A independência formal
Nunca esteve tão presente a necessidade de identificar o interesse nacional como agora, no fulgor de uma ordem cosmopolita e lastreada por uma filosofia, tida como final, em seu fundamentalismo globalizante e neoliberal. E justamente quando se formam os blocos mundiais, tudo em função de mercados, como se dá no Nafta, na comunidade européia (em que se busca até a moeda comum) e aqui na periferia do mundo desenvolvido com o Mercosul.
A esse alinhamento geopolítico houve a atomização de países como a Iugoslávia dividida em pequenas nações, sob fundamentos étnicos, como ocorreu também com a ficcionista União Soviética e com a Tchecoslováquia. Essa erupção chauvinista se dá na contramão desse processo. Mesmo um dos integrantes do Nafta, o Canadá, vive sob tensão quanto à construção de uma representação francesa que levou Charles De Gaulle, nos anos 60, à proclamação ‘‘Quebec livre’’.
Comemoramos a Independência quando mais nítida se torna a nossa submissão aos regramentos do FMI e que vão muito além de um ataque à soberania pelo fato muito simples de essa ingerência chegar ao processo legislativo e derrogar a ordem jurídica, sepultando direitos adquiridos como se fosse moeda de troca da nossa dívida sabidamente impagável, como declarou o economista John Galbraith, que não é submisso aos transbordamentos hegemônicos do seu país. Além da entrega e da deserção, ainda pagamos religiosamente a dívida e embarcamos numa obediência de escravo diante do senhor.
Em muitos aspectos, pelo menos em determinadas circunstâncias históricas, não foram poucos os exemplos de que a monarquia reagiu à pressão da Matriz: além da manifestação às margens do Ipiranga tivemos, por exemplo, mostras de senso concreto de soberania quando os dirigentes do Brasil não admitiram a vinda de tropas portuguesas para reprimir movimentos nativistas. Ainda em 1964, todos se recordam da coincidência da frota norte-americana no litoral pernambucano a pretexto de dar cobertura a cidadãos ianques.
Da mesma forma que desenvolvimento não pode ser apenas social (Cuba) ou econômico (Brasil), mas deve necessariamente atender aos dois pólos, também a independência, se for apenas política e formal tenderá a transformar-se num mimetismo de si mesmo, como se dá com o Brasil e que foi tema de obra de FHC, que ele recomenda na teoria e na prática.



AFORÍSTICO
O dinheiro que sumiu na fraude e na incompetência, se voltasse a aparecer, salvaria a Copel e os royalties de Itaipu: tiraria o riso de muitos

BIZARRICE Discutia-se ontem, na Rádio CBN, se há ou não patriotismo, assunto logo transformado em pesquisa. Aí minha nora, Eliane, telefonou para me relatar a última façana do Ângelo Antonio, meu neto mais novo de 3 aninhos, no Colégio Expoente: a professora falou nas celebrações da Independência, nos símbolos nacionais e explicou que todos devem respeitar o canto do Hino Nacional. O Ângelo, normalmente um peralta, ficou tão impregnado com o apelo da mestra que mais parecia um soldadinho de chumbo, tamanha a concentração, rígido como uma estátua, o que levou educadores ao riso, em meio ao entoar do virandum. Está aí: cantar o hino sem perder a ternura jamais.
AXIOMA Em menos de 5 anos, Lerner empreendeu trinta viagens ao exterior, média de seis por ano, o que o transforma numa reedição caricatural do Marco Polo. Sua assessoria faz ginástica para inventar utilidades nessas viagens. Ela está treinada em justificar o não fazer acontecer, inclusive o sumiço do Tesouro, que não se sabe por qual ralo escoou.
GLOSA ‘‘O que é maior quanto menos se vê?’’ A escuridão. Ou então essa estória da coluna ‘‘Primeira Mão’’, elabortada (soma de elaborada com abortada) no Palácio Iguaçu, que quanto mais escondida melhor se enxerga. Se feita no Palácio não é sequer de segunda mão, mas de terceira, quarta.
SPRAY Algumas pesquisas particulares, segundo se anuncia, teriam levado o senador Requião à convicção de que o melhor papel, que lhe cabe neste momento, é o de concorrer à eleição de prefeito da capital. - Embora o risco que corre, que não é pequeno, de testar um grupamento que o derrotou para o governo, ele acha que vale a pena porque desta feita não seria caudatário de ninguém, como se deu na vitória de 85 e que deve em maior parte ao governador José Richa. - Um perito em pesquisa, que já operou no Ibope, teria procedido essas avaliações que encorajaram o senador por haverem detectado os pontos mais frágeis da gestão Taniguchi, dentre eles o da segurança, o da ecologia (‘‘tragam os sais’’, reclamara um dos áulicos de Lerner ao saber disso), degradação urbana. - Um dos sinais fortes seria o senador acentuar que qualquer tentativa de retomada do poder pelo PMDB passa pela reconquista da Grande Curitiba e que hoje revela que Requião detém melhores condições de disputa do que há um ano. - Desde o início da atual fase de proselitismo para ampliar os quadros do PMDB, o ‘‘staff’’ de assessoramento superior defendia essa tese, achando inútil botar na parada um dos irmãos Maurício e Eduardo. Entre os que se alinhavam nessa posição estavam Doático Santos, agitador de rua, e José Maria Correa, seu lugar-tenente, articulador de gabinete. - Um dos tons fortes da campanha será de ordem moral para mostrar a quebra do Paraná por Lerner e a degradação também em Curitiba, especialmente em chunchos imobiliários para montadoras. - O timbre heróico virá pelo fato de o senador colocar em risco sua carreira, já que enfrentará os governos municipal, estadual e federal, o que lhe conferirá uma aura de justiceiro, de alguém que se doa por uma causa libertadora.
FOLCLORE Alvaro Dias mandou desmentir aos jornais que seu irmão, Osmar Dias, tivesse sugerido veto à antecipação dos royalties. Osmar confirmou e Alvaro, pelo jeito, ainda está às voltas com o acordo branco, obscuro para o povo.
CROMO Na paisagem crestada pelo fogo, um sinal de primitivismo das nossas práticas agrícolas.

mockup