Luiz Geraldo Mazza
Os irreverentes
Fernando Pessoa Ferreira, poeta pernambucano que ganhou o Prêmio Fábio Prado, veio para Curitiba nos anos 50 com uma carta de recomendação do sociólogo Gilberto Freire para o seu colega Munhoz da Rocha, governador do Paraná. Bento o encaminhou para o jornal O Estado do Paraná, que surgira para cobrir o seu governo.
Para o espírito irrequieto do Fernando deram uma tarefa terrível como rotina exasperante: verter para o português a coluna Coma e emagreça, de uma colunista internacional. Poucos punham os olhos naquela seção do jornal, mas a esposa de um dos sócios, José Luiz Guerra Rego, foi notando os absurdos.
O tradutor este um legítimo traidor tirava sarro, ao mesmo tempo, das consultas e das respostas. Uma das cartas dizia assim: Tenho 1m20 e peso 100 quilos, o que fazer?. Lá vinha a resposta: o seu caso é de elefantíase. E indicava um exercício articular impossível: o corpo vergado, a mão direita tocando no pé esquerdo e a esquerda no pé direito, enfim um polvo. Aí vinha o alertamento: Se alguém se surpreender com a sua posição não estranhe porque o reino dos céus é dos ingênuos...
Um dia, o Fernando e o fotógrafo Romário Amódio aprontaram uma: simularam um disco-voador passando por Curitiba. Incrível é que até agências nacionais e internacionais se preocuparam com o absurdo, embora o texto fosse pérfido: Estávamos eu e o Romário caçando lagostas num bueiro da Rua 24 de Maio quando tivemos a atenção despertada para uma galinha que remexia os buracos na calçada... Depois de explicar que a referência era para dar cor local à estória, passava a descrever as evoluções do disco-voador.
O último feito de Fernando, já fora de Curitiba, foi escrever um texto para o Livro de Cabeceira do Homem, que trata a capital com extrema crueldade ao sugerir que o sufixo Ritiba quer dizer do mundo e fala da cidade onde Jânio Quadros comia moscas.
FUNDAMENTO BOÊMIO
Era uma característica obrigatória desse tempo, lá pelos anos 50, encenar, fazer blague como se estivéssemos todos tentando reproduzir Emílio de Menezes, Paula Nei. A maior parte dos jornalistas trabalhava no governo de dia e à noite ia para as redações viver o lúdico, o teatral e depois mergulhar na madrugada, até porque as edições fechavam tarde demais.
NOVIDADE No Diário do Paraná, que foi o jornal que modernizou a área e fixou as bases mais profissionais, havia curtidores como o argentino Benjamin Steiner, um dos primeiros diagramadores da imprensa regional, que era um ator refinado e voltado para o deboche. Cercavam a sua mesa de trabalho e o olhavam, como se fosse um ET.
Numa dessas situações, ele simulou estar com um ataque de apoplexia, em que se afogava, o rosto vermelho, respiração em estertor. Como quem se livra de um corpo estranho tirou lá de sua garganta profunda uma calcinha mimosa de mulher, novidade absoluta na praça.
O GUAÍRA No governo Ney Braga, Fernando Pessoa foi nomeado para o Teatro Guaíra. Abriu um bom período de realizações na área, mas queria, por toda a força, sugerir um plano de simplificação do grande auditório, não dando a menor bola para o fato de que o projeto era do arquiteto Rubens Meister e nada se poderia fazer sem a sua autorização. Fernando entrou em polêmica, de traço abusado, com o arquiteto, e apontou entre as sofisticações da proposta a baia de elefante que havia sido imaginada para a encenação da ópera Aída, a que chamava de apartamento de paquiderme.
Por sinal que há uma história inesquecível do Guaíra quando Bento resolveu, anos antes, fazer uma pré-inauguração com um concerto da Sinfônica Brasileira, regida pelo maestro Eleazar de Carvalho e a solista Joci, sua então esposa, ao piano. O povão dos bairros de Curitiba invadiu em massa aquele templo de cultura e estourava pacotes de pipocas ou pisava em cascas de amendoim nos rudes e improvisados bancos em que se sentavam. O maestro, que não era do gênero populista como Karabichevski, tentou ser didático com a patuléia e acabou contribuindo para o happening: enquanto falava, sua cabeça era cingida por aviões de papel jornal em manobras nervosas.
VAN GOGH O quadro Arlesiana, de Van Gogh, do Museu de Arte de São Paulo, era a atração de um evento. Burguesas passavam perto do quadro e não entendiam o fascínio. Uma delas vira-se para o marido e pergunta: Van Gogh é nome ou um pseudônimo? Fernando Pessoa, esgueirando-se entre o casal, arrematou: É isso mesmo: um pseudônimo. O nome é Kirk Douglas. Nessa época passava o filme Van Gogh em que Kirk fazia o papel do pintor e o Gauguin era, nada mais nada menos, o simpático Anthony Quinn.
LONGA NOITE Nelson Matulevicius, pintor e escultor, que só trabalha quando está muito disposto, chega na pensão dos amigos, todos artistas, e deita numa das camas e mergulha num sono ferrado. Um amigo pinta de preto o vidro das janelas e Nelson acordava e via que era noite e continuava dormindo. Consta que fez uma hibernação de três dias.
UMA LIÇÃO Estávamos, tarde da noite, no Café Paratodos: salvávamos o mundo e o País em arengas intermináveis, regadas a pingado com Carlos Cavaco, sanduíche com queijo e presunto levados ao forno. De repente, pinta um homem com ar desesperado e pede trocados porque seu filho morrera. Todos demos algum, mas já encarávamos o fato como um golpe a mais dos vivaldinos da madrugada que apelam ao melodrama para esmolar. Lá pelas 2 da manhã ele, o homem que pedira, passa, carregando o filho às costas, como um novo Sísifo.
ESCAMBO Mais ou menos encabulados, trocávamos poesias ou contos por novelas e crônicas na porta do café. Poucos rompiam o circuito fechado de leitores para o suposto grande público. Alguns chegaram a produzir livros, como Geroldo Hauer, hoje voltado apenas para a advocacia fiscal, e cuja produção Primeiro Aceno foi saudada, com a seriedade costumeira, por Wilson Martins, já aquele tempo um dos mais rigorosos críticos brasileiros. Advocacia, jornalismo e comércio absorveram os artistas. Parece, no entanto, que vez por outra a centelha desse tempo os reanima.





