Quixotismo e martírio
Soube-se, dias passados, pelas agências internacionais, que uma simpática velhinha inglesa forneceu segredos que permitiram aos soviéticos montar sua bomba de hidrogêneo. Já não se olha essas coisas com fúria, porque já não temos a Guerra Fria para potencializá-las. Assim não seria, no entanto, se ainda estivéssemos sob a paixão ideológica daqueles das décadas de 50 até início da de 80. De figura afável, que fazia compotas de morango para os vizinhos, a espiã britânica seria olhada com ódio, perseguida e processada. Hoje, sob a alegação humanitária da idade avançada, a espiã é olhada com fair play.
Nos anos 50, quando o furor era incontrolável (e tínhamos o sinistro McCarthy que ‘‘enquadrou’’ muita gente como antiamericana), houve o caso do casal Rosemberg (Julius e Ethel) acusado também de transferir segredos militares para os soviéticos. Decidida a questão da pena de morte, fizemos, como era muito comum na época, uma assembléia do Centro Acadêmico para analisar o assunto: de um lado a direitona, resistindo a qualquer pedido de comutação da pena, e de outro a esquerda apostando que a luta valia a pena e que acabaríamos dando a nossa contribuição em favor do casal.
A assembléia foi uma tensão permanente: de repente, apagavam a luz para retirar o pessoal do anfiteatro: as provocações se sucediam, de lado a lado, ameaças de bomba, de cerco policial da universidade, oradores dos dois times se revezavam na tribuna, choviam questões de ordem e moções de urgência. A luta à direita era esvaziar o ‘‘quórum’’ e, de certa forma, ia conseguindo isso pelo cansaço e a desistência.
Alta madrugada, conseguimos aprovar o telegrama dirigido ao presidente dos Estados Unidos no sentido de comutar a pena. Na madrugada, sob a névoa forte de Curitiba, festejávamos a fantasia de uma vitória. E raciocinávamos: que tal se o presidente americano, prensado de todos os lados, inclusive pelo papa, libera o casal do corredor da morte? Angustiados, como se os Rosemberg fossem vizinhos, íntimos, parentes até, olhavámos aquilo como batalha-chave.
O orvalho da madrugada fria molhava nossas cabeças: éramos os últimos daquela assembléia histórica em que, uma vez mais, havíamos derrotado a direita. Na prática, o governo americano executou o casal. Para nós valeu a mobilização: imantados de ideal, magnetizados pela ideologia, apenas chegamos tarde, tanto em casa como na causa.



A MEGERA
Qual rua dos nossos tempos líricos que não tinha a sua bruxa, a megera, a velha que odiava os meninos e se dava ao requinte, em rituais quase satânicos (para nossa imaginação), de assassinar as bolas de futebol que ousadamente jogávamos na rua e, vez por outra, atingíamos as janelas? Dona Chica, coincidentemente o nome daquela que na cantiga popular, ‘‘admirou-se do berrô, do berrô, que o gato deu’’, era essa figura: um tanto quanto sadista, costumava devolver as bolas evisceradas como cadáveres maltratados e lançá-las na calçada.
Imaginávamos com suas garras de harpia, a sombra imensa projetada na parede, dando gargalhadas, enquanto se dedicava a destroçar a anatomia, a unidade do corpo desse nosso enlevo, que era a bola. As de borracha, ela simplesmente furava (‘‘furaram os olhos// do açum preto// para assim cantar melhor//’’) e as de couro, nem sempre a número cinco, retalhava como os torturadores faziam com os corpos dos bravos nas batalhas históricas.
Numa noite fomos à revanche: marcamos um encontro, como se fosse um filme de Bóris Karloff, depois da última badalada da
meia-noite nos sinos da Catedral e todos, de pijamas, para ter o álibi das mães, de que os ‘‘anjinhos, àquela hora, dormiam’’, executamos a tarefa: quebramos todas as vidraças da casa da exterminadora de bolas. E tiramos do nosso pesadelo a sua sombria ameaça. Ao menos por uma noite.



SACRAMENTO Na Igreja do Bom Jesus, a primeira comunhão: a sensação de quase vôo, a vertigem, diante da abóbada do templo, a vela à mão. Tudo volta na primeira comunhão de um dos meus netos. No fundo a mesma cantiga: ‘‘Senhor Jesus, nós crianças vos amamos//com todo o nosso pequeno coração// a recompensa, que nós esperamos, seja a nossa eterna salvação//.’’
ACALANTO Eu me debruço, crente, sob o sortilégio desse olho d’água, mais uma das milhares de nascentes: ora no campo do 5 de Maio (Praça Afonso Botelho, na frente da Arena do Atlético Paranaense), ora escondido nas gramas do campo do Paraná (Centro Cívico) ou do Poti (Praça 29 de Março), busco descobrir-lhe o mistério, a solar transparência, o fundo movediço do ponto de irrigação dessa linfa mágica. Como o selvagem que encosta o ouvido à terra, para saber quem vem vindo, sorvo lentamente a água fresca, meu refrigério, e me renovo.
Pedimos pouco, apenas a salvação, que se renova na Eucaristia.
Sobre a Eucaristia, lembro de um discurso de Munhoz da Rocha em que ele a colocava como uma forma visceral de igualdade. Será que a igualdade, meta socialista, como diz Norberto Bobbio, já que a liberdade é o pólo da direita liberal, sempre virá assim de forma alegórica?
A BANCA Exame de Geografia no Ginásio Paranaense: preside a mesa Sebastião Paraná, o especialista, e os alunos vão sendo examinados pelos dois lentes. Aí um deles pergunta: qual o rio mais importante do Estado? Sebastião, querendo ajudar, discretamente com o dedo indicador dirige-o ao peito, isso é a si próprio, de uma forma que o examinado perceba. O aluno tasca ‘‘Rio Negro’’.
O registro é folclórico e hoje seria politicamente incorreta a anedota. Fui aluno do mestre José Carlos Figueiredo, de Geografia e História, que tinha o hábito, um tique, de dizer ‘‘viu?’’, como quem pretende ser compreendido. Fazíamos concursos para ver quantos ‘‘viu’’ eram pronunciados.
O AMOR E por que não retorna, Senhor, aquele amor adolescente, não erótico, e que levava à ansiedade de um simples olhar, de descobrir significados inexistentes em cartas e bilhetes? Contemplo os meus netos e gostaria de vê-los inebriados assim, mas com a erotização de tudo, desde a pré-escola, fica bem difícil. E tome dança da bundinha em todas as tevês.

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