Luiz Geraldo Mazza
Uma cheia de boatos
A saga dos jornais de pequenas cidades é uma constante até nos filmes de faroeste: o dono político-empresarial da região (lembram, por exemplo, do Quantrell?), que manda em tudo, pede para que os seus guarda-costas empastelem as oficinas da publicação. Não é para menos quando, numa ordem confessional, aparece alguém querendo fazer oposição ou às vezes nem isso, mas tão-somente a busca do contraste. Há também o caso daquele que pretende beliscar o poder como no livro de Horace McCoy, romancista e roteirista de cinema americano, O Pão da Mentira ou A mortalha não tem bolso, em que o periodista, mal intencionado, que se mete até com a Klu-Klux-Klan, acaba morto.
O fato é que a nossa imprensa não desenvolveu qualquer sentido investigativo, pois se buscasse apurar, prensando os inconformados com a derrota, a boataria que emergiu das queixas de traições na eleição da Mesa da Assembléia, certamente botaria alguma luz sobre o assunto, impedindo que permanecesse o circuito das presunções. As versões não se sustentaram e aqueles que na base do off falaram nas dimensões do botim, ocultaram-se no anonimato. Onde poderia haver investigação prevaleceu a versão de traço vago.
Não se sabe se é esse o caso de um pequeno jornal de União da Vitória, terra do deputado Rossoni, denominado Vanguarda, e que publica em destaque, na edição da semana passada, dia 24, que teriam sido gastos R$ 5 milhões nos acertos da eleição da Comissão Executiva. Vai para o papel tudo o que foi murmurado, regougado, segredado em cima do frisson da derrota do grupo que apoiava o líder do governo e que mesmo perdendo, voltou a ocupar a função.
E é claro há aquela analogia da moda: comparar o dispêndio com casas populares e cestas básicas ou salário. Fecha a apreciação, dizendo que com essa grana, que teria sido partilhada por governo e oposição, daria para pagar o salário de um trabalhador de União da Vitória por 2.100 anos.
Pelo que se vê, União da Vitória, cidade-gêmea de Porto União, sofreu enchente de boato na mesma medida de impacto quando encara a violência das águas do Rio Iguaçu. Embora sem documentar as denúncias, repetindo tudo o que foi dito e até apreciado superficialmente por jornais de porte, o flagelado da matéria é o Poder Legislativo. O deputado Rossoni, criticado pelo jornal, é, ao lado de outros colegas, um dos flagelados dessa enchente de boatos.
BIZARRICE
A cidade de Curitiba nunca foi tão policiada como agora. Rubinho Ferreira sugere que para chegarmos à tolerância zero basta fazer um encontro da Abav por mês. Houve quem lembrasse da Eco-92 no Rio, algo bem parecido, só que houve acerto direto com o lado oposto, admitindo-se a hipótese, se é que é válida, de que o apostolado é o governo, a autoridade e a polícia
AXIOMA O turista olha a Pietá na frente do cemitério municipal e declara, entusiasmado, de que é melhor do que a do Miguel Ângelo. Turista oficial, é claro, como tudo é para os nossos governantes, o estadual e o municipal que entoaram ditirambos sobre a cidade modelo e ecológica. Que empulhação!
GLOSA Também em Araucária, como se deu em Curitiba, a oposição pretende derrubar o situacionismo, numa guerra contra o transporte coletivo. Só que aqui o cartel apoiou Richa e Requião em 85, na queda de Lerner. Lá a batalha é na base da ação popular. Há inúmeras contra Rizio Wachowicz.
EPIGRAMA Tanto Lerner como Taniguchi se ligam muito em caixa preta. As do governador são visíveis nos fatos do Banestado, na forma como propõe soluções polêmicas como as do Paranaprevidência, e as de Taniguchi em pedidos de empréstimo como o de R$ 30 milhões (pavimentação, saneamento e recuperação de prédios históricos) sem clarear quanto se gastará em cada área, juro adotado, prazo e garantias oferecidas. Quem não gosta da luz é morcego.
SPRAY Basistas, e aí se incluem integrantes das comunidades eclesiais, ficaram aborrecidos com o puxão de orelha da CNBB-Sul contra os radicais que insistem em mimetizar a gincana, tolerada, das ocupações, como se fosse uma simulação de guerrilha. - A crítica, muito bem recebida pelos que não aceitam a santificação ou a demonização do MST, deve ser aprofundada, ganhar capilaridade e chegar nas paróquias, onde há o culto ao messianismo, como se vivessemos uma reprodução das tensões de Antonio Conselheiro. - Quem mais forneceu substância para que o MST se tornasse temerário e audacioso foi o próprio governador com a frouxidão diante da escalada de invasões no Noroeste. - Outra tolice da direção é não perceber a queda de credibilidade do MST e que se agrava em aparatos inúteis, como o do acampamento do Centro Cívico. A propósito: só falta o governo, quer o estadual ou o municipal, com sua proverbial manipulação, sugerir que os sem-terra estão ali para dar apoio ao Palácio Iguaçu. - No momento em que tanto se fala sobre reeducação de presos, o delegado regional de Umuarama dá um exemplo fora do comum ao obter trabalho para os encarcerados e, além disso, ao proporcionar o curso supletivo para os detentos.
FOLCLORE Para os participantes do encontro da Abav (um dos documentos chamou de Guatemala o Guartelá, quinto maior canyon do mundo) num mesmo dia deu para ver os concursados da Polícia que não foram nomeados fazendo protesto diante do Palácio e também os sem-terra. Sem-terra e sem-nomeação provam que a maioria da população é sem-governo.
CROMO Diz-se que o sândalo perfuma o machado de quem o fere e provavelmente a motosserra também. Para descompensar, o jatobá transmite mau odor.
AFORÍSTICO Se Jaime Lerner tivesse que fazer um trabalho semelhante ao de Noé bíblico para lotar a Arca e com a sua fauna secretarial, o barco afundaria, tal qual se deu, de forma claríssima, com o Estado.





