Luiz Geraldo Mazza
O maior comício
Soava risível na época das Diretas-Já o registro estatístico atribuído aos comícios com números fortes: de 15 mil a 50 mil pessoas. Disseram isso do lançamento histórico da campanha cívica em Curitiba. O exagero nos números era uma forma de colocar o desejo à frente da realidade até para compensar o boicote sacaníssimo da Rede Globo.
Nunca, porém, tivemos em Curitiba um comício como o de Getúlio Vargas, na campanha eleitoral de 1950. Naquele tempo, a atração era o próprio candidato e os discursos. Não se usava, como atrativo, levar cantores e artistas. Além de orador excepcional, carismático, Getúlio não deixava de ser o artista, ainda mais agora, rendido à democracia.
Havia um problema complicado: o candidato do PSD, Ângelo Ferrário Lopes, meu tio, enfrentava Bento Munhoz da Rocha, que tinha uma base de apoio muito forte do PTB. Como Getúlio precisava manifestar-se, e deveria fazê-lo sem constranger ninguém, usou de extrema diplomacia, elogiando os dois e não tomando partido.
Ocorre, porém, que os petebistas fizeram um trabalho de base e montaram uma claque para vaiar o nome de Ângelo e aplaudir o de Bento. Junto à sacada do Braz Hotel havia faixas apoiando Bento e o famoso Carlinhos Pereira, campeão das brigas de rua, junto com o Murilo Beltrão, tiraram esses aparatos e tiveram que enfrentar centenas de participantes na porrada.
Havia cerca de 50 mil pessoas, que ocupavam a área que ia da Praça Osório até a Monsenhor Celso. Em referência histórica a esse acontecimento, a direção do hotel, hoje da Rede Slaviero, colocou no mesmo nível da sacada o Bar Getúlio.
Quase houve problema entre estudantes, notoriamente brigadeiristas, e militantes do PTB. Uma ameaça de invasão da Casa do Estudante foi detida por Joaquim Penido Monteiro, conforme testemunho de Goya Campos, residente da instituição, e que se surpreendeu com a frieza do jovem engenheiro em buscar conter a massa fanatizada.
SÓSIAS
Estou num restaurante e um cidadão me olha fixamente e me pergunta se estou na cidade há muito tempo. Ele me confunde com o goleiro Félix, da Seleção Brasileira de 70. Já fui confundido com outro goleiro, anterior a esse, o Castilho, do Fluminense também.
Num ônibus uma criança, no colo da mãe, não tira os olhos de mim. E de repente, como se lembrasse de alguma coisa relevante, me chama de Renato Aragão, o Didi. De todas as confusões, a melhor foi no Teatro Guaíra, grande auditório, quando uma tiete me confundiu com Charles Aznavour. Aí não resisti, até para constranger algumas autoridades, que estavam ao meu lado, confirmei que era o cantor e como ela ainda tivesse um pouquinho de dúvida cantei Pigale, que não era dele, mas do repertório de Charles Trenet.
De todas as situações equívocas, uma curiosa se deu num jogo de futebol do time da Faculdade de Direito da Federal contra uma seleção de Irati, naquela cidade: não havia número nas camisas e eu trocava de posição da meia para a extrema direita com meu primo, Raul Mazza, que era parecido comigo. O marcador se confundia e sempre havia um livre na cara do gol. Com um detalhe: todos fizeram gol, menos eu, a despeito de haver tido umas cinco oportunidades. Meu consolo é que podem ter achado que eu fiz os gols do meu primo e ele foi quem perdeu aquelas cinco chances na cara do gol.
IMAGEM Oito horas na Confeitaria Guairacá, dentro em pouco não se servirá mais caipirinhas. Aramis Milarch chega cedo e pede várias: tenso, agitado, um dínamo, ele protege com os dois braços aquela preciosidade. Lê, bebe e escreve e depois se alimenta, tudo ao mesmo tempo.
O GÊNIO MYLLA O gato Mylla era, apesar da idade, um boêmio visceral. Contava o seu batismo na malandragem ainda bem criança: caçava coleirinhos no Passeio Público e não levava sorte até que viu um negão forte com um viveiro cheio desses passarinhos. Pediu um dos passarinhos e o adulto, já com a intenção de explorar o menino, perguntou o que ele levava em troca. Tratava-se de um tarado, como se dizia naquele tempo. O Mylla olhou para os lados e saiu-se com essa frase genial Para que quero coleiro, se nem gaiola tenho? Nesse dia contava o gato tirei meu diploma de malandro.
ESCAMBO No Café Paratodos, esquina da XV com Travessa Oliveira Belo, fazíamos a troca, sempre intimidada, de poemas por contos e novelas. Cultuávamos o pessimismo Vargas Villa, Schopenhauer enquanto comíamos o sanduíche que levava o nome de Carlos Cavaco. Para nós, aquilo era uma razão de viver: meio encabulados tirávamos, timidamente, do bolso a última criação.
FATALIDADE Uma tarde, no Rio Barigui, não percebemos que haviam fechado a comporta na altura do moinho do Weigert. Estávamos em cinco, e três não sabiam nadar com a elevação, imperceptível, do nível das águas. Foi uma tensão terrível e seguida, anos depois, de uma coincidência: dois dos participantes dessa aventura vieram a suicidar-se, como se tivessem feito um pacto. Lembro que tirei justamente esses dois do poço.
MEMÓRIA A visão da morte primeiro com os animais de casa: o cachorro, o papagaio; depois com os amigos: o Oséias, pequenino, um demônio para brigar, encontrado morto no tanque do Passeio Público, o bolso da calça cheio de peixinhos e girinos, o rosto roxo, congestionado.
QUEBRA-QUEBRA Lembro de um agito: o de virar bondes por causa do aumento da tarifa. Viramos o trambolho e ficamos nos olhando diante de um sinal claro de impotência: derrubada a máquina, que fazer depois? O pior era a pretensão de que estávamos derrubando um ícone do imperialismo ianque.





