Como também o PPB entrou na disputa pelo passe de Lerner, como se fosse uma espécie de Ronaldinho da política, um verdadeiro leilão se desenvolve, com mais disputantes do que o da Vale do Rio Doce, para atrair o maior eleitor do Paraná. Como o leque é variado, o PDT decidiu lançar a campanha ‘‘Reage, Lerner’’ com o intuito de conservá-lo no partido, embora se saiba que o tom nacional que Brizola dará à agremiação, ainda mais com os acontecimentos recentes, será de duríssima oposição a FHC, o que não interessa a Lerner.
Pois, mesmo com o calor de todos esses apoios, Lerner vive um momento difícil de sua carreira política, vitoriosa e ascensional, sujeita a um acidente de percurso a que jamais um líder experiente se submeteria. Ocorre que está tendendo para o patético o apelo que se vê obrigado a fazer para mostrar que tem amor próprio e que essa pendência com um grupo arregimentado do PSDB se transformou numa questão de honra para ele, o que é um absurdo.
O curioso é que o estilo de Lerner, por todas as razões, o colocaria muito mais em conflito com o PDT, a que aderiu, do que ao PSDB, ora desejado. E isso desde antes quando ficava para lá de ‘‘postiça’’ a sua inserção na agremiação brizolista, apesar da admiração que o caudilho revelava pelo prefeito ao ponto de convocá-lo para missões especiais no governo do Rio de Janeiro, como antes já ocorrera no regime militar.
Se já era desconfortável ficar num partido, que se atrofia a olhos vistos na medida em que radicaliza posições no patrimonialismo, isso se torna agora intolerável pela circunstância mínima de que no afunilamento das reformas o governador paranaense não gostaria em hipótese alguma, por ação ou omissão, de figurar como expressão do arcaísmo. Aliás, já na eleição presidencial, Lerner ficou ambivalente, dividido, em relação a Brizola, embora isso não tivesse ocorrido no pleito anterior quando o líder gaúcho-carioca só não disputou com Collor a finalíssima porque a Rede Globo o evitou ao dar uma ‘colher de chᒠa Lula, com exposição por vários dias na mídia, combatendo a privatização da Mafersa, o que viria a se dar de forma implacável na sequência.
Tudo está virando uma quadra de quase humilhação para Lerner que anda a fazer apelos patéticos a prefeitos do PSDB como se deu recentemente com os do litoral. É trapalhada demais para uma operação tão singela.
Um trunfo de caráter numerológico, cabalístico, está, no entanto, nas mãos de Jaime Lerner, se é que isso compensa tanta embrulhada: ele se elegeu nos 12 dias, voltando à prefeitura da Capital, carregou a mística de idêntica referência para eleger-se governador e agora vai ter uma decisão justamente no dia 12, segunda feira, conforme a Mari Tortato o demonstrou. Todavia há quem possa ver nessa constância a hipótese de o 12 se transfigurar em 13 e dar uma zebra espetacular, já que esse é claramente um número aziago para os supersticiosos.
Pergunta-se: vale a pena tanto padecimento quando há tantas ofertas como as do PFL, na qual melhor se ajustaria até porque não afastaria a desejada aliança pró FHC, a do PTB, em que ocuparia uma liderança abrangente, talvez até em densidade maior do que a desenvolvida anteriormente pelo senador José Eduardo Andrade Vieira, e também essa do PPB ? Em politica francamente Jaime Lerner está longe de figurar como aquele que ‘‘faz acontecer’’.
BIZARRICE A sequência de humilhações, vivida por Lerner e que encontrou seu ponto alto na posse de Álvaro Dias na Telepar, não terminou: agora veio uma carta das lideranças contrárias do PSDB com um tom grosseiro, digno de beira de cais, que mostra igualmente o desespero dos resistentes. A continuidade dessa novela vai dar promoção de venda de ‘‘Engov’’.
SPRAY No início da madrugada de domingo para segunda faltou um cinegrafista amador nas imediações da TV-Exclusiva para captar uma violência policial contra o cineasta Frederico Fulgraff: um fusca beje amarelado, placa JM 4735 de São Paulo, todo o jeito de ‘‘fria’’, com três ocupantes, o abordou de forma contundente e do seu interior saíram marginais pedindo documentos e batendo. - Fulgraff conta que morou no Rio de Janeiro 11 anos, andava perto das favelas e que jamais sofreu esse tipo de violência. Foi ao 3º Distrito e à Corregedoria da Polícia e ouviu o argumento de que poderiam ser marginais parecendo policiais. No caso de Diadema também era assim: para o povo, então, a dificuldade de distinguir uma coisa de outra parecia muito maior. - A técnica de abordagem leva a vítima a acreditar que eram policiais mesmo, um deles louro com cicatriz no lábio. Se uma pessoa como um cineasta, conhecido até internacionalmente, sofre esse constrangimento dá para imaginar o que se faz com gente humilde que jamais teria a coragem de procurar uma autoridade para queixar-se. - Em política tudo pode acontecer: adversário de ontem pode ser o amigo, desde criancinha, de amanhã e vice versa. Pois circulava nos meios políticos o informe de uma aproximação de Álvaro Dias do senador Requião. - Ontem Requião acionou a metralhadora giratória sobre o Banestado com informes do Banco Central, sugerindo que em letras hipotecárias, um lote delas, negociado com alguns dos envolvidos na CPI dos precatórios como Fausto Solano Pereira, teria dado um prejuízo de mais de R$ 30 milhões. No fax aos jornais diz assim: ‘‘Ninguém foi para a rua e o Governador viajou. Até quando isto ficará assim?’’. -
FOLCLORE Aposta na cidade agora é a seguinte: qual novela deixará mais traumas - a da Vale do Rio Doce ou a das indecisões do Lerner? Em ambas há leilão, mas numa delas o martelo será batido na cabeça de alguém.

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