A propósito da política e especialmente dessa questão novelesca da saída de Lerner do PDT para o PSDB, como deseja o presidente FHC, ou para o PFL, como pretendem os antigos arenistas para retomar a hegemonia perdida (dia 5 o Jorge Bornhausen estará por aí e o momento seria bem aproveitado), há quem insista em ver no caso a semelhança com uma efabulação anedótica do porco e do cavalo nessa guerra por espaços protagonizada pelos dois disputantes da última eleição para governador.
Havia um cavalo trabalhador, explorado ao máximo pelo patrão, que com ele operava por mais de 14 horas seguidas: um sofrimento atroz em troca da ração, um pouco de pasto e, sobretudo, da água que precisava beber nos momentos mais agudos das faina. Já de manhãzinha lhe colocavam os arreios para correr o campo, levar cargas e nesse instante o passavam para a carroça e assim por diante. Ao chegar na cocheira, tinha inveja em ver o porco saudável curtindo a melhor das preguiças, dormindo no chão e exibindo sua pele rosa, de bicho de raça e bem tratado.
Um dia começou a ficar arrasado com aquela rotina de esforço físico e ao aproximar-se da cocheira, no retorno dos padecimentos, puxou um papo com o leitão ensinado a evitar a lama. E o suíno, tomado por um sentimento forte de piedade pela situação do cavalo, lhe deu uma dica sábia: ‘‘Quando vierem lhe colocar os arreios, finja de saída que está mancando, que algo doloroso lhe impede os movimentos.’’
Dia seguinte não deu outra coisa: o dono do sítio foi pegar o cavalo e viu que mancava. Como à primeira vista não descobriu a causa, chamou a mulher e disse que o animal iria descansar. A mulher, muito observadora, lembrou que já que não sairia para o trabalho, poderia ajudá-la numa tarefa: ‘‘Matar o porco logo, porque estava no ponto para o abate.’’ Quem nasce para um assado do padrão pururuca nunca chega a reprodutor.
A lenda está aí e fica, subjetivamente, a cargo dos interessados em enquadrá-la no rigor da realidade, vendo quem faz o papel de qual animal e descobrir nessa curiosa fábula qual o seu fundo moral. Se é que em política há esse fundo.
BIZARRICEQuando o agito em defesa da Vale do Rio Doce, na terça-feira, estava perdendo energia, eis que pintam no calçadão da Boca Maldita duas mulheres de boate praticamente peladas, que imediatamente mobilizaram mais do que os discursos e palavras de ordem. Em compensação, a repressão ficou só para elas que foram enquadradas e estão sujeitas à prisão. A nudez da Vale que se comprometeu com a Merril Lynch, avaliadora, que tem vínculo com compradores, não foi punida, embora muito mais pornográfica.
SPRAYPelo jeito, querem ‘‘limpar’’ a pauta das auditorias militares com medo de que a nova legislação retire de sua competência vários delitos que passariam à Justiça comum. - Foi surpreendente, por exemplo, a rapidez do julgamento do caso do pastor morto em Ibiporã, no qual foram absolvidos os quatro militares num entendimento diverso ao da Polícia Civil. - O deputado e jurista Hélio Bicudo, com sua experiência de Ministério Público, disse que nesse caso, conforme entendimento do STF, o processo pode ter andamento na Justiça comum. - As auditorias estão saturadas de processos e o Paraná não é exceção. Da mesma forma, essa tendência corporativa é aqui uma tradição: o caso de Campo Bonito, ora retomado por causa da denúncia de Joni Varisco em seu depoimento na Justiça contra Requião, é flagrante. Três PMs mortos e mais o líder sem-terra Teixeirinha e, apesar de toda essa contabilidade trágica, o promotor pediu arquivamento, afinal aprovado. - Também o IPM do massacre dos professores, que se arrastou por longos anos, deu em nada. Álvaro Dias se recusou a aceitar o primeiro, que absolvia todos os militares e enquadrava apenas civis, mas o último também, no argumento da obediência devida, embora o governador e o seu secretário de Segurança, o hoje desembargador Antonio Lopes de Noronha, tenham negado veementemente qualquer determinação para que se usasse bombas de efeito moral contra os professores. - O 1º de Maio, como se viu, perdeu a sua semântica revolucionária dos mártires de Chicago que lutavam pela jornada de oito horas e foram executados. Aliás, a melhor das reflexões, que se poderia ter feito ontem, é justamente a perda de expressão do trabalho como fator de produção com a financeirização do capitalismo e a empulhação das virtudes globalizantes. No Brasil, as indústrias mudam no espaço - saem do Sul e Sudeste para o Nordeste - para valer-se do aviltamento da mão-de-obra. E também aconteceu com a Renault, que dispensou gente na Europa para instalar-se, com subsídios escandalosos, em São José dos Pinhais, para pagar trabalhadores a um terço do praticado no Velho Mundo. - O avanço tecnológico e a globalização com o descarte da força de trabalho vão recriar um clima desumanizante, como aquele que no passado gerou o ‘‘Manifesto Comunista’’ e a ‘‘Rerum Novarum’’. O desemprego passa a ser estrutural e no Brasil ele é amainado pela economia informal, pois mais de 50% dos trabalhadores não têm carteira assinada.- Urge a globalização da luta operária, o que parece romântico e quixotesco, mas indispensável porque do jeito que está, só ganha o capitalismo internacional. É a desumanização em marcha, em seu aspecto mais deplorável e monstruoso.
FOLCLORELuis Carlos Hauly fez discurso na Câmara Federal culpando Lerner pelas ocorrências de Tamarana. O desejo inconsciente seria o de que Lerner reprimisse, como Álvaro Dias fez com os professores, para explorar na TV. Quando o ressentimento predomina, o pensamento é ausente.

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