Luiz Geraldo Mazza
A juventude transviada
Medo mesmo, e é certo por puro preconceito, tínhamos dos jornaleiros como havia também em relação aos egressos de escolas de recuperação lá pelos anos 40 ou 50. Muitos deles acabaram cruzando com a gente em campos de futebol e até na universidade. Havia uma aura de temor, talvez porque fossem mais pobres do que nós, talvez porque fossem vistos como organizados, principalmente para as brigas e abafas coletivos.
No Ginásio Paranaense de Curitiba, não poucos de nós lembrávamos os anjos de cara suja do cinema, marginais normalmente protegidos por um religioso, como na série de filmes daquele tempo. A força estava no grupo, no agir coletivo, o velho macete da multidão, essa potência anímica regida por impulsos destrutivos.
Pois em plena ditadura Vargas, que não era nada amena, um oficial de cavalaria passou, garboso, pela Saldanha Marinho ao lado do pátio. Os assobios e vaias enlouqueceram o cavalo e o cavaleiro. Este invadiu o pátio e foi lá para dentro do saguão. Uma cena inesquecível: lá de cima, ao lado das bandeiras do Paraná e do Brasil, o professor Francisco Ribeiro, diretor do colégio, com frases latinas e voz forte, dava de dedo no oficial que por várias vezes fez aquela manobra de erguer o cavalo como num filme de faroeste.
Naquele tempo, os educadores nos moldavam: atitudes fortes mantinham o respeito e a distância. Apelos cívicos, como o esforço de guerra para juntar metais, eram bem respondidos, pois percorríamos toda a cidade atrás dessa matéria-prima e nesse momento fazíamos com orgulho o papel construtivo, como se ele nos desse as mesmas compensações das molecagens da maior parte do tempo.
O BEDEL
O gordo e suave Mondrone era o bedel. Trabalhava tempo integral, pois dava conselhos aos alunos que conhecia bem, mesmo fora do expediente. Os alunos gostavam do bedel, mas ninguém resistia ao desejo da sacanagem na grafitagem nas paredes do WC. Lá estava: De madrugada,// de longe eu vi// o Mondrone, de cueca,// caçando bem-te-vi. Era até delicado perto daquele de mau gosto: Neste lugar solitário// onde a vida se acaba// todo covarde faz força// e todo valente se caga// Um desses analistas modernos diria que aquele a vida se acaba se refere à escatologia em sua medida teológica, que é, aliás, um dos seus departamentos
ZEPELIN Vi o zepelin, artefato ideológico do nazismo, passar por Curitiba. Um evento desses era como uma queima de etapas da tecnologia. O povo olhava aquela passagem, aparentemente lenta e sem ruído, deslumbrado, e não percebia que pisava nas flores da Praça Tiradentes. Pois um dia, na aula de desenho, do mestre Pedro Macedo, bom pintor acadêmico, mas tenso e explosivo, ele colocou como modelo um cone e cada aluno aprontava das suas. Um deles, pirado em chocar, desenhava pênis enorme ocupando toda a página do caderno. Macedo passou por perto, olhou com atenção e estrilou em sua fala lusitana: Ponho um cone de modelo e este gajo me desenha um enorme zepelin.
RIO DE SONHO Que vocação maravilhosa de geógrafos que há em cada nós! Com que facilidade, Senhor, damos nomes, como se estivéssemos no primeiro dia da criação, aos acidentes dos nossos rios de infância. No Barigui, um pouco antes do seu curso no Parque, havia O do soldado porque naturalmente alguém viu, mais de uma vez, um militar se banhando em suas águas, no tempo em que era possível fazê-lo. Ajudei a dar nomes a alguns desses recantos como Carniça porque vimos os urubus traçando resto de um porco do mato e um outro que, por sua delicadeza e majestosidade, no ritmo de sua ágil correnteza, quase num nicho de proteção, batizamos de Princesinha. E a Panela era um ponto em que tentávamos imitar os grandes mergulhadores. Havia um bebum de nome Sabiá (dizia-se que era um fancho de carteirinha, daí a piazada andar sempre enturmada) que imitava o Vicente Celestino cantando Porta Aberta e Coração Materno e dramatizava uma cena ao gritar que tinha perdido todo o dinheiro no jogo e fingia o suicídio para exibir-se com o seu fôlego, mantendo-se mais de um minuto embaixo dágua. Havia do lado direito, bem além do local em que está a indústria do Trombini, depois do antigo moinho do Weigert, que controlava em minieclusa a altura da água, ora represada para ação industrial, ora liberada em seu curso, um destaque: a Volta Funda.
Sibilava nos lábios dos guris a incrível lenda que suas águas eram tão profundas que havia um pinheiro adulto submerso. Do alto das árvores todos éramos Tarzan e íamos fundo para descobrir a tal copa desse imponderável pinheiro. Diante daquilo pouco importava o Amazonas ou Yang-Tse-Kiang, o Nilo ou o Paraná. Aquele era o rio maior da medida onírica da nossa alucinação, gostosa e poética.
CRUELDADES A mobilidade social nos salvou, a muitos, da marginalidade. Havia um gosto pela violência contida: expulsar de nossas ruas os adventícios que vinham namorar as garotas do pedaço. Uma das sacanagens clássicas era fingir uma briga na rua entre dois, com um deles segurando um pau. Sempre aparecia um samaritano para apartar ou, na melhor das hipóteses, nivelar a luta, afastando a arma. O guri topava e estendia o pau para o árbitro. A ponta dele estava cheia de bosta fresca que se passava para a mão do bem-intencionado, enquanto todos corriam dando gargalhadas e vaiando o trouxa.
MURAL O professor de química, Lachowski, fazendo uma experiência e ela provocando gases e tosse na sala; o pessoal cochichando que um dos mestres de educação física era poeta e que por isso, na certa, era veado. - O remédio era esconder a poesia, o que parecia também o jogo dos homossexuais que eram poucos, como também os pioneiros do sexo oral: deles havia um promotor que ao tomar cafezinho e ao deixar a sua xícara ninguém se arriscava a usá-la, mesmo que submetida a 3 mil graus. - Quem começou, em escala massiva, essa onda de oralidade foram duas francesas, casadas, e que andavam pelas praças com os seus cãezinhos de raça. O know-how foi assimilado e os nativos passaram a fazê-lo, muito antes de assistirem aos filmes fesceninos. Aquilo era descoberta, e o mundo mudou tanto que o que era recurso extraordinário, como dizem os advogados, virou petição inicial.





