A vida e a arte
São frequentes os momentos da história em que vira moda a obrigatoriedade, como se decorrente de uma camisa-de-força, de o artista ser engajado, isto é fazer uma arte ligada, como a carne ao osso, à realidade e, mais do que isso, aos chamados ‘‘juízos sobre a existência’’. Plekanov, o russo, no tempo em que eles valiam muito mais no mercado das idéias, especialmente se fossem marxistas, escreveu o tratado ‘‘Arte e sociedade’’, no qual mostra, de forma dialética, em que circunstâncias predominam a arte engajada ou a denominada arte pela arte, sua contrafação nas oscilações da literatura russa.
Por sua inclinação romântica e literária, o jornalismo volta e meia se vale do filão de ‘‘imitar’’ o teatro ou outras formas de ficção, como se estivesse descobrindo algo novo: não poucas vezes repórteres, fauna em extinção, fazem o gênero ‘‘Deus lhe pague’’ de Joraci Camargo, saindo como mendigo para ver e descrever as reações do público e dos próprios iguais. Um dos que fizeram, com êxito, a encenação foi o jornalista, crítico de arte, ator e dramaturgo, que morreu na mão de pivetes, Eddy Franciosi.
Esse tipo de jornalista – o da reportagem interpretada – pode até vir a ter um espaço em função da tendência, que considero desregrada, de fazer a interação entre o enfoque da cultura impressa e o decalque de formas apropriadas ao cinema e à televisão. Certos estão os críticos, que deploram nos jornais a carga excessiva de indicadores visuais – vinhetas, boxes, gráficos – que os tornam mais coloridos do que uma arara.
De todas as cenas que até hoje eu vi, a mais forte foi a do jornal ‘‘Última Hora’’, da sucursal de Curitiba, em que o Adherbal Fortes de Sá Júnior convenceu um desses tipos amalucados que buscam as redações (seu nome era Tuiuty Sareta) para que interpretasse o ‘‘Zé do Burro’’, do Dias Gomes, conduzindo uma cruz, do planalto até Paranaguá, a pretexto de pagar promessa como no célebre filme premiado em Cannes, na peça famosa e na série global.
O pior é que em Paranaguá esperava-se a mesma reação do texto original, porém até o bispo surpreendeu aguardando à frente da Igreja do Rocio o penitente de brincadeirinha. Ele chegou a preocupar porque tinha dormido na zona, escondido a imensa cruz de madeira num depósito, o que deixou o pessoal do jornal ‘‘UH’’ até nervoso. Fazendo as habituais concessões à sociedade do espetáculo, o prefeito, o bispo, vereadores, lá estavam, na porta da igreja, no aguardo do cripto penitente, que era fanho e se dizia necessitado de dinheiro para realizar o sonho de cursar um conservatório de música. ‘‘Nheu nhegócio é iolino’’ – dizia ele. Daí o Adherbal o convenceu a fazer o papel do Zé do Burro. Numa das suas idas, agora em direção ao Norte, uns malvados agnósticos lhe retiraram a cruz das costas e a lançaram no Rio Ivaí.



SEGUNDO ATO
Durante a travessia do ‘‘pagador de promessas’’, a reportagem o acompanhava, já que ele, obviamente, como convém a uma penitência, ia a pé. Quando o artista passou por São João da Graciosa, na descida da serra, fui, na condição de chefe da Redação, ver o que estava acontecendo. Em cada boteco em que ele parava juntavam-se os tipos mais incríveis como andarilhos, loucos, eremitas. Um desses, que vivia numa caverna das proximidades, tinha um papo que daria argumento de Charles Dickens: falava do seu convívio com animais selvagens, alguns dos quais domesticava, posava de curandeiro e mostrava que a teia de aranha é um santo remédio para ferimento. Se de cada cabeça saísse um daqueles ‘‘balõezinhos’’ das histórias em quadrinhos descrevendo delírios e absurdos, estaríamos diante de um psicodrama não com seres tão estranhos, mas com Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, Cortázar, Icasa, Borges, Kafka, Jamil Snege, Jack London, Wilson Rio Apa e outros menos votados. Para dar cor local à história, já que tudo ocorria no litoral, poderíamos incluir na turma o Marciano, a versão morreteana do Barão de Munchausen



O AZIAGO Havia um temor reverencial no culto a feriados religiosos: na Semana Santa, o silêncio era assustador como se cada casa virasse um convento. Pois a gurizada não deixava por menos e enfrentava as proibições jogando futebol até na Sexta-Feira Santa. Numa delas vimos, de repente, que parte das nossas roupas pegava fogo, o que atribuímos ao furor do Deus punitivo e do Velhíssimo Testamento. Só que, escondido entre as árvores, Getúlio Menezes, mais tarde chamado de Gigolô, o que era uma glória na vida noturna, rolava de rir com a sacanagem que aprontara para toda a turma.
Na verdade, o que pesava era o alerta das mães, lembrando que se tratava de dia santo de guarda e que o silêncio era a melhor forma, ao lado das orações, do jejum e da comunhão, de cultuar o sacrifício do Senhor.
SEGREDO Pega-se um capim ao acaso e molha-se a sua base com saliva e a seguir pesquisa-se a grama para achar cavidades, buraquinhos mal disfarçados. Como se fosse uma sonda, mergulhamos o capim molhado no fundo daquele orifício com jeito metafísico e dentro em pouco aparece, agarrado ao cuspo, um inseto que todos chamam adequadamente de ‘‘Segredo’’.
DEFINIÇÃO Dalton Trevisan, em sua fase lírica e surreal, fazia crônicas e numa delas descreveu o guri macho do seu bairro, que chupava laranjas sem cuspir as sementes pelo fato de não temer apendicite.
IT A linguagem figurada mal ocultava a malícia lá pelos anos 40. Havia a marchinha que falava da ‘‘Suzana, a casta Suzana, lá do Posto 6; coitada, como está mudada, teve apendicite e ficou sem it.’’ O moralismo bem estruturado leva a sutilezas e metáforas.
PRIMAVERA Me conta, um pai de excepcional, que neste 2 de outubro, sexta-feira, houve o baile das debutantes dos deficientes no Clube Santa Mônica. E me fala com emoção, própria de uma vivência em que todos melhoram no convívio com esses seres missionários que nos obrigam à reciclagem de valores, de ter a noção aguda do ‘‘outro’’ e a resistir ao egoísmo.

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