Luiz Geraldo Mazza
É hoje só só, vai acabar...
Antigamente, no fecho do Carnaval, era comum cantar é hoje só// só só// vai acabar//já já//, uma espécie de alegoria final que enchia a Terça-Feira Gorda já em plena Quarta-Feira de Cinzas. Pois hoje é o dia de finalizar o período das filiações e mudas partidárias, o nosso carnaval cínico, porque chamá-lo de cívico seria cínico demais.
Não há saúde no inchaço, o que já foi um equívoco na Medicina antiga quando gordura era sinônimo de higidez. A cura da tuberculose, por exemplo, era em estâncias como as de Campo Jordão e a nossa da Lapa, e uma visão equivocada estava no excesso de valor atribuído ao ganho de peso do paciente. Um jingle de propaganda de uma farinha vitaminada, produzida em Curitiba (modéstia à parte trabalhei nela nas operações de envazamento), denominada Alegria, que funcionava na Rua Vicente Machado, era assim: Criança gorda e sadia// Só com farinha Alegria//. Uma vez mais reafirmada a sincronia entre gordura e higidez que pelo menos no caso não eram sinônimas.
As convocações havidas na televisão foram, de um modo geral, de um primarismo à toda prova para atrair novos filiados e sustentadas por um personalismo que explica a inconsistência de qualquer dos nossos partidos. O PFL, por incrível que pareça, com toda a sua carga de pragmatismo, adotou a melhor linha para as convocações com o trabalho feito por uma mulher que buscava o estímulo à participação cívica.
Já o PSDB (com o revezamento dos irmãos senadores Alvaro e Osmar Dias, fazendo referências e reverências a projetos pessoais), o PTB (com o Zé Carlos Martinez) e o PMDB (o monopólio de Roberto Requião) deram exemplos ostensivos de culto à personalidade. Também a dialética do PT, o melhor dos nossos partidos, apesar de tudo, não desfaz a permanente crise de identidade de um partido que faz um discurso obreiro para a classe média.
Claro que algumas aquisições devem ter fortalecido um ou outro partido. Porém, de um modo geral, houve inchaço para dar impressão de força, o que é impraticável nos partidos ideológicos e, organicamente, nanicos. Alguns vão cantar os feitos, outros tentarão justificar porque cresceram como rabo de cavalo para baixo. Já qualquer triunfalismo do PFL soa acaciano, mormente quando se faz, como aconteceu semana passada, com a megafiliação dos prefeitos, cuja safra é bem menor do que a semeadura procedida.
AFORÍSTICO
Quando o Brasil vive o bipartidarismo, como aconteceu nos tempos clássicos com liberais e conservadores ou em 64 com Arena e MDB, a impressão que fica é a de uma disputa substancial entre Alka Seltzer e Sonrrisal
TURISMO Turismo não é truísmo. Apenas em Foz do Iguaçu temos know-how de turismo de lazer. Em Curitiba, o dominante é o de negócios, hoje acelerado em função da polarização que a cidade passa a exercer especialmente nos setores terciário (serviços, transportes, comércio, intermediários financeiros), em primeiro lugar, e no secundário em função da mudança do perfil industrial.
Não inventemos moda, a despeito da importância dessa reunião nacional da Abav. Não temos sequer, pra começo de conversa, um centro de convenções dimensionado para empreendimentos desse porte e a iniciativa privada na área é tão frouxa que vive na dependência do poder oficial, hoje matando cachorro a grito. Hotelaria e restaurantes de porte médio temos dos melhores do País. Há também ousadia dos que acreditam na exploração do lazer, alguns quebrando a cara como o excepcional Estação Plaza Show, que viveu momentos de glória e que precisou refazer o seu marketing e mesmo rever sua estrutura de serviços para não definhar de vez.
REMISSÃO Antes da revolução soviética, Paul Lafargue, francês-cubano, genro de Karl Marx, investiu pelo campo da exploração do lazer como se fosse profeta. No livro O direito à preguiça, que parecia ter um tom mais anárquico do que a lógica materialista, ele versava sobre a divisão do tempo do trabalhador em oito horas de trabalho (ainda uma reivindicação), oito horas de sono e oito horas de descanso, lazer, preguiça.
BIZARRICE Num dos entreveros da PM com sem-terras no interior, um dos cães da milícia mordeu um campesino. Aliás, sempre houve resistência à idéia de que tivéssemos camponeses como na Ásia. Tanto que a primeira referência à palavra, fora do seu sentido sociológico (lembro que nos entreveros de Porecatu em 51 e 52 os comunas grafitavam muros de Curitiba e Londrina com a Solidariedade aos camponeses do Norte) veio numa música de Vicente Celestino e de sua Gilda de Abreu em Coração Materno logo na primeira estrofe Disse um campônio à sua amada... Em 64, no festivismo do nosso lado, derrotado, havia uma tal Aliança Operário-Estudantil-Camponesa, um delírio, mais um, sem compromisso mínimo com a realidade.
AXIOMA Redondo, Redondo, aquele apelo da Skol com um clone dos nossos políticos, serve para a descida da birra, nunca para o partido.
GLOSA Para cumprir seu cronograma de viagens ao exterior, Lerner ainda vai viajar, mantendo a média atual, mais 25 vezes. Desse jeito, até Uniflor e Salto do Lontra acabam industrializados, já que se prometeu uma difusão espacial do bem-estar.
FOLCLORE O Ditinho Amatuzzi, do Bar Triângulo, famoso em Curitiba, queria dar uma lição pedagógica num garçom, o catarinense Luís, viciado em jogar fortunas no bicho. Viu a sua aposta e produziu um falso resultado em que a milhar, dezenas e centenas jogadas eram premiadas. Viu o resultado, que improvisara, e o amassou e jogou no chão. O garçom arregalou os olhos quando desembrulhou o papel e gritava que estava rico ao confrontá-lo com a aposta. E falava que iria parar de trabalhar e ter um carnaval de rei. Só no fim da tarde, bastante acabrunhado, percebeu a molecagem e sentiu saudades das horas de euforia.
CROMO O sapo lembra Esperando Godot enquanto coaxa no charco: quando virá a princesa para beijá-lo e o transformar em príncipe? Para atender a fábula, indispensável a mudança da República para Monarquia.





