Luiz Geraldo Mazza
Tertúlias também derrubam
A discussão sobre estabilização e desenvolvimento, como se fossem pólos de uma dialética, decorrentes de um processo dicotômico, é de fato retórica no dizer acertado do presidente FHC. Só que na peteca do debate acadêmico entre o Clóvis Carvalho e Pedro Malan sobrou o tacape para o primeiro.
Como vivemos na sociedade do espetáculo, conforme a descrição perfeita de Guy DEbord, recentemente revisitado pelos intelectuais de esquerda, deram a deixa para que o megapatriarca, ou que pelo menos posa como tal, Antonio Carlos Magalhães, presidente do Senado, interviesse nesses jogos florais e afirmasse que Malan tem três, ou no máximo, quatro meses para flexibilizar a economia, vale dizer retirá-la da inércia em que se encontra, traduzida no desconforto da recessão e da lentidão de métodos para superá-la.
Cada hora aparece um defensor da aceleração da economia se contrapondo aos monetaristas de Malan. Antes foi o Mendonça de Barros, depois de haver feito muitas façanhas, inclusive no processo de privatização das teles. Como se vê, não é fácil definir com clareza quem está nessa ou em outra posição, posto que tenha ficado visível o sentido pragmático das ações de Barros, independente dos grampos e dos esforços para direcionar os leilões.
Assim, dá para concluir que tertúlias acadêmicas, conforme o tom que venham assumir, podem derrubar com mais eficácia do que o produto de gravações. Há um tom metafísico nessa dicotomia estabilidade-desenvolvimento, como aquela história sobre quem nasceu antes, se o ovo ou a galinha. A preocupação em manter a estabilidade, que é imposição externa do receituário manjado do FMI, leva ao extremo da paranóia com o pânico que o ministro Pedro Malan tem daquilo que chama de bolha de desenvolvimento.
Ora, o estágio da economia indica sutis sinais não propriamente de recuperação, mas de bloqueio em alguns registros do desemprego. Se o processo de acomodação se der nesse ritmo, embora haja condições para FHC recuperar também a credibilidade aos poucos, é possível que o esforço cumulativo da oposição em minar o governo passe a ter mais apoios. Há razão, portanto, no que diz ACM, cuja intervenção reclama saídas bem práticas e políticas que vão muito além das ponderações acadêmicas e epistemológicas de praxe.
AXIOMA
Responda, rápido: quem faz mais falta na política paranaense: Aníbal, que morreu, ou o Jaime Lerner, que viajou de novo?
BIZARRICE No tempo de Vargas, o patriotismo era uma camisa-de-força, induzido, sendo que em setembro tínhamos dois grandes desfiles, o do dia 4, Dia da Raça, e o do dia 7, da Independência. Mesmo sob a ditadura, num desses desfiles a banda do Ginásio Paranaense, que tinha entre os seus regentes Elias Zanlut, o Cebola, bem na frente do pavilhão das autoridades, tocou o ritmo da moda, a conga, e o estudantado acompanhava com o corpo as batidas. Um jornal atacou os estudantes, com alguma razão, e quase foi empastelado.
GLOSA Rafael Greca nas revistas nacionais: na IstoÉ, sugere-se que pretende fazer de sua esposa, Margarita, a prefeita de Curitiba; na Veja estaria comprometido com os bingueiros. Se some não é esquecido e se aparece acaba levando ferro.
SPRAY Oposicionistas superestimam o governo quando acreditam que o staff palaciano estaria, nesses feriados, estudando as bases do depoimento que o maxi-secretário Giovani Gionédis, da Fazenda, fará no Legislativo a respeito da situação financeira do Paraná. - Em primeiro lugar, esse governo nada teme, basta ver o ocorrido no Banestado, onde inclusive promoveu o autor das irregularidades da Leasing a secretário de Estado, com o que ratificou no plano moral a sua atuação. - A certeza e a segurança da impunidade se fundam na mecânica que opera no Legislativo e que não foi em nada alterada com mudanças lá ocorridas. - Numa inquirição bem-feita e a oposição, convenhamos, é meio fraca no assunto o secretário da Fazenda é facilmente colocado em sinuca. Não há como justificar os mais de R$ 13 bilhões de endividamento do Paraná. Feita a analogia com gestões anteriores, o ônus é muito grande para a situação atual. - Quem deve estudar não é o governo, mas sim a oposição, e saber, antes de tudo, os gravames alternativos para resolver a crise financeira, não dando saída para o titular fazendário que já se definiu que se não passar essa pouca vergonha da antecipação dos royalties tenta vender a Copel a toque de caixa, mesmo que o momento seja o menos indicado por um mercado oprimido pela questão cambial e que levaria matematicamente à desvalorização daquele ativo. - Rafael Greca vai sair pior nessa batalha dos bingos do que na dos rodeios: naquela levou um banho da cantora Rita Lee, que, travestida de Brigite Bardot, defendeu os touros contra as torturas, mas se tratava de assunto discutível; já na questão dos bingos, Greca foi apanhado em mentira ao dizer que em sua gestão foram liberados três pedidos quando as autorizações chegaram a 98. Juca Kfouri o demoliu e agora tudo ficou agravado com a reportagem da Veja. - Acusação de que fazia caixinha é uma presunção. Não devemos esquecer que fizeram algo bem mais grave com Alceni Guerra e na gestão Collor e nada se provou.
FOLCLORE O senador Alvaro Dias está propagando o seu projeto de baixar custos dos legislativos nacional, estaduais e municipais. Mas não deixa por menos: nada de diminuir a sua presença, com aquela voz de ator de novela, na TV.
CROMO Meu nome// é fonte//do teu segredo// âmbar de lingerie// ela finge que dorme// e ri// Mais um poema de Nelson Capucho em Vampiro como um flash no escuro.
AFORÍSTICO O Flamengo proibiu Romário de botar propaganda política na camisa debaixo do uniforme. É que no jogo contra o Botafogo, em Ribeirão Preto, ele fez manifestação favorável a Fernando Henrique Cardoso. Que tal se o Romário faz beicinho e exige em troca de gols as suas mensagens?
METALINGUAGEM Se o governo nomeia Tápias para o Ministério não se trata de uma revelação redundante?





