Uma intervenção necessária
Finalmente a Igreja percebeu que era preciso ir do alertamento ao anátema na questão da invasão das terras para os abusos criminais cometidos por aqueles que ela tanto patrocina com devoção pastoral. O apelo da CNBB-Regional Sul a todos os agentes do processo agrário, ou seja, governos e poderes constituídos, o MST e o conjunto da sociedade, é uma obra-prima de equilíbrio porque, mesmo reconhecendo a situação de desigualdade, não faz o jogo dos sem-terra, mas aponta os abusos, um a um, de cada interveniente.
O pedido de liberação de recursos para acelerar assentamentos e o apelo para que cresça o diálogo junto ao governo é seguido de um outro dirigido ao MST, para que respeite as leis (coisa que ordinariamente não faz) e que não sejam ocupadas terras produtivas, praças ou imóveis, públicos ou particulares. Na verdade, a hierarquia está fazendo com isso uma advertência aos párocos e seminaristas que costumam dar apoio incondicional, mesmo às ações violentas. Assim, esse tipo de pleito deveria voltar-se para a hierarquia intermediária e às bases da Igreja, aí incluído, o que rescende à redundância, o movimento eclesial de base, ainda sob forte inspiração doutrionária da chamada Teologia da Libertação.
A ousadia dos radicais do MST é nutrida pela ausência mínima de autoridade, que bem configura este governo balofo e incapaz de enxergar que o seu problema número 1 está justamente na área de segurança. O acampamento no Centro Cívico nada aproveita ao reformistas agrários pelo seu tom inerte, em termos de ação concreta, e puramente demagógico e de mera concessão ao espetáculo.
No maior dos conflitos havidos no Paraná nos últimos anos, o de Campo Bonito, houve quatro mortes: três PMs e o líder sem-terra Teixeirinha. Tentou-se a via do arquivamento do IPM porque ficou bastante visível o caráter de retaliação na execução do líder camponês, o que mostra um acerto que a Justiça não poderia, em hipótese alguma, convalidar, até porque, na sequência, as vítimas pleiteiam indenização pelos acontecimentos. Logicamente, os políticos tentam tirar partido do episódios para outros fins. Mas a impunidade tanto dos sem-terra que lincharam os três PMs, como dos torturadores e executores do líder Teixeirinha é inconcebível em termos singelos de civilidade.
Que se sabe, por uma questão de desproporção de forças, que os sem-terra quase sempre são vítimas, inclusive com PMs, não é novidade. Porém, nada disso elide as responsabilidades, tanto dos dirigentes, como da base do MST em casos notórios de tortura e morte como os da Fazenda Borborema e das violências inúteis como as havidas com a liberação do gado da fazenda Sete Mil.
O apelo da Igreja, Mãe e Mestra, veio em boa hora condenando o governo por não dar andamento à reforma e também o MST pelos abusos cometidos, e convocando o conjunto da sociedade para obra comum em favor da solidariedade e por uma visão mais social e cristã da justiça.



BIZARRICE
O que é maior neste governo: a corrupção ou a incompetência? Ocorre que uma gestão pode ser ao mesmo tempo corrupta e eficiente, tipo aquele sinal à brasileira ‘‘rouba, mas faz’’. Corrupção competente seria a não detectável. Por exemplo: alguém da administração atual mandar dólares para o exterior e só se falar no caso – venial, convenhamos – da Maristela Requião.



AXIOMA As afinidades entre José Janene e Antonio Belinati são notórias, apesar de, vez por outra, ‘‘pintar’’ ameaça de rompimento, como o prefeito faz com Lerner, o que aprofunda - a semelhança de estilos. Todos se merecem, aí incluída a vítima permanente, Jaime Lerner
GLOSA Sai o cigarro, entram o refresco e o chocolate com a Philip Morris. Esta já é a maior produtora mundial de alimentos. Anuncia a Terra de Marlboro para os tabagistas e prepara-se para purgar os seus pecados com alimentos.
SPRAY Comemoramos ontem a chegada da Lacta (Grupo Philip Morris), que deve gerar 3000 empregos diretos com refrescos e chocolates num cronograma de três anos para a transferência integral das instalações de São Paulo a Curitiba. - Hoje nova comemoração com a Trane em Araucária, líder mundial de equipamentos e controle para ar condicionado. Mais 450 empregos diretos. Pelo investimento (no caso de R$ 25 milhões), é um denso aproveitamnento de mão-de-obra, que não se dá com as montadoras e suas satélites, como se sabe. - O problema é que a economia do Paraná avança em patamares de capitalização e tecnologia, quase sempre estrangeira como nos dois casos citados, e num momento em que o Estado, por ter (sido) quebrado por este governo, perde funções corretoras como as que lhe são delegadas especialmente no campo social, e vende as empresas públicas bem sucedidas. - Percebe-se a inexistência de um nexo de coerência no processo, visível na laicização do Estado, numa estrutura adiposa, em que convivem, sem ter o que fazer, 28 secretarias. - Há ainda a ausência de uma base doutrinal na hora de enfrentar o chio natural dos paulistas que sempre adoraram reservas de mercado e cartórios, como o que livra o Estado de ser tributado pela energia que consome.
FOLCLORE Surpreendeu uma figura intelectualizada do governo ao afirmar que apreciava, em fins de semana, deslocar-se para a sua chácara, que ele dizia tratar-se de um ambiente ‘‘zum’’. Corrigido por outro intelectual (nesta gestão há vários deles, por mais que pareça impossível) que se apressou em dizer que ele se referira a ‘‘zen’, um estado nirvânico. Foi corrigido: é ‘‘zum’’ mesmo porque há mais mosquitos do que adeptos do governo.
CROMO Antes a fosforescência do pirilampo, do que o visgo da lesma.
AFORÍSTICO Queixa minimalista: o PCB, sem militantes, olha para o PPS que infla como na fábula da rã e do boi, em que aquela, ao esticar para imitar o gado, acabou explodindo.

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