Luiz Geraldo Mazza
O teste petroleiro
Mal o governo de FHC se saiu da enrascada criada pelas formulações acadêmicas de Clóvis Carvalho em choque com Malan, amaciada com a nomeação de Tápias, que também não agradou a base aliada por falta de consultas, tivemos a sequência de desafios com gritos dos excluídos em várias regiões do País, o maior deles em Aparecida, puxado pela Igreja, hoje uma força de oposição próxima daquela que exercia contra o regime militar.
Está claro que o governo detém capacidade de iniciativa como o demonstrou ao lançar o seu plano de realizações, considerado inconsistente pela maioria dos analistas, mas ficou demonstrado que é forte ainda nas articulações populistas como a exercida relativamente aos postos de gasolina, a pretexto de manter os empregos. É nessa direção que empreenderá os seus esforços para recuperar suas taxas de credibilidade, ainda em queda apesar da melhora, ainda reduzida, no nível de emprego.
E foi no azáfama das comemorações cívicas da Independência que petroleiros voltaram à carga, apesar da humilhação sofrida no último confronto em que o governo os isolou e ainda por cima jogou a opinião pública, isso de forma clara, contra os manifestantes. Hoje, porém, FHC não está com bala na agulha como na época da prolongada greve: as manifestações dos dias 6 e 7 mostraram que de repente a parede pode emplacar, apesar da recessão e do receio de punições sindicais e demissões, como se deu nas anteriores.
Não é difícil quebrar a inércia desse processo: o presidente da República já não ostenta apoio popular. Mas até aqui a oposição tem se mostrado frágil ao apelar para o velho cacoete das esquerdas primárias, o do golpismo. Claro que o PT, o maior e mais sério partido de oposição, não embarcou nessa aventura, mas assumiu os ônus dessa idéia insana por ter feito frente comum com a banda dos nanicos na passeata dos 100 mil, que mal chegaram a 40% disso.
Até os políticos do campanário se manifestaram: o senador Alvaro Dias, que hoje como ontem, tenta posar de independente, pregou o fim do Ministério do Desenvolvimento no que, aliás, está certíssimo, já que o enunciado da pasta é incabível num governo que deu a Malan a hegemonia do sistema para ser o mais qualificado e capataz das orientações do FMI.
A oposição tem um calendário de manifestações para aprofundar o desgaste de FHC e a este só há um caminho: o de oferecer resposta a essa acumulação de energia, mesmo que através de coisas alegóricas como o pleno emprego na área dos postos de gasolina, o que é demagógico e contra a modernidade de que tanto se ufana o poder ora empolgado com o neoliberalismo e o consenso de Washington.
GLOSA
O apoio mais importante que FHC recebeu nos últimos tempos foi do atacante Romário e em seguida o de Pelé
BIZARRICE Em anúncios de televisão, em que Osmar Dias aparece com novo visual, o PSDB do Paraná pinta de independente, isto é, não quer os ônus, já que não tem os bônus de ser governo. Mas a história de Alvaro Dias não é de extrema fidelidade: quando no PMDB, concorreu à Presidência, ficou em último lugar e a dupla recusou-se a apoiar Ulysses Guimarães, a que eticamente se obrigara. O mesmo que Requião fez: disputou prévias presidenciais, levou um baile de Orestes Quércia e obviamente não o apoiou.
AXIOMA ACM deu prazo de quatro meses para que o governo mostre resultados da política econômica. Como se vê, a cada momento pinta um novo anti-Malan. E dentro em pouco serão tantos que, ou o governo muda a equipe e a direção da economia, ou fica isolado.
EPIGRAMA Como Lerner viaja ao exterior seis vezes por ano, ainda teremos mais 18. Afinal, aqui ou lá fora é a mesma coisa: não decide coisa alguma, afora a ânsia de leiloar o patrimônio público, obra de mais de uma geração, queimado para salvar a sua pele.
SPRAY O acidente com os barcos no Rio Iguaçu não chega a ser uma reedição do Bateau Mouche, porém seus efeitos, na imagem e no campo jurídico, podem ser parecidos. - É preciso lançar água benta em nosso maior atrativo turístico internacional: as esperanças criadas com a picaretagem dos Jogos Mundiais da Natureza para promover a Costa Oeste se frustraram, pois tem gente que até hoje não foi paga pelos serviços prestados, tal qual se deu, muito tempo, com os hoteleiros locais, submetidos à humilhação. - Instalações dos jogos degradaram, e em apenas dois municípios se faz um trabalho de manutenção de equipamentos que, aliás, deveriam estar sendo usados regularmente. - Piadinha mórbida sempre aparece em função de desgraça: estão chamando o passeio Macuco Safári, em Foz, de Maluco Safári. - O Hospital Angelina Caron, de Campina Grande do Sul, vai se transformar em área de excelência em radioterapia e radiocirurgia, o primeiro da Região Sul do Brasil, no próximo dia 20. - De 21 a 23, no Clube dos Operários de Antonina, haverá o 1º Encontro dos Portais (Antonina, Morretes, Guaraqueçaba) do Ecoturismo do Litoral. E Paranaguá, Matinhos, Pontal, Guaratuba não contam?
FOLCLORE Carlos Lacerda era incrível na rapidez com que demolia adversários da tribuna parlamentar: um dia um governista, estranhando suas denúncias que tinham um enredo de drama policial, o comparou a Sherlock Holmes e ele mandou brasa, elementar, meu caro Watson. Cruel nas caricaturas, disse que o senador Napoleão Alencastro tinha a elegância de um senador romano e a mente de um Primo Carnera, lutador de box meio tongo e que conseguiu ser campeão.
CROMO Olho nos olhos da Lucy fizemos ontem quarenta e quatro anos de casamento e neles vejo refletido tudo o que o código do amor pode revelar.
AFORÍSTICO Se o PSDB deu o mesmo prazo de ACM para que o governo acerte a economia quatro meses vemos que não é só a oposição que se mexe e o tucanato age em legítima defesa, pois no ano que vem há eleições.





