Luiz Geraldo Mazza
Irrita ver a alegria adolescente do presidente FHC diante da globalização como se ao adotar as fórmulas da moda queimássemos etapas e ingressássemos, num truque de mágica, no primeiro mundo. Se já estandartizamos a roupa dos grunges, aqui e na China, na Austrália e nos States, também somos escravos do modelito de países avançados e do terceiro mundo, estes impostos via FMI que os monitora: austeridade, privatização a outrance, venda do patrimônio público a preço de banana, reforma previdenciária num cenário de exclusão crescente.
Mas o nosso governador não fica atrás: embora não tenha obras públicas a contabilizar e revele absoluta apatia para encarar a crise financeira, enquanto despesas de custeio engolem a arrecadação, anda entusiasmadíssimo com a chegada das montadoras para as quais concede participação no capital em até 40% com o que exauriu os recursos do Fundo de Desenvolvimento Econômico, concede-lhes imunidade fiscal por dez anos, terreno, infraestrutura num momento em que as empresas paranaenses quebram ou são absorvidas.
Nesse contexto, o discurso de anteontem do Aníbal Khury na Assembléia é um sinal de alerta. Já coloquei aqui que seria uma contradição, em termos, Lerner fazendo festa com a BMW, que ontem anunciou a produção de motores junto com a Chrysler em Campo Largo, e mais a Audi e a Renault, num momento em que o empresário paranaense some do mapa. Seu governo passaria a ser o que mais internacionalizou e o que mais desbrasileirou e desparanizou. O que, para quem joga no marketing positivo (o da região como o culto a Curitiba), é desastre.
Que a globalização é um fato só um louco a contestaria. Nada justifica, no entanto, esse triunfalismo como se isso não trouxesse mais problemas do que vantagens, pois somos da periferia do capitalismo e em vantagens comparativas, estamos assim como se colocassem o Marco Maciel para uma luta de box com o Mike Tysson ou o Hollyfield. O confessionalismo da moda, a implacabilidade desse determinismo (como já tivemos, em boa parte do mundo, a profecia de Karl Marx mal aplicada e bem demolida) e esse ar sacrossanto e inspirado que FHC, como Lerner, adotam ao olhar a onda como boa para surfar entediam.
O governo estadual diz que já existe comprometimento de R$ 8,5 bilhões em investimentos e imagina como verdadeira aquela previsão fantástica de consultores paulistas, que imaginam lá pelo Ano 2015 o Paraná como segunda potência do Brasil só superada por São Paulo. O delírio é livre, pois essa direção é a mais segura para nos transformarmos num entreposto, numa Ciudad del Este ampliada.
Em 1966, Paulo Pimentel também acenou, com melhor intenção do que essa de Lerner, que seríamos o segundo Estado do Brasil, quando continuamos até hoje como o terceiro do Sul do País. Vamos raciocinar, gente. Um pouco de ceticismo não faz mal a ninguém. O que não significa paralisia, mas a aceitação de questionamentos sobre essa orientação. A Argentina, ao nosso lado, com quase 19% de desempregados, está com um jeito de quem diz para o Brasil: eu sou você amanhã! O sorriso de FHC e Lerner é para o depois de amanhã, imponderável.
BIZARRICE O vereador Mário Celso Cunha apresentou projeto proibindo a música que anuncia o caminhão de gás. Logo ele que quando repórter de campo usava uma buzina parecida com a do Chacrinha para desmoralizar, inclusive, a marcação dos árbitros. Ele ficava atrás do gol e num dia houve uma cena incrível entre o fonfonar de sua buzina e o trilar do apito do juiz Rubens Maranho em duelo.
SPRAY Uma empresa francesa como a Renault (e a Sodexho, de cozinha industrial que operará acoplada), a Lyonaise Des Eaux, que já explora o sistema de água de Ciudad del Este, está aí para disputar mercado com a Sanepar. - Concessão de esgotos, então, praticamente sairá do domínio das nossas estatais para as estrangeiras. Nem a bosta é nossa, mas continuamos na fossa. - Nervosismo de Lerner, empurrando jornalistas no Hospital de Clínicas, chamou atenção. - Ninguém pode ser punido por fazer uma reflexão. Essa foi uma das frases lapidares de Lerner. Reflexão em voz alta e que implica em ação cria fatos. Convicção em forma de dúvida permanente é algo que desmonta qualquer cético da filosofia. Ou estaríamos diante de um novo Hamlet, difuso e fragamentário? -
Mário Celso Petráglia foi quem deu o embalo no futebol paranaense, mas cedeu às manhas de bastidores como ao dar o BMW para a filha do mandão da Conaf e botar o Atlético (o que é mais do que justo) na Copa Brasil. Futebol que tem Ricardo Teixeira, Caixa Dágua, Onaireves Rolim de Moura (apanhado no flagra da corrupção partidária, o que lhe valeu a perda de mandato) é algo que acaba tornando normais as ocorrências que tanto chocaram os telespectadores. Imaginem o carnaval que o senador Requião vai fazer em cima do assunto, na linha de atacar os que cercam Lerner. - Por falar em Onaireves, ele foi condenado num processo movido por Álvaro Dias, de indenização por danos morais, na sequência das denúncias sobre o chuncho das filiações partidárias. -
GLOSA Deputados federais de oposição, em manobra obstrucionista contra a reforma administrativa, apelaram para o apitaço, aquele recurso usado nas greves para irritar os patrões e que acaba irritando todo o mundo. Antes era índio que queria apito. Índio agora quer a Vale do Rio Doce, ainda mais depois que aprendeu a vender o mogno que retira da mata e a derrubar torres de transmissão da Eletronorte para defender a demarcação de suas terras.





