos em sexto no ranking e atrás, no sul, de catarinas e gaúchos. Não há plano estratégico - o que havia com Ney - e ninguém está cuidando de prever impactos como o social (a migração se intensificará e dominantemente de marginais e excluídos do campo), o ecológico (num momento em que é nítido o esgotamento das fontes supridoras de água potável atinge-se o rio Pequeno por causa da Renault), o urbanístico (como acertar a questão viária com as montadoras ao lado de eixos rodoviários já saturados).
O governo, tirando a atração dos investidores (alguns aliás absorvendo organizações que cresceram graças ao Estado, como a Refripar e outras no complexo da Cidade Industrial, aí inegavelmente feito de Lerner), não está fazendo bulhufas e não consegue recuperar o modelo de gestão financeira que foi sustentado até pelos peemedebistas. Claro que aí sofre em função do quadro gerado pela economia estável e que impede o governo de valer-se do over para corrigir fluxos de caixa.
Há tempo, no entanto, para que se retome a racionalidade no governo, desde que esse pare de operar intuitivamente e ao sabor das circunstâncias e de puro marketing e deslanche. Aí a preocupação primeira deveria ser com o impacto social da nova ordem, essa que promete descarte humano, dando-se mais do que já se tem feito na educação e na saúde (setores em que o desempenho é acima da média) para atender as demandas que se agravarão. Uma esperança nesse quadro é a possibilidade de uma relativa recuperação da cafeicultura com as técnicas de adensamento, o que abriria perspectivas de ajuste no módulo da pequena propriedade, ora favorecida também nos pomares de cítricos.





