Luiz Geraldo Mazza
A elefantíase do governo
É curioso como o flagrante de 28 secretários estaduais, num encontro sobre orçamento, revela a cegueira do governo: esse número poderia ser reduzido, tranquilamente, sem qualquer prejuízo, a um quarto. Com um dado desses, o governo ainda faz mistério sobre os descompassos financeiros: cada feudo carrega um sem-número de burocratas e explica, sem necessidade de qualquer detalhamento, a crise estadual, o saco sem fundos.
Logo no início do primeiro mandato, Lerner nomeou mais de 500 cargos comissionados, o que deu margem a muitas críticas, já que qualquer pessoa, com um mínimo de capacidade reflexiva, enxergava que a administração não tinha como gerenciar-se. O séquito de auxiliares, por sua extensão, mostra que se trata de grave desperdício e para complicar, tirando algumas pastas como as de Administração, Desenvolvimento Urbano, Habitação, Educação, Planejamento, o que há é a maior concentração de áulicos por metro quadrado. Ou melhor, metro cúbico, porque este desgoverno está há muito fazendo água.
Fica ridículo, com tal número de secretarias, alguém falar em austeridade, pois se constitui na sua óbvia contestação, um caso de metalinguagem. O status concedido a certas dependências, como se porte secretarial fosse imposição para não constranger pessoas, é a coisa mais irracional do mundo e que coloca o cupinchismo, a legião de amigos do peito, acima de qualquer outro valor.
Com uma estrutura flácida dessas, o governo encontra aí o primeiro bloqueio aos seus movimentos, e investigar a causa de toda a complicação se transforma numa obviedade. Apesar de naquele anúncio da Skol um quase clone de Lerner gritar redondo, redondo, esta administração nada tem disso, porque é gorda, ou melhor, adiposa e não há lipoaspiração que funcione para ajustá-la.
BIZARRICE
A inteligência do governo é insuperável: fez tal onda em torno de quem teria dado a primeira notícia do caso dos dólares que desfocou o assunto. Hoje se discute mais quem deu a notícia do que o fato em si. Sorvetaço na testa, vai ter recordista fora de concurso
FICÇÃO No encontro sobre o orçamento prevaleceu o clima de oba-oba, comum afinal na intimidade. Uma das esperanças de estabelecer o ajuste fiscal reside na Paranaprevidência que levou, ontem, outra bombada nas câmaras cíveis, por unanimidade, concedendo segurança contra as novas taxas. O grave aí é que o núcleo entrou no mérito da matéria em favor de oficiais PM.
GLOSA Há coisas que não saem em jornal até pelo tom agressivo: em recente campanha eleitoral, como se sugeria que um candidato a vice não era nem um pouco escrupuloso, dizia-se que era a dupla Rabo Solto e Rabo Preso. Imagine-se o que se pensava do outro, o Solto.
AXIOMA No semanário Hora H com recursos de arte gráfica fizeram montagem de uma nota de 1 dólar e ao meio a efígie de Requião com roupa de aristocrata e cabelo branco de visconde. E estamos ainda na entressafra eleitoral. Dá para imaginar o que está por vir.
Não é bem um caso de ficção, mas de legítima fissão nuclear.
SPRAY Uma derrota das mais significativas na questão da Paranaprevidência foi a de ontem no 2º Grupo de Câmaras Cíveis no TJ, na concessão unânime de mandado de segurança em favor de oficiais da reserva da PM e pensionistas contra a progressividade da alíquota. - O relator, magistrado-poeta Vanderley Rezende, acatou o pedido do coronel Eosny de Senna Maria Sobrinho e outros, e foi seguido pelos demais desembargadores. - O advogado que operou no caso foi o também poeta João Manoel de Macedo Caron, ex-procurador geral do Estado e que ganhou várias liminares. - Resultado: o governo se vê impelido a refazer todos os cálculos atuariais e ajustar-se à lei, já que com essa decisão beneficiários pagarão apenas 10% de proventos e pensões. - Isso mostra que não se resolve crise com logomaquia como a havida no Chapéu Pensador, com os 28 secretários. - Essa é uma decisão de mérito e que dribla aquela suposta exigência de todas as liminares passarem pelo crivo do Órgão Especial, hoje. - Aguardava-se, ainda ontem, a possibilidade de o ministro Sepúlveda Pertence acatar a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) do PT, no STF, sobre a mesma questão. - Uma das piores deformações políticas do Brasil aparece quase todos os dias na propaganda eleitoral dos partidos: o culto à personalidade. Assim o senador Roberto Requião fala por todo o PMDB, seu adversário José Carlos Martinez, pelo PTB, e os irmãos senadores Alvaro e Osmar, pelo PSDB. Nada de doutrina, mas tão-somente personalismo. - Por falar em PMDB, à falta de outras bandeiras, a agremiação insiste numa batalha perdida contra as multas. - Pesquisas indicam que a população apóia o que vem sendo feito. - Mas o PMDB quer discutir a legalidade da transferência a empresas privadas da fiscalização do tráfego de veículos. O deputado Nereu Moura e o vereador Paulo Salamnuni levaram o tema à apreciação do Tribunal de Contas, em audiência com o seu presidente, Kielse Crisóstomo da Silva. Querem auditoria na URBS e na Diretran de Curitiba. Pelo jeito, embora seja legítima a pretensão, teremos sinal fechado.
FOLCLORE Cícero Catani é, antes de tudo, um mancheteiro de talento. Quando na direção do Correio de Notícias, enquanto o processo da cassação de Requião tramitava, tascou o título de primeira página Futuro de Requião a Sepúlveda pertence. Alguém poderia, no aguardo da ação do PT contra a Paranaprevidência repetir a mesma sacada.
CROMO Volto a caminhar, todas as manhãs, pela ciclovia saindo da Avenida Paraná e indo até a Rádio CBN, no Cristo Rei: passarinhos, amigos, desfilam. Só está faltando a indecifrável moça que me cumprimentava, mal movendo os lábios, todas as manhãs, estranha Monalisa a deslisar ao lado da linha férrea. É possível, com tal aura de mistério, que seja apenas miragem.
AFORÍSTICO O governo quebrou o Estado e tenta o diversionismo com a história dos dólares do Requião. Quantos milhões saíram pelo ralo nos chunchos como os do Banestado?





