Curitiba, a imbatível
Para alguém ganhar a eleição no Brasil tem que se habilitar em São Paulo. É a explicação permanente para as derrotas de Lula e Leonel Brizola. É o que se dá com Curitiba relativamente ao Paraná e aí repousa o fundamento maior do ainda inegável potencial das forças do lernerismo. Se na oposição há um Requião, que detém condições de penetração na Região Metropolitana, o mesmo não se pode dizer de Alvaro Dias. Hoje Requião cresceu no interior, como provou na última eleição, o que também se deu com Lerner por ser governo.
Apesar da maior integração física e cultural – aquela maior do que essa – do Paraná, qualquer pesquisa de opinião mostra a dificuldade de certos candidatos entrarem em Curitiba e aí serem aceitos. Historicamente dá para lembrar alguns episódios como a vitória de Bento Munhoz da Rocha contra Lupion nos anos 40, tanto na capital quanto em Ponta Grossa, situação mais ou menos parecida em 1965, quando Paulo Pimentel perdeu nesses bastiões da tradição, embora vencesse o pleito.
É verdade que o Paraná e suas regiões mudaram: a pioneira passou a aceitar valores da tradição e vice-versa. Curitiba, então, não pode ser comparada com a cidade do passado porque o ‘‘mix’’ demográfico mudou extraordinariamente. O lernerismo acompanhou melhor isso do que o requianismo. O fato objetivo está aí: o grupo permanece no poder há três gestões no plano municipal e há duas no estadual.
A pior das deficiências dos grupos alternativos a Lerner é a ausência de quadros, de talento, embora a turma do poder tenha se revelado apta para levar a melhor em coisas não muito ortodoxas como a façanha do Banestado e outras mais bem dissimuladas. Imagine-se, por exemplo, um candidato do PSDB na capital para disputar com chances de ganhar: Max Rosenmann, já se viu no PMDB, não dá para saída; o deputado federal Flávio Arns, de bandeira limitada; o empresário Demeterco, o que já foi sugerido; quem teria tanto fôlego?
No PMDB, fora Roberto Requião não há jeito. Ele habilitaria o partido, na hipótese de uma vitória, o que é difícil, mas não impossível, a ganhar, em seguida, o governo estadual. Se está disposto a fazer o sacrifício (aí a palavra tem o sentido de origem como ‘‘sagrado ofício’’) é o que não se sabe, ainda mais depois da história dos dólares que mesmo explicitada vai chatear tanto quanto as certidões de aposentadoria de Saul Raiz e de José Richa que garantiram duas vitórias do PMDB, embora a legalidade claríssima do ato que os havia favorecido.



BIZARRICE
Adhemar de Barros, famoso pelo ‘‘rouba, mas faz’’, é perguntado em Curitiba sobre o sumiço da urna marajoara. Resposta: ‘‘Quem levou a urna – replicou com a voz rouca – foi a sua vovozinha’’. Uma saída menos desgastante do que a usada por Roberto Requião em Minas Gerais. E mais engraçada.



AXIOMA A polícia de ‘‘ponta’’ teve dificuldade com os ladrões do carro pagador e quem liquidou a parada, por ironia, foi um grupo do destacamento do povoado de Ivailândia na parte de recuperação do dinheiro e na execução de dois membros da gangue
GLOSA Como Requião atribuiu ao Palácio o maior interesse na divulgação do caso dos dólares, no que está certo, agora se tenta inferir que a mesma fonte teria abastecido a resposta da ‘‘Veja’’ aos ataques do senador. Há material menos batido de crítica ao ex-governador como o de lembrar ‘‘Ferreirinha’’. Aliás, costuma-se dizer que o ‘‘Ferreirinha’’ de Lerner é o caso, ainda rolando na Justiça, do ‘‘Correio de Notícias’’, cuja propriedade se atribui a governistas, dentre eles o prefeito de Curitiba Cassio Taniguchi.
PARADOXO Por que se diz nas rodas esportivas que a maior obra do governo Jaime Lerner é a Arena da Baixada, estádio do Atlético Paranaense, quando o governador é sabidamente coxa branca?
SPRAY Estamos distantes do pleno emprego, mas o Paraná teve o terceiro melhor desempenho do País, com expansão de O,43% na geração líquida de empregos no primeiro trimestre de 99, representando 5.574 vagas. - Fica atrás apenas de São Paulo e Minas, mas os ingressos aqui foram superiores: 43.900 contra 42,5 mil em São Paulo, 21 mil no Rio Grande do Sul, 19,6 mil no Ceará e 14,3 mil em Santa Catarina. - Está, no entanto, muito aquém das expectativas criadas com a chegada das montadoras e dos megainvestimentos. O baixo preço dos grãos da exportação, somado à recessão, dificultou o deslanche que era esperado e acabou não acontecendo. - O pior, no Paraná, é a crise de Estado que se agrava com a decisão do STF que terá efeitos internos, uma delas fulminante relativa à imunidade dos aposentados quanto ao pagamento da previdência. Aqui, apenas o aposentado com 70 anos estava isento, o que mostra que na chamada legislação infraconstitucional as coisas não são simétricas. - O Órgão Especial do Tribunal de Justiça se verá obrigado a seguir a orientação do STF que firma jurisprudência inquestionável, o que sepulta o modelo previdenciário que Lerner tentou ‘‘vender’’ a todo o País para o ajuste fiscal. - Só no complexo soja o Paraná perdeu, em receita, 23% em relação ao ano passado. No óleo refinado, a queda foi de menos 11.7%; no grão menos 24% e no farelo menos 24.6% e no café em grão houve acréscimo de 5,9 e no solúvel menos 26%.
FOLCLORE Ovo de Colombo foi algo mais simples do que a solução de explorar o Karst para dar água ao município. O navegante genovês quebrou a ponta da casca do ovo para botá-lo em pé e os nossos governantes dão água do Karst em troca da secagem de lagos, tanques, poços e águas subterrâneas. E haja rachadura nas paredes das casas, afundamento de solo etc.
CROMO O bico-de-lacre, pouco maior que um inseto, vôa em diagonal; o joão-de-Barro, passos marciais e canto nervoso, passeia na grama, bolando a próxima construção, e o colibri dá um solo de balê, parado no ar, Nijinski de penas.
AFORÍSTICO Na Europa, Lerner e sua turma pensam na próxima viagem.

mockup