Luiz Geraldo Mazza
A sociedade brasileira parece ter um apetite pantagruélico em assimilar, com a maior facilidade, diariamente, os pratos moralistas que lhe servem como esse do futebol ou o dos precatórios. Sabe-se de antemão que nestes como em outros casos que as punições, se ocorrerem, ficarão pela metade, como se deu nas CPIs que investigaram PC Farias e os anões do orçamento.
Uma espécie de residual de hipocrisia é permanente na atitude do público e, especialmente, dos meios de comunicação, ao aceitarem a postura do Ricardo Teixeira como disposto a limpar o futebol quando dirige a entidade como um senhor feudal e, portanto, ciente do que ocorre nos bastidores, isso para não falar nas denúncias pesadíssimas feitas contra ele pelo jornalista Juca Kfouri na revista Caros Amigos.
O inaceitável é que no momento em que se democratiza tudo e até se abusa dos limites de liberdade - vide a ação dos sem terra em Brasília e a dos prefeitos e agricultores que ocuparam ontem a Estrada do Colono no oeste - há instituições que continuam como estavam sob o regime militar. A CBF é uma delas acionando interesses dos mais graves como esse da constante muda de uniforme da seleção brasileira, ora imantado pelo merchandising da Nike, o que envolve negócios astronômicos e diante do clima corporativo sob suspeição, como sugeriu Kfouri.
Arrumar culpados rapidamente parece ter sido o caminho mais fácil para Ricardo Teixeira diante dos deputados da Comissão de Educação da Câmara Federal. Sobrou para o corruptor interno, Ivens Mendes, e é claro para os presidentes do Atlético Paranaense e do Corinthians, Mário Celso Petraglia e Alberto Duailib, todos suspensos, enquanto um tribunal corporativo, o TJE, examina o assunto.
O presidente do Atlético tinha pisado nos calos da Globo, embora seja seu sócio na afiliada local da CBN, duas vezes: ao impedir a transmissão direta do jogo com o galo no campeonato nacional para Belô e ao agregar-se ao grupo que se opõe ao clube dos treze e que atinge também os interesses da Venus Platinada em choque aberto com a SBT pelo monopólio do espetáculo. Nada disso justifica o que falou na gravação porque se compromete, ainda que alegue que o faz por não haver alternativa num meio mafioso como o do futebol, mas devem ser consideradas, sim, essas razões também para conhecer a fundo o complexo de interesses que aciona os cordéis desse teatro de marionetes.
Que venha, pois, a CPI e que se ouça o Juca Kfouri que fez denúncias graves contra o sistema. Ele disse recentemente que Petraglia teria dado um BMW de presente à filha de Ricardo Teixeira e se o fez certamente entendeu que era um dos caminhos para favorecer o seu Atlético. O fato é que no passado não remoto o Coritiba só conseguiu sua fase de glórias quando tinha na intimidade da então CBD o Mozart di Giorgio, elemento-chave nos feitos. Dá para lembrar que havia um torneio denominado do povo, composto pelos clubes mais populares do Brasil (Atlético Mineiro, Corinthians, Flamengo, Internacional, Bahia) e que em sua segunda edição, em 1973, contou com o Coritiba e que se sagrou campeão. Bastou isso para que o torneio nunca mais fosse disputado. O coxa foi incluído não apenas por seu prestígio em disputas nacionais e internacionais, mas porque tinha respaldo político. Conceda-se, pois, ao Mário Celso o benefício dessa dúvida - ou dirimente, como dizem os juristas - de ter buscado lançar bases de apoio no terreno minado da CBF. Se para botar o Atlético, sexto do país, na Copa Brasil, não teve o reconhecimento de justiça e precisou até bajular e presentear um dirigente dá bem a idéia do ambiente.
BIZARRICE Gozação dos coxas, ontem, nos atleticanos por causa da suspensão do Petraglia, imitando a torcida organizada dos fanáticos agitando os braços com o grito de guerra u u u, Caldeirão transformado em u u u, camburão.
SPRAY Retorna ao debate a questão da Estrada do Colono, ocupada ontem por milhares de manifestantes para assinalar simbolicamente a sua reabertura. O problema é que uma decisão do hoje ministro Milton Luis Pereira foi o que a interditou no fim dos anos oitenta. - Radicalismo como sempre de lado a lado com o prefeito de Pato Branco, Alceni Guerra, abrandando a fúria com projeto de via ecoturística, o que não é o desejo da maioria. - Tocaram fogo nas cadeiras de engraxates da Praça Osório. A despeito da melhoria da iluminação, que maneirou o trotoir dos gays, falha o policiamento, tanto que ninguém sabe como houve o incêndio da Boca do Brilho. Outra evidência está no mau estado das estátuas ali existentes, muitas delas com letreiro despregado. -
Semanas atrás houve a tentativa de botar fogo num mendigo que dorme em caixas de papelão na Boca Maldita. E depois de tanto absurdo ainda falam em abrir o comércio na base de 24 horas no calçadão. Delirantes. - Capa da Folha de ontem é um símbolo do Paraná moderno: Lerner sorrindo com executivos das multinacionais BMW e Chrysler e os servidores de nível médio, com salário de fome, acampados diante do Palácio Iguaçu. Uma efabulação do que vai ocorrer: o Paraná se multinacionaliza e se desbrasileiriza e se desumaniza. Até o Aníbal Khury já enxergou, mas Lerner ainda não percebeu. -
FOLCLORE Quando o Caco Lacerda, jornalista, se atritou com Aníbal Khury e lhe disseram que o Buda conservava um artigo elogioso na parede da Assembléia, houve o repique: isso tem prazo de validade que nem remédio e já passou. Agora o Aníbal disse o mesmo sobre suas relações com Lerner: validade ou paciência esgotada?





