Prioridade 1: segurança
Curitiba e Londrina, os dois mais importantes centros urbanos do Paraná, captam, muito bem, o fato de que o setor mais vulnerável do governo Lerner, pior do que o financeiro, visível na quebra do Estado, é o da segurança. A continuar as coisas como estão chegaremos ao embotamento, por aceitarmos como natural episódios como o do linchamento em Londrina e o da execução de um preso na Delegacia de Furtos de Veículos em Curitiba, por 20 encapuzados que o então corregedor Aníbal Bassan atribuiu a policiais em ato de retaliação.
Qualquer pesquisa séria, aprofundada, identificará esse calcanhar-de-aquiles do governo. Tivesse a oposição, ao tempo da eleição, um pouco de sensibilidade e aí, sim, o governo sentiria, na medida em que viessem as denúncias, a medida da gravidade do tema que claramente subestima. A sociedade paranaense caminha para viver na paranóia, como em São Paulo e no Rio, morando em masmorras e ‘‘bunkers’’ superprotegidos (célula fotoelétrica, sistemas sofisticados de segurança), enquanto a liberdade, o exercício do direito de ir e vir, é quase um privilégio dos marginais.
A tolerância revelada nos casos de notório comprometimento entre criminosos e a estrutura policial é animada por fatos internos, também deploráveis, como a liberdade de movimentos no interior da milícia estadual do vigarista Joni Rodrigues e, mais recentemente, do caso paradigmático da compra das jaquetas coreanas. De que adianta existir um Código de Contabilidade Pública e mais a imposição de rituais do Tribunal de Contas se o governo é permeável a negócios e, pior do que isso, a certo tipo de mercadores e despreza, por método, aquele mínimo de cautelas? As patacoadas do Banco do Estado, como as havidas tanto na Leasing como na Corretora, no festival dos títulos podres, parecem ter método, tal a ausência de previsão tão primária.
Pior, portanto, do que a questão financeira, que sufoca a administração, o governo tem que enxergar essa obviedade: os níveis de insegurança a que chegamos são da responsabilidade direta do governador Jaime Lerner e que se revela perplexo, inerte, como se estivesse à espera de um milagre e que mostrasse que isso tudo que está acontecendo é tão-somente um pesadelo. E que na próxima viagem ao exterior estivesse afastado como algo volatilizável.



AXIOMA Se há algo que irrita a política municipal de Curitiba é lembrar que o bondinho da Rua das Flores não é nosso, mas santista. Numa discussão com o então prefeito Lerner, quando se pretendeu botar mais um café no Calçadão, sugeri que se o fizesse em lugar do bondinho, de discutível utilidade, o que era uma provocação suficiente para levar o ‘‘staff’’ quase à apoplexia. Com a recuperação do bonde Birney, historiadores estão reivindicando que seria mais correto colocá-lo em lugar da peça de origem santista.
GLOSA Agora os ressentidos da derrota eleitoral na Comissão Executiva da Assembléia Legislativa andam com a mania de descobrir ligações perigosas do deputado Nelson Justus, uma delas, societária, com o ex-ditador Stroessner, do Paraguai. Se suposição valesse há também aquela acusação de que um político da moda teria sido um dos cabeças do ‘‘Clube dos Sessenta’’. Suposição nem sempre é supositório, mas se for utilizada a três por dois poucos se salvam.
SPRAY O senador Roberto Requião voltou com toda a força para tentar aquilo que não é fácil: alavancar o PMDB num momento em que o partido nacionalmente, em maioria, está com o governo federal que o líder paranaense ataca. - O sonho possível, colocado no ‘‘diálogo’’ como utopia mais próxima, em que pese a veemência do peemedebista é algo que tem se revelado desastroso: anteriormente também, ao tempo dos atritos com Orestes Quércia, o PMDB regional se isolou da direção nacional e se deu mal. - Hoje os quercistas estão unidos a Requião, mas sem ‘‘punch’’ por causa dos pífios créditos eleitorais obtidos. O senador não é dado a partilhar espaços e como hesita em assumir a candidatura prefeitural (isso tira o sono do lernerismo) e não libera a moita, leva o deputado federal Gustavo Fruet à impaciência, já que está sendo pressionado, por seus aliados, a disputar a sucessão de Taniguchi. - Gustavo tem proposta do PSDB e pode até sair candidato a vice de Cassio, conforme uma versão corrente e que muito tem de estapafúrdia. Há um limite para o grupo dominante: se Cassio se reelegesse seria também, necessariamente, até por falta de nomes fortes, um candidato à sucessão de Lerner e isso, obviamente, não interessaria a Alvaro Dias, cuja obstinação em voltar é visível. - Entre Alvaro e Requião, para a turma de Jaime Lerner, toda opção é ruim: nem Lerner aprontou para Requião o que Alvaro fez com Richa. O terreno é minado e a compulsão para aparecer como moralista sobrepuja qualquer razão fundada em acordo.
FOLCLORE Nos tempos do bonde havia mais bolina, o passageiro que tentava mexer com as mulheres, tocando-lhes os corpos, do que batedores de carteira. Volta e meia a gente ouvia uma senhora irada, sombrinha à mão, denunciando o ‘‘bolina’’ , enquanto o cara se mandava com a máquina em movimento para não ser apanhado. Hoje há uma espécie de acumulação de cargos: o bolina pode ser o batedor de carteira e vice-versa.
CROMO ‘‘Naqueles olhos onde os astros moram// Trocando o céu que têm por céu mais belo,// A sombra negra da paixão de Otelo// Passa rugindo com um punhal na mão.’’ De Luiz Delfino, no tempo em que a métrica disciplinava a inspiração.
AFORÍSTICO A pobreza de quadros está aí: vejam os nomes cogitáveis tanto para a Prefeitura de Curitiba, como para o governo.

mockup