Luiz Geraldo Mazza
Voltar para ficar?
Como Roberto Carlos em seu sucesso, Jaime Lerner pode, ao descer do avião pela quinquagésima vez, anunciar que voltou, voltou para ficar e que aqui é o seu lugar. Dizem os oposicionistas, sempre suspeitos em suas opiniões, que ele diz o mesmo quando retorna a Nova York ou Paris, escalada futura e permanente de sua carreira, pela simples impossibilidade, depois de sua obra, de andar em calma pelas ruas de Curitiba. A meu ver, sentença igualmente oposicionista, já que o nosso governador é aqui um mito da elite como Maria Bueno é dos pobres.
Se Lerner não fosse ilhado pelos áulicos e não tomasse aí vigorosas massagens no ego, poderia fazer um exercício singelo de autocrítica. Como é um viajante compulsivo, deve ter percebido que a cada seu retorno, como se dá com a gente, quando se vai à praia, fica mais nítido que nada acontece de novo. Isso poderia levá-lo à filosofia do cinismo fundada no conceito de que como nada muda, pouco importa ficar ou sair, daí a escolha pelo mais prazeroso.
Como alguém precisa sugerir movimento, mesmo que lembre biruta de aeroporto, ele determinou aos secretários do Governo e da Fazenda, Campêlo Filho e Giovani Gionédis, que façam o gênero delírio ambulatório, de chapéu na mão, como convém ao estado de pobreza, percorrendo repartições federais para convencê-las de aprovar a percepção antecipada dos royalties de Itaipu. Nada define mais esse governo do que esse desespero tardio para consertar os rombos que praticou na maior euforia, enquanto brincava com os Jogos da Natureza, os centros de excelência e a Universidade do Esporte (já viram quanto isso custa para o governo falido que quebra banco, o sistema de saúde e de previdência?), o viajar, enfim, na maionese.
BIZARRICE
Só resta, na hipótese de tudo continuar como está, alguém receber o governador no aeroporto com uma faixa Go Home, em linguagem familiar.
AXIOMA O poder tem razões esdrúxulas: acham, no Palácio Iguaçu, uma perfídia inominável (e até dedurismo) contarem que um dos homens da hierarquia da Comunicação Social escreve, sob pseudônimo, uma coluna Primeira Mão para jornais do interior. A subvenção, convenhamos, é sórdida, mas menos indigna.
GLOSA Discutia-se na PUC o tema Sistemas Penais Alternativos no Estado Democrático. Faz-se agora uma ironia nos meios acadêmicos se o caso do juiz Leopoldino Marques, aquele que entregou os desembargadores de MS, não estaria enquadrado nas reflexões da temática?
EPIGRAMA Quem está sub judice é o Jacob Mehl, presidente do Coxa, em pendência com herdeiros de François Abid, de Irati, proprietários da Estância Dorizon. Sobre as águas, diz o juiz anarquista Elísio Marques, que apesar de a Velha haver morrido, o cheiro do pum ficou.
LIGAÇÕES As ligações da Prefeitura de Curitiba com o cartel dos transportes, que já foram chamadas de perigosas pelo ex-governador Requião, continuam afáveis: o bonde Birney, doado pela família Slaviero em 1990 (e abandonado), ia dar margem a uma investigação na Câmara Municipal pela ação obstinada do jornalista Cândido Gomes Chagas quando o sindicato se dispôs a restaurar o equipamento. Vai ser colocado atrás do Museu Paranaense como sua extensão quando deveria, ao certo, ficar em lugar do bondinho ocioso da Rua das Flores e que é de Santos e não de Curitiba. O time do poder vai ao desespero quando se fala nisso porque é ícone de Lerner.
SPRAY A burguesia luminosa de Curitiba agora deu de se mostrar permeável às esquerdas e suas variadas e paradoxais representações: Gláucio Geara tem recebido o líder das oposições brasileiras (que só garante a vitória do outro lado), Lula, em jantares. - Agora aconteceu o mesmo com a passagem meteórica do Ciro Gomes, um Collor com filtro, um Alvaro Dias com PhD, que está no mimético PPS. Já se fala em Geara para prefeito. Dentre os conselheiros do PPS, gente boa como Nelson Maculan e Amauri Silva. - Impressionante o deslumbre do público mais adequado à Ilha de Caras do que a um aparelho, hoje alegórico, do PPS nesses encontros, vendo no Ciro um jeitinho daquele Afif que empolgou a praça. - Porto União (SC), deu ao Paraná o Aníbal Khury e também o hoje presidente do Banestado, Reinhold Stephanes. Já demos um governador a Santa Catarina, o parnanguara Jorge Lacerda (morreu na tragédia aérea junto com o senador Nereu Ramos e o deputado federal Leoberto Leal) e tivemos por aqui o Jucundino Furtado, secretário de Estado, presidente do Banestado (criador da agência de Nova York e do Del Parana) e Ocyron Cunha, reitor da Federal, ambos catarinas, isso sem falar no que se mantém na crista da onda, o blumenauense Karlos Rischbieter, e o Mário Pereira, que chegou a governador. - O governo vai matar o turismo no litoral: Guaratuba não teve um só reforço policial no feriadão. Ficou com efetivo para atender 30 mil pessoas, quando havia mais de 300 mil. Resultado: racha na madrugada, som alto e insuportável, droga e baderna, nada mais. Associação Comercial, que já anda irritada com as promessas não cumpridas de empregos industriais, está protestando. A de lá, é claro. - Não bastassem essas coisas para atrapalhar o turismo litorâneo, o secretário de Comunicação, Cultura e Turismo de Antonina, jornalista Alberto Melo Viana, condena iniciativa de um grupo que promove um encontro naquela cidade de ecoturismo e que visa três municípios e não os sete que, afinal, têm suas identidades e afinidades. E revela que a iniciativa é desconhecida da prefeitura e do Conselho de Turismo.
FOLCLORE Num dos feriados fui pescar, com meu neto, o Leonardo, em Porto Amazonas. Rio baixo, vazão reduzida, margens íngremes. Apesar do meu tênis superapropriado para áreas acidentadas, levei dois escorregões, e no segundo ele fez o comentário: Para o vô esse é um esporte super-radical. Agora até que nem tanto, pois poucas vezes caio no rio.
CROMO O fim do mundo: uma carantonha rasga o céu para enunciá-lo. Era pesadelo que um dia decodifiquei: a babá, na cadeira de balanço, fazia-me dormir e apontava para uma figura diabólica de carro alegórico de Carnaval que meu avô usara como tapagem de um alçapão que havia no sótão em Paranaguá. Misture-se tudo isso com o ambiente místico de ex-morada de padres e a trama está pronta.





